EDUCAÇÃO COM PARTICIPAÇÃO, MUDOU A HISTÓRIA DO MUNICÍPIO
Edição de 08 de março
DIA DA MULHER
Pelas defesas dos
indiciados pelo quase golpe de 8 de janeiro, aquilo é um grupo de velhinhas e
velhinhos, com Bíblias na mão, passeando pela Praça dos Três Poderes. Então
aquilo que se viu pela TV era o quê?
Será que aquele pessoal
acampado em frente ao Quartel estava cansado do calor e foi apenas abrigar-se
no ar condicionado dos três palácios?
Agora querem ser julgados
apenas pelos juízes que eles mesmo indicarem. E dizem que eram apenas “velhinhas
e velhinhos com a Bíblia na mão”. O inelegível diz que “era pessoal da esquerda”,
mas não aponta um nome.
Nesta edição, ao final da
coluna, mais um artigo da série MEMÓRIAS DA DITADURA, do médico João de Paula
Monteiro Ferreira, grande liderança estudantil dos anos 60/70.
O Professor
e Radialista Tupinambá Frota, depois de aposentado, deixou Sobral, sua grande
paixão, e foi morar em Guaraciaba do Norte. Preferiu a Zona rural e está
encantado com o que tem visto.
O que mais
lhe tem chamado atenção é a capacidade dos agricultores. Todo o desenvolvimento
da agricultura tem por base o nível intelectual da categoria.
O amigo
Tupinambá tem percebido que a Educação dos trabalhadores é o que tem feito a
diferença. Tudo é feito com base em estudos e planejamentos. Não é mais na base
da intuição.
Ele
acredita que a mudança se deveu ao cuidado maior com as escolas e,
especialmente, com a elevação do nível dos Professores. Percebeu que as
mudanças não surgiram agora, mas há uma história de mudança.
Toda a
história do que aconteceu em Guaraciaba do Norte está na minha Dissertação de
Mestrado, cujo título é EM EDUCAÇÃO, SEM PARTICIPAÇÃO NÃO HÁ MUDANÇA.
Fico muito
feliz que o amigo Tupinambá tenha percebido as razões das mudanças. Hoje a
nossa terra está bem diferente porque as pessoas foram crescendo em
conhecimentos e os levaram para a prática.
A minha
grande referência eram as bodegas do Mercado Público. Quando alguém da família
começava a fazer curso superior, os efeitos se refletiam nas melhorias das
bodegas. Observei isto desde o início.
A parceria
com o Colégio Oriento com a UVA abriu muitas oportunidades de graduação e
atraiu muitos estudantes da região. Os efeitos foram se manifestando na
melhoria das residências e dos comércios.
Como
percebe o amigo Tupinambá e diversas outras pessoas mais perspicazes,
Guaraciaba do Norte tem este crescimento todo graças ao nível intelectual de
sua população.
A grande vitória do filme AINDA ESTAMOS AQUI motivou a TVC a ouvir pessoas ligadas ao assunto, em entrevistas. Na sexta feira, no Espaço Bergson Gurjão, da UFC aconteceram duas entrevistas.
Uma foi com
a Dra. Socorro França, Secretária de Direitos Humanos do Estado do Ceará. E a
outra foi comigo, na condição de perseguido politico e Presidente da Comissão
Especial Wanda Sidou.
Há uma coincidência
entre mim e a Dra. Socorro França. Ela veio do Maranhão na equipe de Dom
Delgado, Arcebispo de Fortaleza. E, na época, eu fui para o Maranhão pela
perseguição da ditadura que aqui me aconteceu.
Dra.
Socorro pertencia à JEC – Juventude Estudantil Católica e eu era Coordenador do
Movimento de Educação de Base, instituição criada pela Igreja para Alfabetizar
Adultos.
Uma coincidência
histórica: Hoje estamos no Ceará, na mesma Secretaria, cuidando de Direitos
Humanos. Passaram-se mais de 50 anos e continuamos “olhando na mesma direção”
como diz o livro O Pequeno Príncipe, de Exupéry.
E foi em
São Luís do Maranhão que, há 51 anos, no Dia
da Mulher, Myrtes e eu nos casamos. Lá, residimos durante 20 bons anos.
