AS LETRAS PROFÉTICAS DO COMPOSITOR ZÉ DANTAS
Faz 28 anos que escrevo um comentário no Mês de Fevereiro, referindo-me a uma festividade que se faz na cidade pernambucana de Carnaíba, onde se celebra uma Missa artística e saudosa em homenagem a um ilustre filho da terra, chamado José de Souza Dantas Filho, ou simplesmente, Zé Dantas.
Nascera aos 27 de
fevereiro de 1921 e, no centenário do nascimento, em 2021, a festa foi
inesquecível. Também, pudera! Para o médico, compositor e músico que ele fora,
só uma neta também musicista, dançarina, sobretudo de música e ritmos orientais,
como Marina Elali. Promoveu no Chevrolet Hall, em Recife, um Show com inúmeros convidados, em
parceria com ela, ou entre si, tais como: Ivete Sangalo, Tânia Mara, Elba
Ramalho, Zezé de Camargo e Luciano, Aviões do Forró, Geraldo Azevedo, Valdonis,
Daniel Gonzaga e Charlie Brown Júnior, deixando-nos um DVD para ficar na
história.
Depois de nascer em
Carnaíba, no Sertão do Pajeú, Zé Dantas foi escolarizado e com 17 anos
transferiu-se para o Colégio Americano Batista, em Recife, para prosseguir seus
estudos. Ali já compunha letras e músicas com temas e ritmos bem sertanejos, de
tal maneira que deixava professores e colegas impressionados com as mensagens
que saíam da sua inspiração.
Apesar da vocação para
esse tipo de música, bem regionalizada, ele continuava seus estudos,
ingressando na Faculdade de Medicina até se tornar médico, em 1949. Era a
grande motivação da família: ter um filho médico. Isso importava muito. Servia
de orgulho para todos.
Em 1947, dois anos
antes de se formar, ele se encontrou, no Grande Hotel, em Recife, com o Rei do
Baião, o já famoso Luís Gonzaga, e cantou para ele, algumas de suas
composições: “Acauã”, “Vem morena”, A volta da asa branca” e outras que
o deixaram impressionado, tanto que lhe foi logo pedindo algumas para gravar.
Zé Dantas ficou
felicíssimo com o aval do Sanfoneiro, mas lhe segredou que, à sua família,
honrava o fato de ser ele, médico e não um compositor ou cantador de forró. Se
quisesse gravar algumas de suas composições, evitasse o nome dele, para não
constranger a própria família ou assustá-la. É claro que Luís Gonzaga não
aceitou o preconceito. Não iria omitir a parceria.
Pouco tempo após esse
encontro, estouraram pelo Brasil afora, sobretudo no Nordeste, os sucessos de
Zé Dantas-Luís Gonzaga, de modo especial, suas composições “proféticas”. Todos
o admiram por ser “poeta e compositor”. Eu o admiro pela sua visão “profética”:
via bem longe, bem na frente, aquilo que Deus já previa; que Deus queria que a
gente anunciasse.
Zé Dantas já entendera
sua missão: antes de “curar o corpo” teria que cuidar da alma. Teria que
entender o sofrimento do povo. À família interessava a cura do corpo. Ele já
tornara isso claro para Luís Gonzaga.
Ao terminar sua
Faculdade de Medicina, vamos aperfeiçoar o Doutor. Vamos especializá-lo.
Levemo-lo para o Rio de Janeiro. Consigamos-lhe uma “Residência”. Ele tem que
crescer. Ele é só “bacharel” em medicina. Tem que ser “Doutor”
E assim aconteceu. O
Dr. José de Souza Dantas fez residência, especializou-se, dava sua vida pela
profissão, vivia dentro de hospitais e quando alguém o visitava, convidava em
tom de brincadeira: “vamos lá pra você
ver o que é ser bom numa cesárea”! Saturou, não viveu, faleceu ainda jovem,
aos 41 anos de idade, no Rio de Janeiro, sem que pudéssemos conhecer bem, sua
curta história como médico. Sabe-se pouco do Dr. José de Souza Dantas. Sabe-se
muito sobre o compositor, sertanejo, nordestino e profeta Zé Dantas.
Acompanhei
lá em Pernambuco e aqui, pelos meios de comunicação e pelas redes sociais, a
programação comemorativa e as mensagens, muito bem-merecidas, dirigidas ao
poeta e compositor – eu o chamo também de profeta - Zé Dantas, embora
todos possamos chamá-lo de precursor das músicas de protesto. É sobre isto que
quero hoje comentar. Se sua vida como médico foi tão curta e lhe tornou mortal,
sua vida como poeta, compositor e – de minha parte – Profeta, já superou os 100
anos, tornando-o imortal.
Pensem
bem no que vou dizer. Na década de 1950, ainda não tínhamos a efervescência da
Música Popular Brasileira, caracterizada pela Bossa Nova e pelas grandes
composições referentes à nossa realidade social, mas já tínhamos, em 1953,
músicas de Zé Dantas, como Algodão e Vozes da Seca e em 1955, Paulo
Afonso, esbravejando na voz de Luís Gonzaga as palavras e os sons das
composições musicais de Zé Dantas, reclamando, protestando contra o descaso que
as autoridades já revelavam, abertamente, contra o povo.
Em
1958 já apareciam a Bossa Nova, os Festivais de Música Popular Brasileira e
mais tarde, depois do Golpe Militar, as verdadeiras músicas de protesto e por
reivindicação política, que tanto deram na cabeça de gente. Zé Dantas, sem
esses ideais políticos, embora muito sociais por conviver com eles no Nordeste,
emprestou sua lucidez a Gonzagão e o fez intérprete dos mais profundos
sentimentos e das mais corajosas reivindicações de seu povo.
