sábado, 25 de maio de 2024

ARTIGO

 

Quem ensina o Professor             a ensinar?

Prof. AÉCIO CÂNDIDO (*)

Eu não sou formado em Pedagogia e em nenhuma outra licenciatura específica, embora seja professor desde os 17 anos. Comecei preparando alunos para enfrentar as provas de Segunda Época. Depois dessa estreia freelancer, ensinei em  colégio de freiras, em escola técnica, em cursinho pré-vestibular e em grupo escolar rural. Na universidade, ensinei na graduação e na pós-graduação, orientando algumas dezenas de monografias e dissertações de mestrado.

             Não me vejo com outra profissão, senão a de professor. Isso justifica meu interesse pelas teorias pedagógicas e pelos debates sobre o ensino, um campo de discussões apaixonadas, de querelas por ideias e palavras, que poderiam ser enormemente abreviadas se o caráter empírico da educação fosse levado em consideração. Em educação, muitas teses podem ser testadas, para saber se funcionam de fato. A educação é um dos poucos campos das ciências sociais onde o método experimental encontra espaço. Mas pouco se apela para ele. As pessoas têm mais apego a suas esperanças e desejos que aos fatos. Talvez por isso, nesse meio, a Filosofia da Educação e a Sociologia da Educação façam mais sucesso que a Pedagogia. A Filosofia e a Sociologia definem o que é a educação e qual sua função na sociedade democrática. Elas nos dizem, em traços gerais, para que serve a educação. Mas não ensinam como ensinar. Guiados por elas, queremos formar cidadãos, queremos uma educação de qualidade, mas pouco nos esforçamos para saber como realizar esses nobres desejos. O como diz respeito ao exercício do ensino, a técnicas e estratégias pedagógicas. Sobre isso pouco se fala. O professor deve aprender a ensinar, mas não são muitos os livros que tratam do ensino.

             Eu destaco dois, particularmente instrutivos e inspiradores. O primeiro chama-se Aula Nota 10, do americano Doug Lemov. O subtítulo reforça o tema: 49 técnicas para ser um professor campeão de audiência.  Para quem não simpatiza com a expressão “professor campeão de audiência”, eu sugiro entendê-la como “professor admirado e querido”. Acho que todo professor deseja isso, não? O segundo, editado pela UVA (Universidade do Vale do Acaraú), chama-se Professor com Prazer!, do cearense Leunam Gomes. O livro do professor Leunam tem também um subtítulo esclarecedor: vivência e convivência na sala de aula. E tem no título um ponto de exclamação enfático.

             

          Doug Lemov é um diretor de escola marcado por um desafio obsessivo: o que fazer para que os alunos aprendam?  Sobretudo alunos provenientes de ambientes sociais degradados. Ele próprio, como professor, ensaiou responder a esta questão, identificando técnicas facilitadoras do aprendizado, testando-as, sistematizando-as. Mas, insatisfeito, ampliou a sua pesquisa: foi observar como trabalham em sala de aula professores reconhecidos por colegas e por alunos como bons professores.

           Seu problema agora era: o que fazem os bons professores para que os alunos aprendam? Saindo a campo, ele começou a assistir às aulas desses profissionais. Rapidamente percebeu que havia algumas práticas comuns, que se repetiam com frequência. Eram jeitos eficientes de ensinar, eram técnicas. Com elas, obtinham-se dos alunos atitudes comprometidas com o aprendizado, como atenção e participação nas aulas, responsabilidade com as tarefas escolares e engajamento. Tudo isso em função de um objetivo claro: o aprendizado. Mapeando, dissecando e sistematizando essas técnicas, ele chegou às 49 que compõem o livro.

           Quando me encontrei com esse livro, há coisa de uma década, ele me impressionou de imediato: “É o melhor livro de Pedagogia que eu já li”, disse a mim mesmo.

           Tive a mesma sensação agora, há algumas semanas, ao ler o livro do professor Leunam Gomes (a edição é de 2019). O professor Leunam foi educador popular no Movimento de Educação de Base (MEB), radialista, diretor de rádios educativas, secretário de Educação em alguns municípios cearenses, professor e gestor universitário. Seus questionamentos sobre a prática do ensino começaram a partir da autoavaliação de suas aulas, no início da carreira de professor, quando, jovem seminarista, ensinava em colégios de Olinda e de Recife para engordar o orçamento. Segundo ele, as aulas eram pouco motivadoras, apesar do esforço honesto em se comunicar com os alunos.

           Certamente vem daí sua preocupação com certas ferramentas que o professor possui mas que raramente aprende a usar. “Pronunciemos as palavras com clareza e em tom que o aluno mais distante possa perceber, evitando gritos ou falar alto para não tornar irritantes, nem tão baixo que não possamos ser percebidos”. Este é um alerta precioso sobre a importância da dicção e da modulação da fala. Ele continua, chamando atenção para a expressão corporal: “Falemos com o corpo, movimentando-nos moderadamente. Não fixemos os olhos em um só local e muito menos num só aluno. Comuniquemo-nos com todos”. Infelizmente, poucos professores sabem disso. Os atores sabem. 

 

          Não sei se o professor Leunam conhece o livro de Lemov; é possível que não. Mas ambos, por caminhos diferentes, chegaram a muitas conclusões comuns. O professor Leunam não pesquisou um grande grupo de professores, pesquisou a si mesmo. Como resultado de suas memórias, ele mapeou 25 técnicas pedagógicas, que expõe em crônicas curtas, leves e informativas. Elas nos ensinam a transformar a aula num desafio para os alunos, a entusiasmá-los, a estimular-lhes a curiosidade e a cooperação entre equipes; a avaliar para motivar e não para derrotá-los, a dividir com eles as responsabilidades da sala de aula.

           Ele reconhece a avaliação como uma aliada forte do aprendizado. “Cada dia, os alunos devem ser convidados a avaliar as aulas. O que mais aprendemos no dia de hoje? Que aspectos facilitaram ou dificultaram a aprendizagem em nossa aula?” Que habilidades ele deriva desta prática? “Participando do processo de avaliação, os alunos desenvolverão o senso crítico. Exercitarão o senso de justiça. Descobrirão as qualidades de seus colegas, do professor, da sala de aula, da aprendizagem, da escola”.

           Estes dois livros valem uma biblioteca. Eles tratam de técnicas que qualquer professor pode adotar para melhorar suas aulas e se transformar num bom professor. Não esqueçamos: bom professor é aquele com quem os alunos aprendem. Marcelo de Carvalho reconhece na contracapa que o livro do professor Leunam “nos leva a concluir que, revolucionar a sala de aula é uma possibilidade real e mostra como conseguir este objetivo”.

 (*) Prof. Aécio Cândido – Presidente do Conselho de Educação do Rio Grande do Norte possui graduação em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal Rural do Semiárido (1978), mestrado em Sociologia Rural pela Universidade Federal da Paraíba (1991) e doutorado em Sociologia - Université Laval (1996 - Quebec, Canadá). É professor adjunto do Departamento de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, aposentado desde 2013. -

               (Publicado no jornal De Fato ed. nº 6.969, ano XXIV. Mossoró, 24 de maio de 2024, p. 2. Espaço Jornalista Martins de Vasconcelos)

 


 


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