Fizemos muitos amigos. Criamos muitos laços que, ainda hoje, nos unem e se
fortalecem.
Foram
nossos padrinhos de casamento: Janete e José Maria Vieira de Sousa e Graça e
Marcos Fernandes de Carvalho. Tornamo-nos, depois, compadres e comadres e
grandes amigos.
Nos últimos
anos temos ido a São Luiz, no período junino, para reencontrar amigos, compadres,
comadres, afilhados e afilhadas e reviver as alegrias da época, em festas que
só existem no Maranhão.
Memórias
da ditadura
Tô contigo, caboclo!” Só podia ser
o Bergson!
- Vamos estudantes bandidos, vamos estudantes
bandidos!
Foi o que começaram a gritar presos comuns do Presídio do
Ahú, em Curitiba, incentivando nosso time de futsal, naquele dia em que nossos
adversários eram estudantes da Faculdade de Direito da PUC, convidados pelo
Cabral, nosso companheiro de prisão.
Os que, costumeiramente, torciam por nossa equipe com um
simples “vamos estudantes”, para fazer a distinção, acrescentaram aquele
adjetivo que, para eles, era sinônimo de preso. E não eram poucos nossos
torcedores. Tínhamos conquistado a simpatia deles por termos nos solidarizado
com jogadores de um de seus times, colocados no castigo porque guardas do
presídio os consideraram violentos em uma partida contra nós. Acontece que as
botinadas foram mútuas. Quando a punição foi retirada por solicitação nossa ao diretor
do presídio, demostrando -lhe que ela era injusta, muitos se tornaram nossos
fãs.
Mas eles usavam também tratamentos conosco, no dizer de hoje,
mais, politicamente, corretos como, por exemplo, na comemoração do Dia do Detento,
quando, pelo serviço de som instalado no pátio, o preso que fazia o papel de
locutor disse com voz empostada: “tenho a honra de registrar a presença dos
nossos colegas subversivos.”
Os acontecimentos acima podem dar a impressão de que a vida
carcerária ali era um mar de rosas. Bem ao contrário, a rotina do presídio era
dura e mantida por uma disciplina rigorosa que punia a mais leve transgressão.
O Dia do Detento era um evento anual, o direito a banho de sol, incluindo jogar
futsal no pátio interno, era de somente uma hora por dia e as visitas de
familiares, severamente, vigiadas, só ocorriam aos domingos.
Depois de um certo tempo da nossa prisão, começaram a chegar
ao Ahú outros presos políticos que, invariavelmente, vinham com sinais de
torturas. Com a consolidação do sistema de total negação do Estado Democrático
de Direito instituído pelo AI-5, a tortura nos interrogatórios passara a ser
regra. Neste sentido, o caso da estudante Janete, de 17 anos, foi um
marco. Ela foi trazida ao Ahú com visíveis marcas de tortura em seu corpo
franzino, sendo levada diversas vezes para novas sessões de maus tratos por agentes
que não se sabia ao certo se eram do DOPS ou do exército. Esta questão, no
entanto, mostrou-se irrelevante quando Aluízio Palmar, um dos presos políticos
torturados em Curitiba e que esteve algum tempo conosco, esclareceu que a
máquina de massacre montada ali depois do AI-5 tinha uma eficiente divisão de
trabalho: oficiais do exército interrogavam os presos enquanto os agentes do
DOPS os torturavam.
Um dia, quando aqueles agentes voltaram, mais uma vez, com a
intenção de levar Janete, o diretor do Ahú lhes perguntou se assinariam um
documento se responsabilizando por uma eventual rebelião no presídio, pois
havia sido informado que os presos comuns tramavam isso “caso a menina fosse
torturada novamente”. Desistiram. Os que tiveram aquela atitude solidária
eram homens embrutecidos, acusados de praticar todo tipo de crime.
No que me diz respeito, os primeiros meses de prisão foram de muita tensão por conta da possibilidade de descoberta da minha verdadeira identidade, o que resultaria em sério agravamento da minha situação carcerária e penal. E ocorreram dois sustos. O primeiro, quando um agente penitenciário gritou na porta da nossa cela: “Iran Vieira Dias, comparecer à segurança”. Para nós, a palavra “segurança” era sinônimo de encrenca. Chegando lá, dois agentes da Polícia Federal disseram-me que precisavam tomar novamente as minhas impressões digitais pois não tinha sido possível ler as que tinham sido colhidas anteriormente.