Observem, em “Algodão”:
“Bate a enxada no chão, limpa o pé de algodão,
Pois pra vencer a batalha
É
preciso ser forte, robusto, valente, ou nascer no sertão;
Tem
que suar muito pra ganhar o pão
Que
a coisa lá n’é brinquedo não.
Mas quando chega o tempo da colheita
Trabalhador, vendo a fortuna, que
beleza!
Chama a família e sai, pelo roçado
vai,
Cantando alegre, ai, ai!
Sertanejo do norte
Vamos plantar algodão
‘Ouro branco’ que faz o
povo feliz
Que tanto enriquece o
país,
Um produto do nosso
sertão”.
Cadê o nosso “ouro branco” decantado pelo poeta? O que houve com o seu cultivo, tão pujante, em Pernambuco, na Bahia, no Ceará, no Maranhão e até no Rio e São Paulo? Por que o Algodão de Salgueiro, tão propagado outrora, decaiu tanto? Se terminou a exportação para a Inglaterra, porque parar de produzi-lo mais internamente? Será que os outros novos “ciclos econômicos” que surgiram, foram mais importantes que o “ouro”? Tornaram-se “diamantes”?
“Vozes da Seca” é
também de 1953. Sua mensagem é muito + forte. Vejamos!
“Seu doutor, os nordestinos têm muita gratidão
Pelo auxílio dos sulistas nesta seca
do sertão;
Mas doutor, uma esmola a um homem
que é são,
Ou lhe mata de vergonha ou vicia o
cidadão.
É por isso que pedimos proteção a vosmicê
Homem por nós escolhido,
para as rédeas do poder,
Pois doutor dos vinte
estados, temos oito sem chover,
Veja bem quase a metade
do Brasil tá sem comer.
Dê serviço a nosso povo, encha os rios de barragem,
Dê comida a preço bom, não esqueça a
açudagem,
Livre assim nós da esmola, que no
fim dessa estiagem,
Lhe pagamo inté os juros, sem gastar
nossa coragem.
Se o doutor fizer assim, salva o povo do sertão,
Quando um dia a chuva
vim, que riqueza pra nação,
Nunca mais nós pensa em
seca, vai dar tudo neste chão
Como vê nosso destino,
mercê tem na vossa mão”.
A mensagem de Zé Dantas aqui é da mais concreta realidade. É o aniquilamento do sertanejo que vive na dependência total. É o dependente da caridade pública, que ele aceita para sobreviver. Quem vive de situação emergencial, vive de esmola. Passa vergonha. Não é isso que nós estamos presenciando hoje, quase 70 anos depois do grito do poeta? Depois de vermos milhões de brasileiros, enfrentando sol, chuva, noites indormidas, em filas intermináveis nos bancos, nas lotéricas para receberem uma esmola a que as autoridades chamam de “auxílio emergencial”, prestes a vê-los de novo, na mesma situação humilhante, para receberem 1/3 do que recebiam, não é uma vergonha? É por causa dessa visão que tinha Zé Dantas, que eu o chamo de Profeta: aquele que diz o que Deus quer que se diga. Aquele que “profere” a verdade que Deus manda anunciar. Não foi isso que o poeta fez?
Além
dessa situação “vergonhosa” que o povo está passando, ainda se está viciando a
receber migalhas, em vez de ganhar um trabalho que lhe dê dignidade, salário e
nome para torná-lo gente e não um ‘esmoler’
ou ‘mendigo’.
Na música Paulo Afonso, de 1955, eu destacaria alguns tópicos. Depois de enaltecer Delmiro, Apolônio, Dutra, Café Filho a quem o poeta chamou de “homens de valor... Paulo Afonso foi sonho que se concretizou”. Zé Dantas elogia do “cassaco ao engenheiro... erguendo a bandeira de ordem e progresso bem como a indústria gerando riqueza, findando a seca, salvando a pobreza e a usina dizendo na força da cachoeira: o Brasil vai”... Você foi muito otimista, Zé Dantas! Os sucessores daqueles que você elogiou, nem todos tiveram os mesmos objetivos, o mesmo entusiasmo e a mesma força de vontade deles. Muitos confundiram e continuam confundindo política com politicagem, bem comum com bem pessoal, estar a serviço de todos para servirem aos seus. Nós nos temos dado mal, depositando confiança em muitos homens públicos. Eles se elegem à custa de mentiras. Inventam palavreado novo, em língua estrangeira que todo mundo já sabe: significa “mentira”. No seu tempo, Zé Dantas, você interpretava a pureza d’alma, a verdade. Até os homens públicos deixavam que a bondade transparecesse. Mas tudo mudou.
Três
anos após sua morte, tivemos uma Ditadura Militar. Até a liberdade de expressão
que você praticou, foi proibida. Poucos são eleitos honestamente e toda sorte
de mentira é usada para dar vitória a alguém. E o pior: tudo em nome da
democracia. Quando você ouvia falar em “facada” no sertão, era “facada” mesmo.
Agora é “fakeada”: é uma simulação de facada que elege. E quanto
mal nos fez e está esperneando para continuar a fazer! Quanta saudade, Zé!
Obrigado por nos levar a refletir!
Esperança
nunca nos faltou! Até que, aqui e acolá, a gente tem acertado na escolha. Os “muito
liberais” ou os “conservadores” têm atrapalhado demais. Não aceitam a
alternância no poder. Aí, a democracia vira democradura.
Pode?
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