sábado, 15 de março de 2025

COLUNA PRIMEIRO PLANO

 

IBIAPABA:

29.765 ELEITORES ANALFABETOS

Edição de 15 de março

Na terça feira, dia 11, muitos amigos se reuniram no mezanino do prédio onde reside Juarez Leitão para celebrar seu aniversário, à base da tapioca e muitas iguarias apropriadas para o café e os sucos.

 Lá estavam os ex-prefeitos Antônio Cambrais e Luís Marques. O ex-Governador Lúcio Alcântara. Escritores, Professores, poetas, jornalistas e, naturalmente, Betanistas, seus ex-colegas do Seminário de Sobral.

                                                            

Na oportunidade, Antônio Cambrais autografou seu livro de 371 páginas, com muitas ilustrações contando a sua importante caminhada que começou lá no interior de Senador Pompeu.

 De acordo com os resultados da última eleição, a Serra da Ibiapaba tem 29.765 eleitores analfabetos. Pode parecer pouco, em relação ao total do eleitorado: 261.035.

 Mas pode ser um número muito pequeno para ser alfabetizado em quatro anos de uma gestão municipal. Os números de analfabetos são proporcionais à população de cada município:

 Carnaubal: 1.251; Croatá: 2.952; Ibiapina: 1.086; Ipu 5.062; Guaraciaba do Norte: 6.424; São Benedito: 3.113; Tianguá: 5.441; Viçosa do Ceará: 4.436.

 Acabar com o analfabetismo é só uma questão de Metodologia. Não será apenas colocar os analfabetos em sala de aula. Já fiz isto inúmeras vezes, com excelentes resultados.

 A última experiência foi no município do Graça, em 2017. Os alunos eram muito assíduos e não gostavam da sexta feira que era o dia de planejamento dos professores. Portanto, sem aulas para os alunos.

 Ouvi de um aluno que, à época, era o vice prefeito: “Nada me impede de ir a aula. Quando dá 5 horas, para tudo o que estou fazendo e vou me preparar para ir à aula”.  Era no distrito da Lapa.

 A coordenação local era das professoras Verinha Azevedo e Marisa Rodrigues, (in memoriam) com uma equipe de Professores e Professoras bem preparados e com vontade de fazer bom trabalho.

 Era o Método de Paulo Freire que eu lhes havia passado, de uma forma prática e com muitos exercícios. Não eram aulas expositivas. Eram participativas, de modo que os alfabetizadores fossem capazes de aplicar nas suas salas.

 Mas, infelizmente, os analfabetos parecem invisíveis nos seus municípios. Ninguém cuida deles com carinho e convicções de que são pessoas que merecem cuidados especiais, exatamente porque não puderam estudar na infância. A oportunidade lhes foi negada.

 Só há bons resultados no trabalho de alfabetização de adultos se houver vontade e convicção de quem cuida da tarefa. O trabalho não termina ao colocarem os alunos na sala de aula. É aí que começa o trabalho.

 O Museu da Imagem e do Som do Ceará vai realizar o FORUM DO FUTURO e fui convidado a participar da Mesa 1, no dia 26 de março, sobre Direitos Humanos em Perspectiva: Desafios e Transformações, das 10,30 às 12,30h.

O Ator, Diretor e Apresentador da TVC Ricardo Guilherme tem uma peça de teatro que deveria ser apresentada em todas as escolas do Fundamental ao Superior: É PROIBIDO PROIBIR. Daria bons debates.

 Desta vez, a vergonha nacional, mais uma vez foi de um tal deputado Gustavo Geyer, goiano, em relação à Ministra Gleise Hoffman. De baixíssimo nível. Tudo indica que lhe vai custar caro.

Aliás, o Congresso Nacional está cheio de políticos que nunca se prepararam para chegar lá. Não sabem o que ali estão fazendo. Não apresentam um projeto de destaque. Só querem fazer cenas para aparecer. Quem os elegeu?

 O Ceará também tem contribuído, elegendo maus deputados. Uns só olham para os próprios interesses. Ainda bem que Flávio Dino chegou ao STF e está dando um nós nos aproveitadores. A PF está no encalço.

 A política é fundamental, mas precisa de políticos sérios que estejam voltados para o bem coletivo. Este é o sentido de suas ações. A questão está na escolha.

PESAR pelo falecimento do amigo JOSÉ ALMIR BALTAZAR, o primogênito de uma grande família. Ficam as boas lembranças de sua honrada trajetória.

                                                                                    

 MEMÓRIAS DA DITADURA

Na prisão,

      Fausto Nilo desenha LIBERDADE,                        em papel higiênico!                                                                                                                                                                                                                 João de Paula Monteiro Ferreira (*)

- Tô lascado. O papai vai me ver fumando!

