sábado, 8 de março de 2025

COLUNA PRIMEIRO PLANO

 

EDUCAÇÃO COM PARTICIPAÇÃO, MUDOU A HISTÓRIA DO MUNICÍPIO

              Edição de 08 de março  

DIA DA MULHER

Pelas defesas dos indiciados pelo quase golpe de 8 de janeiro, aquilo é um grupo de velhinhas e velhinhos, com Bíblias na mão, passeando pela Praça dos Três Poderes. Então aquilo que se viu pela TV era o quê?

Será que aquele pessoal acampado em frente ao Quartel estava cansado do calor e foi apenas abrigar-se no ar condicionado dos três palácios?

Agora querem ser julgados apenas pelos juízes que eles mesmo indicarem. E dizem que eram apenas “velhinhas e velhinhos com a Bíblia na mão”. O inelegível diz que “era pessoal da esquerda”, mas não aponta um nome.

Nesta edição, ao final da coluna, mais um artigo da série MEMÓRIAS DA DITADURA, do médico João de Paula Monteiro Ferreira, grande liderança estudantil dos anos 60/70.

O Professor e Radialista Tupinambá Frota, depois de aposentado, deixou Sobral, sua grande paixão, e foi morar em Guaraciaba do Norte. Preferiu a Zona rural e está encantado com o que tem visto.

O que mais lhe tem chamado atenção é a capacidade dos agricultores. Todo o desenvolvimento da agricultura tem por base o nível intelectual da categoria.

O amigo Tupinambá tem percebido que a Educação dos trabalhadores é o que tem feito a diferença. Tudo é feito com base em estudos e planejamentos. Não é mais na base da intuição.

Ele acredita que a mudança se deveu ao cuidado maior com as escolas e, especialmente, com a elevação do nível dos Professores. Percebeu que as mudanças não surgiram agora, mas há uma história de mudança.

Toda a história do que aconteceu em Guaraciaba do Norte está na minha Dissertação de Mestrado, cujo título é EM EDUCAÇÃO, SEM PARTICIPAÇÃO NÃO HÁ MUDANÇA.

Fico muito feliz que o amigo Tupinambá tenha percebido as razões das mudanças. Hoje a nossa terra está bem diferente porque as pessoas foram crescendo em conhecimentos e os levaram para a prática.

A minha grande referência eram as bodegas do Mercado Público. Quando alguém da família começava a fazer curso superior, os efeitos se refletiam nas melhorias das bodegas. Observei isto desde o início.

A parceria com o Colégio Oriento com a UVA abriu muitas oportunidades de graduação e atraiu muitos estudantes da região. Os efeitos foram se manifestando na melhoria das residências e dos comércios.

Como percebe o amigo Tupinambá e diversas outras pessoas mais perspicazes, Guaraciaba do Norte tem este crescimento todo graças ao nível intelectual de sua população.

A grande vitória do filme AINDA ESTAMOS AQUI motivou a TVC a ouvir pessoas ligadas ao assunto, em entrevistas. Na sexta feira, no Espaço Bergson Gurjão, da UFC aconteceram duas entrevistas.

Uma foi com a Dra. Socorro França, Secretária de Direitos Humanos do Estado do Ceará. E a outra foi comigo, na condição de perseguido politico e Presidente da Comissão Especial Wanda Sidou.

Há uma coincidência entre mim e a Dra. Socorro França. Ela veio do Maranhão na equipe de Dom Delgado, Arcebispo de Fortaleza. E, na época, eu fui para o Maranhão pela perseguição da ditadura que aqui me aconteceu.

Dra. Socorro pertencia à JEC – Juventude Estudantil Católica e eu era Coordenador do Movimento de Educação de Base, instituição criada pela Igreja para Alfabetizar Adultos.

Uma coincidência histórica: Hoje estamos no Ceará, na mesma Secretaria, cuidando de Direitos Humanos. Passaram-se mais de 50 anos e continuamos “olhando na mesma direção” como diz o livro O Pequeno Príncipe, de Exupéry.

E foi em São Luís do Maranhão que, há 51 anos, no Dia da Mulher, Myrtes e eu nos casamos. Lá, residimos durante 20 bons anos. Fizemos muitos amigos. Criamos muitos laços que, ainda hoje, nos unem e se fortalecem.

