sábado, 31 de maio de 2025

coluna primeiro plano

                

                           EDIÇÃO DE 31 DE MAIO

Pessoas que foram eleitas e não sabem para quê e não receberam orientações sobre comportamento e ética no parlamento. Acham-se apenas deuses.

 Mas este tipo de parlamentar chegou lá com o voto dos que não tem critérios sérios para escolher. Antes de votar, é necessário pensar.

 O país depende muito dos votos de parlamentares. Se os eleitos pensam apenas nos próprios interesses, fica difícil melhorias para o povo.

 Há ótimos deputados e Senadores. São minoria, sim, mas cabe aos eleitores mudar o quadro nas próximas eleições. Não se elege deputados e senadores para exibicionismos, mas para defenderem os interesses coletivos.

O Dr. Marcelo Uchoa que nasceu no Rio de Janeiro porque os pais, perseguidos pela ditadura, estavam na prisão, recebeu o título de Cidadão Cearense que lhe fez muito feliz

 A propósito, na última quinta-feira, Dr. Marcelo tomou posse como Conselheiro da Comissão Wanda Sidou, com a presença da Secretária Socorro França. Indicado pela OAB.

 Na reunião do mês de junho, deverão integrar-se à Comissão as novas Conselheiras Débora Jamaica e Winnie Rebouças, indicadas pela Casa Civil do Estado.

 A curva do boqueirão do Ipu, por onde já passei tantas vezes, precisava de reparos urgentes. Ninguém reclamou, mas quando o Junior Ximenes fez a cobrança e veio o conserto, surgiram os padrinhos.

 Era depois de passar por aquela perigosa curva, rumo ao Ipu que o misto fazia uma parada para fazer a cobrança das passagens.

 Naquele ponto não havia como fugir do pagamento. De um lado o abismo. Do outro o paredão da serra. A escolha daquele lugar, para cobrança, nos parecia estratégica.

 Foi o perigo daquela curva que fez Junior Ximenes pedir socorro. O jornalismo feito com seriedade e compromisso pode prestar serviços muito positivos à comunidade.

 Depois de mais de 60 anos, pelos milagres da tecnologia, reencontro um primo que mora em Palmas, no Tocantins. É o Advogado Eriberto Carvalho Brito, conterrâneo de Guaraciaba do Norte.

 Quando crianças, morávamos na mesma rua e havia estreita amizade entre nossas famílias. Além do parentesco, nossos pais eram compadres. Brincávamos todas as noites, até ser dado o sinal da luz.

 Era a família de Francisco Henrique de Brito e dona Neném (Abigail). Ela, irmã da minha avó Maria da Páscoa Gomes. Foram embora para Porongatu, Goiás. E nunca mais nos encontramos.

 Uma conterrânea, lá em Palmas, falou de nosso livro sobre Guaraciaba do Norte- Nossas Ruas, Nossa História e este foi o motivo para um reencontro, por telefone. O livro nos reuniu.

Ontem o Deputado Renato Roseno, recebeu o Deputado Glauber Braga que está sendo alvo de uma campanha injusta por sua cassação. O encontro com o povo foi na praça da Gentilândia.

IV Festa da Colheita da Agroecologia do Ceará une São João e Junho Ambiental. Chega para abrir a temporada de festejos juninos à 4ª edição da Festa da Colheita da Agroecologia do Ceará!

 O evento será realizado no sábado, 7 de junho, das 7h às 13h, no Parque Adahil Barreto, com entrada gratuita.

 A Festa da Colheita está inserida na programação oficial do Junho Ambiental, fruto da parceria com a Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Ceará (Sema).


MEMÓRIAS DA DITADURA

LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE?

                                                                                                                                                              Dr. João de Paula Monteiro Ferreira (*)

- Paulo Lincoln, estou passando mal.

 Ao ouvir esta frase da Ruth, Paulo Lincoln, que dirigia seu Fuscão Vermelho, perguntou se ela queria que ele estacionasse o carro, mas, ao invés de responder-lhe, ela deu uma gargalhada, dizendo: “é brincadeira, é porque eu comparei a emoção que estou sentindo agora com uma que a Batana sentiu”. Explicou, então, que a Batana era uma lavadeira de roupa em sua casa, na Pedra Branca, que pegara uma carona para Fortaleza com o médico Chico Barreto, seu irmão. A certa altura daquela viagem, perguntada pelo Chico, porque se calara de repente, a Batana respondeu: “Dr. Francisco, eu vinha muito bem, mas quando o senhor disse que a gente ia entrar no Quixeramobim, me deu uma emoção tão grande que eu passei mal e perdi a fala. Segundo a Ruth, com seu habitual senso de humor, era algo semelhante ao que ela estava sentindo ao avistar Paris.

