DITADOR MÉDICI IMPEDIU QUE DOM HELDER RECEBESSE PRÊMIO
NOBEL!
Na sequência de meus ‘Comentários Semanais’, uni no último sábado,
dois motivos antagônicos, embora faces de uma mesma moeda, referentes ao sexagésimo
ano do Golpe Militar de 1º de Abril de 1964, e o centenário do nascimento de
Dom Francisco Austregésilo, ocorrido em 03 de Abril de 1924.
Tentei mostrar as duas
faces da mesma moeda, por se tratar de um embate muito desigual: “dos que tinham a força, contra os que
tinham a fé”. Do lado destes, coloquei o destemor, a coragem e o
compromisso com a verdade e a justiça, tão bem assumidos por D. Francisco na
defesa dos mais pobres.
Enumerei vários nomes
de outros Bispos, detendo-me em um famoso, dentro e fora do Brasil, D.
Helder Câmara, sobre quem falarei um pouco mais, já que eu prometi no
final, ainda “voltar” ao assunto. Aqui estou.
D. Helder foi um
cearense famoso, conhecido, internacionalmente, que nos deu mensagens de vida e
coragem, de luta pela justiça, desafiando os poderosos da ditadura militar e
das riquezas injustas, com seus proféticos pronunciamentos dentro e fora do
país: sua espiritualidade era sua maior força.
Como D. Francisco, era
Cearense, aos 07 de fevereiro de 1909, em Fortaleza e morreu em Recife aos 27
de agosto de 1999, com mais de 90 anos, bem vividos, de consagração e dedicação
ao bem, à verdade e ao combate por uma sociedade justa, solidaria e de amor, também
pelos pobres.
Teve uma vida normal de
criança católica comum: batizado, crismado, primeira comunhão e entrada no
Seminário em Fortaleza. Nessa ocasião, seu pai, Sr. João Câmara, guarda-livros
de firmas comerciais e meio sem religião, disse-lhe uma frase que ele guardou
para sempre: “meu filho, você sabe o que
é ser padre? Padre e egoísmo nunca podem andar juntos. O padre tem que se
gastar, se deixar devorar”...
Sem esquecer esta
máxima, o seminarista (1923), o padre (1936), o bispo auxiliar do Rio de
Janeiro (1952) e o arcebispo de Olinda e Recife (1964) pautou a sua missão
dentro do Movimento Operário, dos Departamentos de Educação, da Teologia da
Libertação, das Comunidades Eclesiais de Base, da Renovação Conciliar, dos
Encontros de Irmãos, da conscientização política, das Conferencias Episcopais,
dos Conselhos e Comissões, em todos os níveis, dentro e fora do Brasil, de tal
maneira que não havia uma pastoral da Igreja, um serviço eclesial, junto á
Santa Sé, ou um convite internacional para palestra ou debate em qualquer
Universidade ou país do mundo, que ele não estivesse presente. Eu mesmo
presenciei, em Milão, no norte da Itália, uma caminhada, com cerca de 500 mil
jovens, em cujo encerramento ele desenvolveu o tema: “todo homem é o meu irmão.” E em Atenas, a Capital da Grécia - Mãe
da Democracia - em um debate com vários estadistas e em diferentes línguas,
eles responderam à indagação: "há
possibilidade de democracia hoje”? Lá estava o nosso Dom Helder dando a sua
mensagem de esperança num mundo “sem
fronteiras”, mais unido e mais saudável, onde todos pudéssemos viver como
irmãos.
Quantas vezes o vi e
ouvi, em redes de televisão europeia – algumas entrevistas, marcadas por mim –
ou se pronunciando em auditório lotado de gente, como em Castelamare di Stabia,
perto de Napoli, com voz forte e corajosa opondo-se a “ditaduras de esquerda ou de
direita, como nos hediondos tempos de Stalin ou de Hitler” com aplausos ou
críticas de muitos. Durante seu pastoreio em Olinda e Recife deu vida nova à
Igreja local, se aproximando muito do povo. Viajava demais ao exterior para
fazer Palestras.