Foi um alívio, pois lembrei-me que, no dia da prisão,
deliberadamente, eu movera lateralmente os dedos para borrá-las, com o intento
de dificultar minha identificação. Eles refizeram a operação e eu repeti o
movimento lateral dos dedos, Dias depois, o segundo susto: segurança de novo. E
lá estavam os mesmos agentes querendo mais uma tomada das digitais. Desta vez,
desisti da manobra que fizera, pois temi que ela acabasse despertando
suspeitas. Os federais não voltaram mais.
Ao começar nosso julgamento na Auditoria da 5ª Região
Militar, iniciou-se outra fase de preocupação com a minha identidade. Como eram
publicadas fotos das audiências nos jornais, havia o temor de que eu fosse
reconhecido por agentes da repressão de outros estados. Para evitar isso, foi
montado um cordão de proteção visual, com os colegas de estatura mais alta em
torno de mim. À minha frente, sempre ficava o Hélio Urnau, um descendente de
alemães de quase dois metros de altura.
Eu sentava-me na última fileira do banco dos réus, resguardado dos
flashes dos fotógrafos por uma solidária barreira humana.
A propósito, foi naquele lugar, em que eu ficava encostado em uma grade que nos separava do público, que um dia senti uma mão apertando meu ombro esquerdo, enquanto ouvia alguém sussurrar: “tô contigo, caboclo”. Aquela voz e aquele modo de tratar-me eram inconfundíveis. Só podia ser o Bergson. E era. Quando me virei, me deparei com o “grandão” (apelido dele entre os mais próximos), sorrindo.
Passando por
Curitiba, de volta do exitoso Congresso Regional do Rio Grande do Sul e sabendo
da minha prisão, mesmo tendo também prisão preventiva decretada, ele resolveu
fazer-me aquela visita temerária. Com sua costumeira coragem, quebrando todas
as normas de segurança e usando outra identidade, Bergson burlou os controles
da entrada naquele antro de repressão para prestar-me solidariedade. Apertando
sua mão por cima da grade, só pude lhe dizer uma frase: vai embora logo daqui
maluco. Minutos depois, através do
janelão que dava para uma praça, com o coração apertado, eu o vi
distanciando-se, com o braço esquerdo erguido e o punho fechado. Este era o
Bergson Gurjão Farias.
Com cobertura da imprensa e presença de público, pode-se
pensar que estávamos tendo um julgamento transparente e justo. Nada disso. O
que acontecia ali era um jogo de cartas marcadas. Eis uma prova inconteste
disso: O Conselho de Sentença da Auditoria, que negava todas as petições dos
nossos advogados sobre os direitos constitucionais mais básicos, certa ocasião
aprovou um requerimento de transferência para prisão domiciliar de Elisabeth
Fortes e Judite Trindade, nossas colegas de prisão, fundamentado na inadequação
de mantê-las em um presídio masculino.
Elas foram transferidas, mas, no dia seguinte, o major que
era o presidente e os quatro tenentes que integravam aquele conselho foram
destituídos e substituídos por ordem do comando do exército na região. As duas
estudantes foram levadas novamente para o Ahú. Ficou claro que havia uma
decisão dos altos escalões locais do exército de nos condenar a priori e à
revelia de qualquer processo legal. O julgamento era uma encenação. Pouco tempo
depois, a condenação veio, inexorável, para todos nós, com penas de quatro anos
para uns e de dois para outros. Após apelação ao Superior Tribunal Militar,
elas foram reduzidas, respectivamente, para um ano e meio e para um ano. Fiquei
no segundo grupo.
Cumprido o ano de prisão, devolveram-me a certidão de
nascimento e o título de eleitor com o nome Iran Vieira Dias que eu portava
quando fui preso. Tomando todas as precauções, viajei para São Paulo, onde
assumi meu cargo de diretor da UNE. Mas isto é outra história
(*) João de Paula Monteiro Ferreira, Médico, Consultor Empresarial,
liderança estudantil, preso
pela ditadura no Congresso de Ibiúna, exilado no Chile e Alemanha.
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