Foi o que disse Aristeu Holanda, estudante de economia da UFC, ao ver a foto de capa da revista VEJA de 16 de outubro de 1968 que noticiava a prisão dos oitocentos participantes do XXX Congresso da UNE. Fumando um vistoso cigarro, ele destacava-se entre as pessoas espremidas na carroceria de um caminhão que transportava de Ibiúna para a capital paulista parte dos aprisionados naquela operação repressiva.

Espirituoso como é, Aristeu não perdeu a oportunidade para fazer uma brincadeira com aquela situação, provocando risadas em todos nós que estávamos presos com ele. Não termos perdido a disposição para rir, não significava que as coisas estivessem fáceis ali no Presídio Tiradentes. Mesmo amontoados em celas superlotadas, que não possuíam as mínimas condições para alojar condignamente seres humanos, sofrendo pressões psicológicas de todo tipo e com muitas incertezas sobre o que seria feito conosco, não nos aquebrantamos e logo, lançando mão dos parcos meios que estavam ao nosso alcance, começamos a protestar contra a injustiça da nossa prisão.

Com batom fornecido pelas colegas, o Fausto Nilo desenhou a palavra LIBERDADE em uma faixa confeccionada com papel higiênico. Pregada nas grades voltadas para a Avenida Tiradentes, esta faixa ajudava a atrair a atenção dos passantes, que paravam na calçada e ficavam ouvindo os nossos gritos de A UNE SOMOS NÓS, NOSSA FORÇA NOSSA VOZ.

Quando cansávamos de gritar e fazíamos uma pausa, ouvíamos de uma cela debaixo da nossa, vozes gritando:

-Continua Estudante, Mostra  a força da UNE!

Eram presos comuns que, talvez, nunca tivessem ouvido falar da UNE, mas pareciam estar gostando daquela animação que lhes ajudava a quebrar a monotonia da vida carcerária. Evidentemente, não demorou muito para os guardas do presídio arrancarem a faixa que pedia liberdade.

Aqueles presos comuns podiam não saber o que era a UNE, mas os agentes da ditadura a conheciam bem e a odiavam muito. Tanto que uma das primeiras ações dos golpistas de 1964, no Rio de Janeiro, foi metralhar e incendiar sua sede na Praia do Flamengo. Pouco depois, decretaram sua ilegalidade, começaram a prender dirigentes estudantis e a fechar em todo o país entidades ligadas a ela, como as uniões estaduais, diretórios centrais e centros acadêmicos.

Diante do ataque ao XXX Congresso, os universitários brasileiros reagiram mais vez às tentativas do governo ditatorial de destruir sua entidade nacional. Manifestações em todo o Brasil, enfrentando forte repressão, exigiam nas ruas a nossa libertação. Aquilo nos estimulou a elevarmos o nível dos nossos protestos no presídio: entramos em greve de fome.

Em meio à greve de fome ocorreu um episódio inusitado. Fomos despertados por um barulho estranho e, ao acendermos a luz da cela, nos deparamos com um colega de boca cheia que foi logo dizendo: “estou aqui só comendo estas bolachinhas; deixem eu comer estas últimas que de manhã eu faço uma autocrítica.” Não lembro se ele fez a autocrítica prometida, mas o certo é que comeu as três bolachas que lhe restavam.

De repente, nós - os 70 cearenses que participavam do Congresso -, sem qualquer explicação, fomos retirados das celas e colocados em dois ônibus que, escoltados por carros da polícia de São Paulo, tomaram uma estrada que não sabíamos onde ia dar. A certa altura da viagem, a escolta desapareceu. Então, fomos informados pelos motoristas dos ônibus que estávamos livres e que o destino da viagem era Fortaleza. Dois dias depois, chegamos em casa.

Passados alguns dias da nossa volta a Fortaleza, foi decretada a prisão preventiva de 10 dos cearenses que haviam sido libertados. Como eu era um deles, colocaram-se diante de mim duas alternativas: resignar-me a ser preso arbitrariamente outra vez ou fazer o que me fosse possível para tentar evitar a prisão. Optei pela segunda. Abandonei às pressas o apartamento em que morava (que em seguida foi invadido e vasculhado por agentes da repressão à minha procura) e passei a usar uma documentação com outro nome, que me foi fornecida por uma colega da universidade, que trabalhava em uma repartição pública em Fortaleza.

Como era candidato à diretoria da UNE, usando outra identidade, viajei para o Paraná, onde ia se realizar um dos congressos regionais programados em segredo como estratégia de continuação do evento interrompido em Ibiúna. Mas o que aconteceu ali é assunto para outra ocasião.

                                       (*) JOÃO DE PAULA MONTEIRO FERREIRA, de Crateús, Médico, Consultor empresarial, Líder Estudantil, exilado no Chile e Alemanha.


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