Foram nossos padrinhos de casamento: Janete e José Maria Vieira de Sousa e Graça e Marcos Fernandes de Carvalho. Tornamo-nos, depois, compadres e comadres e grandes amigos.

Nos últimos anos temos ido a São Luiz, no período junino, para reencontrar amigos, compadres, comadres, afilhados e afilhadas e reviver as alegrias da época, em festas que só existem no Maranhão.

Memórias da ditadura

Tô contigo, caboclo!”                     Só podia ser 

o Bergson!

Dr. João de Paula Monteiro Ferreira

- Vamos estudantes bandidos, vamos estudantes bandidos!

Foi o que começaram a gritar presos comuns do Presídio do Ahú, em Curitiba, incentivando nosso time de futsal, naquele dia em que nossos adversários eram estudantes da Faculdade de Direito da PUC, convidados pelo Cabral, nosso companheiro de prisão.

Os que, costumeiramente, torciam por nossa equipe com um simples “vamos estudantes”, para fazer a distinção, acrescentaram aquele adjetivo que, para eles, era sinônimo de preso. E não eram poucos nossos torcedores. Tínhamos conquistado a simpatia deles por termos nos solidarizado com jogadores de um de seus times, colocados no castigo porque guardas do presídio os consideraram violentos em uma partida contra nós. Acontece que as botinadas foram mútuas. Quando a punição foi retirada por solicitação nossa ao diretor do presídio, demostrando -lhe que ela era injusta, muitos se tornaram nossos fãs.

Mas eles usavam também tratamentos conosco, no dizer de hoje, mais, politicamente, corretos como, por exemplo, na comemoração do Dia do Detento, quando, pelo serviço de som instalado no pátio, o preso que fazia o papel de locutor disse com voz empostada: “tenho a honra de registrar a presença dos nossos colegas subversivos.”

Os acontecimentos acima podem dar a impressão de que a vida carcerária ali era um mar de rosas. Bem ao contrário, a rotina do presídio era dura e mantida por uma disciplina rigorosa que punia a mais leve transgressão. O Dia do Detento era um evento anual, o direito a banho de sol, incluindo jogar futsal no pátio interno, era de somente uma hora por dia e as visitas de familiares, severamente, vigiadas, só ocorriam aos domingos.

Depois de um certo tempo da nossa prisão, começaram a chegar ao Ahú outros presos políticos que, invariavelmente, vinham com sinais de torturas. Com a consolidação do sistema de total negação do Estado Democrático de Direito instituído pelo AI-5, a tortura nos interrogatórios passara a ser regra. Neste sentido, o caso da estudante Janete, de 17 anos, foi um marco. Ela foi trazida ao Ahú com visíveis marcas de tortura em seu corpo franzino, sendo levada diversas vezes para novas sessões de maus tratos por agentes que não se sabia ao certo se eram do DOPS ou do exército. Esta questão, no entanto, mostrou-se irrelevante quando Aluízio Palmar, um dos presos políticos torturados em Curitiba e que esteve algum tempo conosco, esclareceu que a máquina de massacre montada ali depois do AI-5 tinha uma eficiente divisão de trabalho: oficiais do exército interrogavam os presos enquanto os agentes do DOPS os torturavam.

Um dia, quando aqueles agentes voltaram, mais uma vez, com a intenção de levar Janete, o diretor do Ahú lhes perguntou se assinariam um documento se responsabilizando por uma eventual rebelião no presídio, pois havia sido informado que os presos comuns tramavam isso “caso a menina fosse torturada novamente”. Desistiram. Os que tiveram aquela atitude solidária eram homens embrutecidos, acusados de praticar todo tipo de crime.

No que me diz respeito, os primeiros meses de prisão foram de muita tensão por conta da possibilidade de descoberta da minha verdadeira identidade, o que resultaria em sério agravamento da minha situação carcerária e penal. E ocorreram dois sustos. O primeiro, quando um agente penitenciário gritou na porta da nossa cela: “Iran Vieira Dias, comparecer à segurança”. Para nós, a palavra “segurança” era sinônimo de encrenca. Chegando lá, dois agentes da Polícia Federal disseram-me que precisavam tomar novamente as minhas impressões digitais pois não tinha sido possível ler as que tinham sido colhidas anteriormente. 