 Em paralelo à brincadeira da Ruth, ao entrarmos em Paris, pensando sobre a sociedade com a qual iríamos ter o primeiro contato pessoal, perguntava-me sobre o efeito que teria produzido nela a tríade de valores que celebrizara a revolução ocorrida ali quase dois séculos antes. Como estariam naquele país a liberdade, a igualdade e a fraternidade? E, principalmente, como, estaria andando o trabalho feito ali por alguns brasileiros e franceses interessados na vigência destes valores no Brasil, do qual eu tinha notícias em Colônia por meio de cartas. Neste sentido, reuniões com integrantes de alguns grupos e com pessoas que atuavam nos movimentos de solidariedade aos perseguidos pela ditadura brasileira era um dos objetivos daquela viagem; outro, que ninguém é de ferro, era conhecer as belezas da Cidade Luz.

Mesmo tendo passado poucos dias em Paris naquela primeira vez, houve tempo suficiente para curtirmos seus encantos e para fazermos os contatos políticos que planejáramos. Levados por um cearense que lhe era muito próximo, tivemos uma conversa proveitosa sobre a situação do Brasil com o ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes, o primeiro político brasileiro a ser preso pelos golpistas de 1964.

 Ruth e eu nos reunimos com o José Luís Guedes, ex-presidente da UNE e com o hoje renomado historiador Manuel Domingos Neto, que fazia uma pós-graduação em história na Universidade de Paris, ambos membros do Comitê França-Brasil que desenvolvia um amplo trabalho de apoio à luta contra a ditadura brasileira. A convite da estudante cearense Elia Rola, conhecemos na residência universitária Casa do Brasil outros estudantes refugiados que moravam ali.

 Paris foi tornando-se um centro cada vez mais relevante das articulações para denúncias dos crimes da ditadura brasileira e de apoio à luta pela democracia no Brasil. Voltei lá várias vezes para participar de reuniões de integração das atividades que ocorriam em vários países europeus e de estabelecimento de conexões com manifestações de resistência política que começavam a ocorrer no Brasil. Nestas reuniões reencontrei-me com o Vitório Sorotiuk, liderança destacada do movimento universitário do Paraná, que tinha sido meu companheiro de prisão em Curitiba e com o Jean Marc, presidente da UNE na gestão em que eu fora diretor. Meu deslocamento era fácil e barato. Bastava pegar um trem às 23 horas da sexta-feira na Estação Central de Colônia e, depois de uma noite bem dormida, desembarcar às 06 da manhã do dia seguinte na Estação do Norte de Paris e fazer o inverso no domingo. Em Paris, um ponto de apoio muito acolhedor era o apartamento da Walkíria e do Aécio. Ela, pernambucana, ele um destes cearenses que os conterrâneos dela costumam pernambucanizar, como fizeram com o Miguel Arraes e o sociólogo Arlindo Soares, só para citar alguns poucos de muitos exemplos. O casal Walquíria- Aécio será protagonista em algumas das próximas historietas.

 De volta a Colônia, a viagem transcorreu muito bem até nos aproximarmos da entrada da cidade, quando começou uma chuva com uma forte ventania, que sacudia de um lado para o outro o velho Fuscão Vermelho. Notamos que a autoestrada estava quase deserta, mas só nos demos conta de que algo grave estava acontecendo quando caiu ao nosso lado uma placa destas de beira de estrada, que viera voando lá de trás. O Paulo Lincoln estacionou e ficamos parados dentro do carro até a situação normalizar-se. No dia seguinte, chegado de Copenhague na noite anterior, recebemos a visita do casal Valéria e Madureira, que havíamos conhecido no refúgio chileno de Padre Hurtado. Juntando informações, compreendemos que o acontecido na véspera conosco , também ocorrera com eles e, se tivesse sido filmado, daria uma cena daquelas de filmes de segunda categoria, como a seguinte: certa noite, na autoestrada que margeia Colônia, trafegavam apenas dois carros; um vindo do sudoeste com cinco brasileiros ( a Daniela, com cinco aninhos, estava com a gente) e o outro, procedente do norte, com um casal de goianos, ambos os veículos ocupados por pessoas tranquilas que, sem aparelhos de rádio, não ouviam as repetidas instruções de abandonar aquela via de trânsito devido a uma perigosa tempestade. Ou seja, reinava entre os brazucas aquela serenidade diante de certos perigos, que só a traiçoeira ignorância pode propiciar.

