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A Teologia da Libertação veio para unir as duas realidades: o divino ao humano |
No meu último
Comentário – sábado passado, 1º de Julho – encerrei uma temporada de reflexões,
voltadas para a Liturgia ou para Celebrações de Mistérios, relativos à nossa fé
ou para outros temas variados e especiais.
Agora, estou tendo a
alegria de colaborar com o Padre Uli, na Matriz de Bela Cruz, enquanto o
Pároco, Padre Claudio está de férias e fará um procedimento cirúrgico,
deixando-nos a responsabilidade de cuidar, pastoralmente de sua Paróquia. De
minha parte, acho muito bom estar seguindo uma linha de reflexão sobre a Missão
Sacerdotal, tão bem sugerida pelos atuais momentos litúrgicos.
Preparei-me para, em
cada celebração, aprofundar a Vocação profética – Sacerdotal, tanto da parte do
batismo, recebido pelos leigos, como do lado de quem recebe o Sacramento da
Ordem e exerce sua Missão Profética. Estou tendo o cuidado de dizer que o
Profeta não ensina alguma coisa da própria criatividade e sabedoria, mas fala
aquilo que Deus lhe mandou ensinar.
Tenho afirmado e repetido
que o Sacerdócio é um serviço que se presta sem visar lucro ou vantagens
materiais. Cheguei a dizer que os Sacerdotes,
‘temos uma sólida formação teológica que nos mostra um Deus perto de nós, que
convive dia a dia conosco, que nos ajuda a libertar-nos de todo erro e a levar
o nosso povo a se libertar também’. Disse-lhes ainda que ‘quero continuar a ver a realidade que
nos cerca, julgá-la à luz da Palavra de Deus e levar todos a agirem
de acordo com a sua consciência’. Acrescentei que ‘foi assim que eu aprendi desde muito cedo, e agora, na maturidade,
ainda me sinto bem, repassando para os outros’.
Porque
digo ter aprendido isso muito cedo? É
porque eu tive, no Seminário de Olinda, os melhores Professores de Teologia e sagrada
escritura, sociologia e filosofia, História da Igreja e Direito Canônico, todos
empenhados em nos transmitir o que havia de melhor e mais atualizado, bem como
oferecendo as melhores bibliografias para completar os estudos, já que não
havia os recursos de Internet para pesquisar. Em tudo havia o incentivo, o
apoio e o profetismo do
Arcebispo de Olinda e Recife, D. Helder, a segurança do Reitor do
Seminário, Pe. Marcelo Carvalheira e Professores como Pe. Arnaldo
Cabral, Newton Sucupira, Pe. Luís Sena, Ariano Suassuna, Pe. Almery Bezerra,
Vamireh Chacon, Pe. José Comblin, os Padres Irmãos Zeferino e Zildo Rocha
e tantos outros da maior competência.
Nossos
cursos de Filosofia e Teologia nos fizeram entender que tais Ciências não
deveriam ser fechadas, difíceis de ser atingidas e por fora das realidades.
Ambas nos deveriam dar uma formação crítica diante de nossa condição humana.
Até então se falava de estudos teóricos para as duas ciências, que nos levariam
a uma prática, mais tarde, na Pastoral da Igreja. Eram teorias, dissociadas da
prática.
Graças a Deus, chegou à Arquidiocese de Olinda e Recife, o Arcebispo Dom Helder Câmara, que já era conhecido, mundialmente, pela pregação que unia teoria à prática, palavra à obra, oração à ação. Estávamos vendo nascer, a Ditadura Militar, com todos os rigores que o regime nos impunha. Não havia oposição política ao Regime. Não havia, na prática, quem se atrevesse a contestar. Dom Helder foi um dos primeiros a ver, profeticamente, o trabalho da Igreja do lado dos mais fracos, dos injustiçados e dos mais pobres. Unido a outros estudiosos da Filosofia e da Teologia, de modo especial, estimulando a equipe de formação do seu Seminário, em Olinda, sugeriu a inserção de formadores e formandos no meio dos pobres, onde melhor se descobria o Cristo Crucificado, para porém em ação, aquilo que, teoricamente, iam aprendendo nas aulas do Seminário.
