Todas as formas de vida importam. Mas, quem se
importa?
Em nosso Comentário de
Sábado passado - 31 de agosto – demos início à reflexão sobre o Mês da Bíblia,
que iniciaria logo no 1º de Setembro. É claro que iremos continuar, até o fim
do mês, com a proposta da CNBB sobre o estudo do Profeta Ezequiel, embora
reconheçamos o valor da data de hoje.
É que, nela estamos
comemorando 202 anos do Grito de ‘Independência
ou Morte’, dado por D. Pedro I, aos
Os
motivos que levaram à Proclamação da República foram os mesmos que haviam
levado ao grito da independência: foi por
um desejo das elites que queriam também conquistar a autonomia política,
como já dissemos.
Nestes
últimos 135 anos – de 1889 para cá – tivemos a mudança do Império para a
República, dois/três Golpes de Estado, duas nítidas Ditaduras – a de Getúlio e
a Militar – (há pouco, uma ½ ditadura, camuflada de democracia) dois
“impeachments” de mandatos, democraticamente votados, eleitos e assumidos;
ultimamente temos estado às voltas com escaramuças, atentados, prisões e toda
sorte de trapaças para impedir eleições livres e, como em toda a nossa
historia, as elites não dormiram, se uniram, amordaçaram o povo, usaram de
forças antidemocráticas e apavoraram a todos, dando-lhes uma insegurança total.
Só os inocentes ainda se enganaram à procura “de um pau que tenha sombra” e se arriscaram na defesa de “canalhas, canalhas, canalhas”. Será que
precisa ir muito longe para conferir isso que estamos dizendo? Não será entre
nós que os homens se sucedem no poder, levando consigo os afilhados e
bajuladores, sem concurso, sem habilidades para exercerem determinadas funções,
sem qualificação profissional, simplesmente por que são “do lado do homem” ou
daquele que está de plantão no momento? “O QUE É ISSO, COMPANHEIRO” perguntava
Fernando Gabeira em sempre atualizado livro de nossa literatura e o
Documentário, prefaciado por Dom Arns, acrescentava: Brasil, nunca mais! Que mentira! Disfarçamos uma Ditadura.
Para
ajudar nessa reflexão e rever nossas posições políticas, partidárias e,
sobretudo, democráticas, desde 1995 - há 30 anos, portanto – que a Igreja do
Brasil promove o grito dos excluídos: um conjunto de manifestações
populares que ocorre por toda parte, ao longo da Semana da Pátria, que se
encerra amanhã: Dia da Independência - 07 de Setembro. Sua origem remonta à
Segunda Semana Social Brasileira, promovida pela Pastoral Social da C.N.B.B.
realizada entre 1993 e 1994. Além da CNBB, outros organismos participam da
organização e realização do Grito dos Excluídos, tais como: o (Conselho
Nacional de Igrejas Cristãs) CONIC, os Movimentos Sociais, a OAB e outras
entidades envolvidas com a justiça social.
Desde 1995 há um Tema Geral: “A Vida em 1º lugar”, seguido de Lemas
específicos, como lembraremos agora.
Nestes últimos 30 anos,
participamos de manifestações, as mais criativas e variadas possíveis:
celebrações, atos públicos, romarias, seminários e debates, teatro, música,
dança e feiras de economia solidária, sempre dentro de um Tema Geral e
de Lemas Específicos como estes:
“Trabalho e Terra para viver”. “Queremos justiça e dignidade”. “Aqui é o meu país”. “Brasil: um filho teu não foge à luta”. “Progresso e Vida – Pátria sem dívidas”. “Por amor a essa pátria, Brasil”. “Soberania não se negocia”. “Tirem as mãos... o Brasil é nosso chão”. “Brasil: mudança pra valer, o povo faz acontecer”. “Brasil! Em nossas mãos, a mudança”. “Brasil: na força da indignação, sementes de transformação”. “Isto não vale: queremos participação no destino da Nação”. “Vida em 1º lugar: direitos e participação popular”. “Vida em 1º lugar: a força da transformação está na organização popular”. “Vida em 1º lugar: Onde estão nossos direitos? Vamos às ruas para construir o projeto popular”. “Pela vida, grita a terra... Por direitos, (gritamos) todos nós”. “Queremos um Estado a serviço da Nação, que garanta direitos a toda a população”. “Juventude que ousa lutar, constrói projeto popular”. “Ocupar ruas e praças por liberdade e direitos”. “Que país é este, que mata gente, que a Mídia mente e nos consome”? “Este sistema é insuportável: exclui, degrada, mata”. “Por direitos e democracia, a luta é todo dia”. Em 2018, além do Tema Geral, que foi sempre o mesmo em todos esses anos - “a vida em 1º lugar” - tivemos como lema: “Desigualdade gera violência: basta de privilégio”. Para o ano de 2019, em todo o Brasil, a semana da pátria teve como reflexão: “este sistema não vale; lutamos por justiça, direitos e liberdade”. Foi a melhor maneira encontrada para celebrar as Bodas de Prata do nosso Grito. Em 2020, 26º Ano do Grito tivemos o Tema de sempre, com o Lema: basta de miséria, preconceito e repressão! Queremos trabalho, terra, teto e participação. No 27º ano do Grito dos Excluídos, além do Tema de todos os anos – a vida em 1º lugar – refletimos sobre o Lema: na luta por participação popular: saúde, comida, moradia, trabalho e renda já. Em 2022, 28º Grito, mantivemos o Tema sob o Lema: trabalhar menos; trabalhar todos; repartir tudo. No ano passado, 2023, demos o nosso 29º Grito, sob o lema: você tem fome e sede de que?
Neste 30º Ano do Grito dos Escolhidos, além do Tema continuar,
o lema é novo: Todas as formas de vida importam. Mas, quem se importa?
De 1995 para cá as Pastorais Sociais da CNBB deram um novo enfoque àquela prática política que, desde a “Invasão” portuguesa, acontecia aqui no Brasil. Qualquer reforma, qualquer mudança, qualquer movimentação social tinha que enveredar pela ótica dos poderosos, das elites, dos mais ricos, que só visavam o lucro. As soluções apresentadas eram liberais demais, voltadas para o Capitalismo selvagem que desprezava os mais pobres. Estes não contavam. Eram tidos como um peso. O Grito dos Excluídos veio dar-nos uma nova visão da realidade e se começou a celebrar o Dia da Independência de maneira diferente. Não é que tenha mudado alguma coisa na cabeça dos homens públicos, mas o pouco que se está fazendo, rói demais a consciência de alguns. Somos um pingo d’água na floresta em chamas. Coincidência, né?
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