sábado, 7 de setembro de 2024

O COMENTÁRIO DA SEMANA

 

Todas as formas de vida importam.             Mas, quem se importa?

Em nosso Comentário de Sábado passado - 31 de agosto – demos início à reflexão sobre o Mês da Bíblia, que iniciaria logo no 1º de Setembro. É claro que iremos continuar, até o fim do mês, com a proposta da CNBB sobre o estudo do Profeta Ezequiel, embora reconheçamos o valor da data de hoje.

 É que, nela estamos comemorando 202 anos do Grito de ‘Independência ou Morte’, dado por D. Pedro I, aos 07 de Setembro de 1822, às margens do Rio Ipiranga, em São Paulo. Os motivos que o levaram a tomar essa atitude são os mesmos que levam os homens de hoje à busca insana pelo poder: “as elites brasileiras queriam – e permanecem querendo - conquistar a autonomia política”. E assim continua: quem tem dinheiro quer ser o detentor também do poder. Quer ter em mãos o controle econômico, o aumento dos impostos sobre os mais pobres, a cobrança de altos juros, contanto que os ricos continuem mais ricos, à custa dos pobres que continuam cada vez mais pobres. Essa é a mentalidade ou a ideologia do “colonizador”, do “invasor”, do patrão, daquele que manda. O dinheiro que devia servir à educação, à segurança, à saúde e ao bem estar de todos fica em mãos das elites ou daqueles que têm poder, e a maioria que se “exploda”. Em nossa curta história - de cerca de 524 anos – desde a “invasão” dos portugueses até 1889 não sabíamos o que era democracia, apesar de ter sido dado, fazia 67 anos, o Grito da Independência. Continuávamos como anteriormente: não elegíamos autoridade, porque, para a função de Imperador ninguém vota. Tínhamos ficado livres do Império Português, mas o regime adotado aqui, continuava sendo o Imperial.

            Os motivos que levaram à Proclamação da República foram os mesmos que haviam levado ao grito da independência: foi por um desejo das elites que queriam também conquistar a autonomia política, como já dissemos.

            Nestes últimos 135 anos – de 1889 para cá – tivemos a mudança do Império para a República, dois/três Golpes de Estado, duas nítidas Ditaduras – a de Getúlio e a Militar – (há pouco, uma ½ ditadura, camuflada de democracia) dois “impeachments” de mandatos, democraticamente votados, eleitos e assumidos; ultimamente temos estado às voltas com escaramuças, atentados, prisões e toda sorte de trapaças para impedir eleições livres e, como em toda a nossa historia, as elites não dormiram, se uniram, amordaçaram o povo, usaram de forças antidemocráticas e apavoraram a todos, dando-lhes uma insegurança total. Só os inocentes ainda se enganaram à procura “de um pau que tenha sombra” e se arriscaram na defesa de “canalhas, canalhas, canalhas”. Será que precisa ir muito longe para conferir isso que estamos dizendo? Não será entre nós que os homens se sucedem no poder, levando consigo os afilhados e bajuladores, sem concurso, sem habilidades para exercerem determinadas funções, sem qualificação profissional, simplesmente por que são “do lado do homem” ou daquele que está de plantão no momento? “O QUE É ISSO, COMPANHEIRO” perguntava Fernando Gabeira em sempre atualizado livro de nossa literatura e o Documentário, prefaciado por Dom Arns, acrescentava: Brasil, nunca mais! Que mentira! Disfarçamos uma Ditadura.

            Para ajudar nessa reflexão e rever nossas posições políticas, partidárias e, sobretudo, democráticas, desde 1995 - há 30 anos, portanto – que a Igreja do Brasil promove o grito dos excluídos: um conjunto de manifestações populares que ocorre por toda parte, ao longo da Semana da Pátria, que se encerra amanhã: Dia da Independência - 07 de Setembro. Sua origem remonta à Segunda Semana Social Brasileira, promovida pela Pastoral Social da C.N.B.B. realizada entre 1993 e 1994. Além da CNBB, outros organismos participam da organização e realização do Grito dos Excluídos, tais como: o (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs) CONIC, os Movimentos Sociais, a OAB e outras entidades envolvidas com a justiça social.