Na
Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil e no Regional Nordeste II da CNBB,
apareceu um Grupo de Bispos Proféticos que, corajosamente, defendia os Direitos
Humanos, sob a opressão da ditadura militar. Também Sacerdotes e leigos -
muitos leigos – entenderam a necessidade de ser Igreja, adotando uma Teologia
mais aberta pra libertação dos cativos e pobres.
Esta
Teologia trouxe uma outra percepção do que é “ser Igreja” numa hora em que o
Brasil e a América Latina viviam momentos de grande dureza. Ela nasceu,
exatamente, da preocupação da Igreja com a pobreza das grandes maiorias
marginalizadas.
Eis que surgem os Profetas da Igreja: D. Helder Câmara, D. José
Maria Pires, D. Antônio Fragoso, D. Francisco Austregésilo, D. Pedro
Casaldáliga, D. Paulo Evaristo e tantos outros que, no Nordeste do Brasil
ou em qualquer Regional da CNBB sentiram que a Missão da Igreja é do lado dos
pobres para ser libertadora e não assistencialista.
Entre os leigos
cristãos estava o Professor Paulo Freire que instituiu um método libertador de alfabetização,
expresso em duas de suas obras clássicas: “Pedagogia do Oprimido” e “Educação
como prática da Liberdade”, baseadas no vocabulário cotidiano da realidade dos
alunos. Citando o Frei Leonardo Boff, ele dizia: “a Teologia da Libertação não seria uma nova disciplina teológica, mas
um novo modo de fazer teologia, arrancando do inferno da pobreza/ e optando
pelos condenados da Terra”.
Apesar da grande
novidade da Teologia Libertadora que deveria ser ensinada e espalhada entre
todos, houve Bispos, sacerdotes e leigos que não a acataram e criaram problemas
e mal entendimentos entre governantes e governados. Mesmo assim ela encontrou aceitação: com o Padre
Gustavo Gutiérrez no Peru; Jon Sobriño em El Salvador; Leonidas Proaño no
Equador; Juan Luís Segundo no Uruguai; o salvadorenho e Santo D. Oscar Romero e
no Brasil: os primos Leonardo e Clodovis Boff; Frei Betto; Frei Carlos Mesters;
Pe. José Marins; Rubens Alves, Hugo Assman, Pe. Libânio e o belga-brasileiro
Pe. José Comblin, só para lembrar alguns.
Nosso grande e
estudioso Teólogo da Libertação, Frei Leonardo Boff, responde àqueles que
criaram problemas e mal-entendidos na compreensão e na aceitação desta maneira
de estudar, de ver e aprofundar a Teologia, que “Marx não foi nem pai nem padrinho da Teologia da Libertação. Foi o grito
dos oprimidos do Êxodo, foram os profetas bíblicos, foi a mensagem e a prática
de Jesus e dos apóstolos que estão na base desta Teologia”. É claro que uma
visão dessas, bem diferente daquela maneira tradicional de ensinar e aprender
Teologia, só podia causar o impacto que causou. Havia muita teoria a respeito
de Deus.
Ele permanecia lá nas alturas. Não dava para nos entendermos, mesmo
sabendo que o Filho de Deus já se tinha tornado um de nós. Este é o grande
impasse: a Teologia estava na Universidade, na Academia, lá entre os grandes, e
o povo, os operários, os pequeninos, abandonados. Não se entendiam. A Teologia da Libertação veio para unir as duas
realidades: o divino ao humano; a teoria à prática; a fé à obra; a oração à
ação.
É este Deus que se fez
homem, que viveu conosco, que escolheu os pobres, os pequeninos, os
desprotegidos pela sorte, que nos vem trazer o Deus que é Pai e o Espírito de
Deus, que é a vida para nos libertar de toda injustiça, do egoísmo, do mal e do
pecado. Este tema deve ser mais aprofundado.
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