Recebeu 32 títulos de
Doutor Honoris Causa, além de mais outros 54 prêmios e honrarias. Fez parte
de mais 32 organizações nacionais e internacionais. Deixou muitos livros,
originalmente, escritos em português ou em outras línguas e traduzidos pelo
mundo afora. De 1970 a 1973 foi candidatíssimo ao Prêmio Nobel da Paz. A
ditadura o boicotou.
É bom que a gente
saiba. Àquela época foram convocados os diretores e presidentes de todas as
empresas escandinavas no Brasil - Volvo, Scania Vabis, Ericson, Facit, Nokia e
outras de menor porte - e lhes foi solicitado que interviessem na Fundação
Nobel para evitar a concessão do “seu Prêmio” a Dom Helder Câmara Todos
lamentaram não poder intervir no caso, ao que o oficial general que presidia a
reunião ameaçou: “se os senhores não intervierem com firmeza e
Dom Helder chegar a receber o Prêmio Nobel da Paz, então as suas empresas no
Brasil não poderão remeter um centavo de lucros para as respectivas matrizes”.
Tinha falado “a mão de ferro” do General Médici. O governo tinha meios para
adotar tão grave atitude.
Certa vez, um repórter perguntou a Dom Helder porque, em meio a tantos limites e perseguições ele ainda tinha tanta vivacidade, fazia tantas viagens, recebia tantos títulos de doutor, tantas condecorações, tantos prêmios internos e externos, ao que ele respondeu com naturalidade e simplicidade: “para mim é muito simples compreender e viver estes acontecimentos. Em tudo isso, procuramos sentir nossa universalidade de católicos. Deus é criador e pai de todos”.
Não era sem razão que este homem era aplaudido, calorosamente, em
toda parte do mundo ao desenvolver os temas da fraternidade, da justiça, da não
violência, do desarmamento nuclear, da democracia, ao mesmo tempo em que
desafiava a ditadura militar, mostrando seus horrores, denunciando suas
injustiças e ficando do lado daqueles que eram torturados, expulsos do país,
exilados no exterior e, muitas vezes, mortos. Ele se indignava, batalhando na
defesa deles, visitando-os no exílio, levando e trazendo notícias para suas
famílias sem nenhum medo de estar traindo o evangelho ou de ser criticado por “estar fazendo política”. Ele estava,
sim, unindo fé e política, como seu Mestre Jesus fazia e a sua Igreja, através
da Constituição Gaudium et Spes aconselha
que o façam: “com empenho se deve cuidar
da educação civil e política... a fim de que todos os cidadãos possam
desempenhar o seu papel na vida da comunidade política”.
Foi essa sua confiança
profunda no Pai, sua fé constante no Filho, sua “espiritualidade” firme no amor
e no serviço indubitável à Igreja, que o levaram, como “Servo de Deus” a um Processo de Canonização -
estudado, trabalhado e apresentado em Concelebração na Catedral da Sé, da
Arquidiocese de Olinda e Recife, aos 27 de agosto de 2021, quando se
completaram 22 anos de sua morte - para ser encaminhado ao Vaticano – agora
como “Venerável”. Estes títulos de “Servo de Deus” e “Venerável” são de âmbito
arquidiocesano.
Os títulos seguintes de
“Beato” e de “Santo” são da alçada do Estado do Vaticano. Tem que haver
“provas” mediante “milagres”, respectivamente, comprovados, pela Ciência ou
pela Fé. Aí, o “Processo” muda de configuração.
Para completar a
informação e aguçar a curiosidade de meus possíveis leitores, acrescento que –
enquanto “Servo de Deus” e “Venerável” – até 2021, o tempo em Recife foi
consumido em digitalizar e imprimir 60.520 páginas, organizadas em 07 coleções:
correspondências (41 volumes); programas de rádio (33); discursos (31 volumes);
cartas circulares (24); hemeroteca = publicações de jornais (25 volumes);
meditações (19) e livros (07 volumes).
Demandou um longo tempo
nesse levantamento material. Agora é com Roma. O que se vai fazer por lá,
depende de algo sobrenatural. É provar que o Deus em quem D. Helder sempre
confiou, o quer mais perto d’Ele.
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