Foi um alívio, pois lembrei-me que, no dia da prisão, deliberadamente, eu movera lateralmente os dedos para borrá-las, com o intento de dificultar minha identificação. Eles refizeram a operação e eu repeti o movimento lateral dos dedos, Dias depois, o segundo susto: segurança de novo. E lá estavam os mesmos agentes querendo mais uma tomada das digitais. Desta vez, desisti da manobra que fizera, pois temi que ela acabasse despertando suspeitas. Os federais não voltaram mais.

Ao começar nosso julgamento na Auditoria da 5ª Região Militar, iniciou-se outra fase de preocupação com a minha identidade. Como eram publicadas fotos das audiências nos jornais, havia o temor de que eu fosse reconhecido por agentes da repressão de outros estados. Para evitar isso, foi montado um cordão de proteção visual, com os colegas de estatura mais alta em torno de mim. À minha frente, sempre ficava o Hélio Urnau, um descendente de alemães de quase dois metros de altura.  Eu sentava-me na última fileira do banco dos réus, resguardado dos flashes dos fotógrafos por uma solidária barreira humana.

A propósito, foi naquele lugar, em que eu ficava encostado em uma grade que nos separava do público, que um dia senti uma mão apertando meu ombro esquerdo, enquanto ouvia alguém sussurrar: “tô contigo, caboclo”. Aquela voz e aquele modo de tratar-me eram inconfundíveis. Só podia ser o Bergson. E era. Quando me virei, me deparei com o “grandão” (apelido dele entre os mais próximos), sorrindo. 

Passando por Curitiba, de volta do exitoso Congresso Regional do Rio Grande do Sul e sabendo da minha prisão, mesmo tendo também prisão preventiva decretada, ele resolveu fazer-me aquela visita temerária. Com sua costumeira coragem, quebrando todas as normas de segurança e usando outra identidade, Bergson burlou os controles da entrada naquele antro de repressão para prestar-me solidariedade. Apertando sua mão por cima da grade, só pude lhe dizer uma frase: vai embora logo daqui maluco.  Minutos depois, através do janelão que dava para uma praça, com o coração apertado, eu o vi distanciando-se, com o braço esquerdo erguido e o punho fechado. Este era o Bergson Gurjão Farias. 

Com cobertura da imprensa e presença de público, pode-se pensar que estávamos tendo um julgamento transparente e justo. Nada disso. O que acontecia ali era um jogo de cartas marcadas. Eis uma prova inconteste disso: O Conselho de Sentença da Auditoria, que negava todas as petições dos nossos advogados sobre os direitos constitucionais mais básicos, certa ocasião aprovou um requerimento de transferência para prisão domiciliar de Elisabeth Fortes e Judite Trindade, nossas colegas de prisão, fundamentado na inadequação de mantê-las em um presídio masculino.

Elas foram transferidas, mas, no dia seguinte, o major que era o presidente e os quatro tenentes que integravam aquele conselho foram destituídos e substituídos por ordem do comando do exército na região. As duas estudantes foram levadas novamente para o Ahú. Ficou claro que havia uma decisão dos altos escalões locais do exército de nos condenar a priori e à revelia de qualquer processo legal. O julgamento era uma encenação. Pouco tempo depois, a condenação veio, inexorável, para todos nós, com penas de quatro anos para uns e de dois para outros. Após apelação ao Superior Tribunal Militar, elas foram reduzidas, respectivamente, para um ano e meio e para um ano. Fiquei no segundo grupo.

Cumprido o ano de prisão, devolveram-me a certidão de nascimento e o título de eleitor com o nome Iran Vieira Dias que eu portava quando fui preso. Tomando todas as precauções, viajei para São Paulo, onde assumi meu cargo de diretor da UNE. Mas isto é outra história

(*) João de Paula Monteiro Ferreira, Médico, Consultor Empresarial, liderança estudantil,                                          preso pela ditadura no Congresso de Ibiúna, exilado no Chile e Alemanha.

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