Desde 1995 há um Tema Geral: “A Vida em 1º lugar”, seguido de Lemas específicos, como lembraremos agora.

Nestes últimos 30 anos, participamos de manifestações, as mais criativas e variadas possíveis: celebrações, atos públicos, romarias, seminários e debates, teatro, música, dança e feiras de economia solidária, sempre dentro de um Tema Geral e de Lemas Específicos como estes:

  Trabalho e Terra para viver”. “Queremos justiça e dignidade”. “Aqui é o meu país”. “Brasil: um filho teu não foge à luta”. “Progresso e Vida – Pátria sem dívidas”. “Por amor a essa pátria, Brasil”. “Soberania não se negocia”. “Tirem as mãos... o Brasil é nosso chão”. “Brasil: mudança pra valer, o povo faz acontecer”. “Brasil! Em nossas mãos, a mudança”. “Brasil: na força da indignação, sementes de transformação”. “Isto não vale: queremos participação no destino da Nação”. “Vida em 1º lugar: direitos e participação popular”. “Vida em 1º lugar: a força da transformação está na organização popular”. “Vida em 1º lugar: Onde estão nossos direitos? Vamos às ruas para construir o projeto popular”. “Pela vida, grita a terra... Por direitos, (gritamos) todos nós”. “Queremos um Estado a serviço da Nação, que garanta direitos a toda a população”. “Juventude que ousa lutar, constrói projeto popular”. “Ocupar ruas e praças por liberdade e direitos”. “Que país é este, que mata gente, que a Mídia mente e nos consome”? “Este sistema é insuportável: exclui, degrada, mata”. “Por direitos e democracia, a luta é todo dia”. Em 2018, além do Tema Geral, que foi sempre o mesmo em todos esses anos - “a vida em 1º lugar” - tivemos como lema: “Desigualdade gera violência: basta de privilégio”. Para o ano de 2019, em todo o Brasil, a semana da pátria teve como reflexão: este sistema não vale; lutamos por justiça, direitos e liberdade”. Foi a melhor maneira encontrada para celebrar as Bodas de Prata do nosso Grito. Em 2020, 26º Ano do Grito tivemos o Tema de sempre, com o Lema: basta de miséria, preconceito e repressão! Queremos trabalho, terra, teto e participação. No 27º ano do Grito dos Excluídos, além do Tema de todos os anos – a vida em 1º lugar – refletimos sobre o Lema: na luta por participação popular: saúde, comida, moradia, trabalho e renda já. Em 2022, 28º Grito, mantivemos o Tema sob o Lema: trabalhar menos; trabalhar todos; repartir tudo. No ano passado, 2023, demos o nosso 29º Grito, sob o lema: você tem fome e sede de que?

Neste 30º Ano do Grito dos Escolhidos, além do Tema continuar, o lema é novo: Todas as formas de vida importam. Mas, quem se importa?

 De 1995 para cá as Pastorais Sociais da CNBB deram um novo enfoque àquela prática política que, desde a “Invasão” portuguesa, acontecia aqui no Brasil. Qualquer reforma, qualquer mudança, qualquer movimentação social tinha que enveredar pela ótica dos poderosos, das elites, dos mais ricos, que só visavam o lucro. As soluções apresentadas eram liberais demais, voltadas para o Capitalismo selvagem que desprezava os mais pobres. Estes não contavam. Eram tidos como um peso. O Grito dos Excluídos veio dar-nos uma nova visão da realidade e se começou a celebrar o Dia da Independência de maneira diferente. Não é que tenha mudado alguma coisa na cabeça dos homens públicos, mas o pouco que se está fazendo, rói demais a consciência de alguns. Somos um pingo d’água na floresta em chamas. Coincidência, né? 


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