ROMARIAS EM GUARACIABA DO NORTE
Desde menino,
testemunhei o povo falar em dois destinos de romarias em nossa terra. Um era
Sussuanha para onde muitos acorriam a pedir graças a Nossa Senhora da Saúde. O outro, no caminho para Reriutaba, onde fora assassinada a jovem Isabel que fazia uma
romaria para Sussuanha.
Estou voltando a
este assunto porque sempre tive uma atenção especial à Sussuanha, era o único
distrito, aonde podíamos ir à pé, para as novenas de Nossa Senhora da Saúde.
Sentia também que meus pais tinham um
carinho especial por aquele lugar. Escolheram a Sussuanha para casar, num período
da tradicional festa de Nossa Senhora da Saúde. Casaram fugidos, como se dizia
à época. Longe dos pais que não concordavam com o casamento. Eles eram primos.
Os pais eram irmãos. E foram muito felizes. Contemporâneos me disseram que meus
pais eram sempre apaixonados. Pena que a convivência durou pouco. Minha mãe
morreu de parto do sexto filho que foi o Laerte.
Sussuanha, tem
portanto, um marco especial para mim. Naquele tempo todos iam à Sussuanha a pé.
Não havia carros. Na cidade, talvez uns dois. Na Sussuanha, o caminhão do seu Zeca Marinho. Ir
à pé também fazia parte da promessa.
Meu pai fazia
parte da Banda de Música e minha mãe era integrante do coro da Igreja e ambos
acompanhavam o vigário, Padre Antonino, para as celebrações nas capelas. Uma razão
óbvias: À época todas as celebrações da Igreja eram em Latim. Então as cantoras
tinham que aprender os cânticos, em Latim. E a Banda tinha que fazer o acompanhamento
junto às cantoras. Era para aqueles dois grupos que as Igrejas tinham um lugar
especial de destaque: O Côro da Igreja.
Foi ao lado da Igreja da Sussuanha que as cantoras e a Banda de Música tiraram uma fotografia, no dia da criação do Coro Santa Cecília, em 21 de novembro de 1946, conforme está em nosso livro GUARACIABA DO NORTE -Nossas Ruas, Nossa História. Dentre os que aparecem nesta foto acho que estão ainda entre nós a Prazerinha Cori e a Madrinha Zilmar. Bem no centro, de chapéu preto, está meu pai José Raimundo Gomes Sobrinho. Ao seu lado, minha mãe. Ao lado de minha mãe, a sua irmã Dolores. Ajoelhada, bem ao centro, a Tia Eunice. No chão, sentadas, estão De Lourdes, Tia Aucília, Madrinha Zilmar e Sefisa Cori. Ao lado do meu pai, Raimundo Carvalho, ao lado um desconhecido e a seguir a Raimundinha Cori, mãe da Célia e sogra do Zeneudo.
Fui rever a Sussuanha em 5 de outubro. A Igreja, de uma limpeza impressionante. Muito bem cuidada. Até a pracinha em frente me pareceu muito bem zelada. Fiquei feliz e ver.
HÁ 95 ANOS, UM BÁRBARO FEMINICÍDIO
Helder Mello
Na sexta-feira
11 de outubro de 2024 recordamos os 95 anos do feminicídio que ceifou a vida de
Isabel Maria da Conceição, mais conhecida como “Finada Isabel”.
Quem
trafega na Ladeira das Pedras, que liga os municípios de Guaraciaba do Norte e
Reriutaba não deixa passar desapercebida a visão da modesta capelinha próxima
ao mirante de exuberante beleza natural.
Ela
está ali para marcar como uma espécie de cenotáfio, o local onde a jovem de 28
anos, Isabel, foi assassinada pelo seu marido ‘Zé Passarinho’, diante do filho
de 3 anos quando a família rumava de Santa Cruz (hoje Reriutaba) para a cidade
de Campo Grande (hoje Guaraciaba do Norte) em direção ao distrito de Sussuanha.
O
marido movido por machismo, com ódio no coração por Isabel ter cortado sua
vasta e bela cabeleira ficou inebriado de ciúmes e traçou o plano maligno.
Convenceu
ela e o filho de pegarem um jumentinho e subirem a Serra da Ibiapaba para
assistirem as novenas de Nossa Senhora da Saúde em Sussuanha.
Isabel
até que desconfiou da religiosidade repentina do marido que repudiava a sua
devoção à fé católica, porém esta para não contrariar mais o marido após o
corte dos cabelos, já tendo sofrido mais tratos, resolveu ir esta viagem.
Na
localidade, onde hoje se encontra a Capela, eles resolveram apear do jumento e
dormir para rumar na manhã seguinte ao destino, porém enquanto dormia Isabel
foi esfaqueada na presença do filho e teve seu corpo jogado talhado abaixo.
Zé
Passarinho abandona a criança e volta para o povoado mentindo dizendo que foram
atacados por uma onça.
Mas
milagrosamente o menino retorna para casa no lombo do jumento (primeiro milagre
atribuído à Santa popular) e conta o
acontecido. O pai é preso e passa alguns anos na cadeia de Campo Grande, sempre
lamentando o crime até que este sumiu da cadeia a portas fechadas (segundo
milagre atribuído a ela).
Nos
anos 50 foi erguida a primeira capela que foi reconstruída em 2004.
Em
2007 quando fui Diretor do Teatro João Barreto recebemos a Sra. Maria da Penha
e realizamos uma caminhada até lá pelo direito das mulheres vítimas de
violência.
Santa
Isabel, Rogai por nós!
OBS. A capelinha, hoje
existente, foi construída com o apoio do Professor José Teodoro Soares,
à época Reitor da UVA a pedido da ÚNICA
– União dos Conterrâneos e Amigos de Guaraciaba do Norte.





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