 Retomando meu relato sobre Colônia, havia em todos os seus bairros bares (Kneipes) com grande frequência de seus moradores, mas a Cidade Velha, a Cidade Sul e o entorno da Praça Barbarossa, tinham uma concentração especial destes estabelecimentos de grande importância para a vida noturna da cidade. Na Praça Barbarossa, que ficava bem próxima da universidade, existia um bar de um argentino que era ponto de concentração de estudantes latinos. Ali, misturando alemão com seu próprio idioma, costumavam encontrar-se para tomar cerveja e conversar portugueses, espanhóis, franceses, italianos e latino-americanos de quase todos os países. O barman, de nome Carlos, mas chamado de Charles, era um simpático português que durante o dia trabalhava como sonoplasta na rádio Deutsche Welle (conhecida no Brasil como Voz da Alemanha). Convidado por ele, fiz lá um teste de voz e fui aprovado, passando a atuar como freelancer na locução de programas em língua portuguesa.

 Pouco depois, recebi convite da sua congênere Transtel para atuar na tradução e narração de filmes que eram transmitidos para países lusófonos. Nestas duas empresas, em que havia tempo trabalhavam brasileiros, portugueses e angolanos, foram se agregando alguns refugiados do Brasil. Quando lá cheguei, já estavam a Ruth e o Sérgio Buarque na Deutsche Welle e a Cristina Buarque na Transtel. Este trabalho não atrapalhava em nada minhas atividades de estudante de medicina, pois era feito em horário muito flexível.

 Enviados pela Deutshe Welle, a Ruth e o Sérgio foram à Bélgica entrevistar Paulo Freire, que já era famoso na Europa como grande educador e cujo método de alfabetização ela conhecia bem, pois o havia aplicado em várias atividades pedagógicas no Ceará.

 E por falar em personalidades brasileiras na Europa, a Deutsche Welle convidou-me como radialista freelancer para entrevistar Dom Adriano Hypólito, que estava hospedado em um Mosteiro Franciscano, na cidade de Mettingen. O Bispo de Nova Iguaçu-RJ, acabara de chegar do Brasil, após ser libertado de um sequestro feito por um grupo paramilitar de extrema direita que, depois de vários maus tratos, o abandonou desnudo e com o corpo pintado de vermelho em um matagal nos arredores da sede de sua diocese. Nesta entrevista, que teve grande repercussão no meio religioso do Brasil, Dom Adriano responsabilizou a ditadura militar por seu sequestro, apontando as ligações de vários grupos paramilitares que atuavam no país com os porões de repressão do regime. O Bispo de Nova Iguaçu demonstrou que o motivo daquela violência era o incômodo do governo ditatorial com o trabalho social que ele realizava em sua diocese e com as críticas que fazia às atividades repressivas que ocorriam no país.

 A propósito do Mosteiro de Mettingen, sob a liderança de seu Superior, Frei Osmar Gogolok, além das atividades pastorais e educacionais de cunho local, era feito pelos franciscanos um trabalho de grande amplitude e profundidade na área de estudos e divulgação da realidade brasileira. Para isso, tinha sido fundado o Institut für Brasilienkunde (Instituto de Brasilologia, como eles chamavam), que publicava matérias de grande relevância sobre a situação social e política do Brasil, sem preocupação com eventuais incômodos que pudessem causar à ditadura brasileira.

 Conheci em Mettingen duas pessoas muito ligadas ao Ceará: um primo do Renê Barreira, ex-reitor da UFC, o Juarez Barreira, que tinha sido frade, mas continuava ligado ao Mosteiro como professor de um colégio dirigido por aquela ordem e o Hupsy (Hubertus Rescher), que também ensinava ali e que, em uma curta viagem ao Brasil, apaixonou-se por uma cearense de Canindé e voltou já casado para a Alemanha. Os dois professores eram engajados nas atividades de solidariedade aos perseguidos pela ditadura brasileira.

 Aquele ano de 1976 foi de grande expansão de ações de solidariedade aos brasileiros e de apoio às lutas pela democracia no Brasil. Entidades leigas, evangélicas e católicas foram criadas com essa finalidade em várias cidades. Estudantes católicos organizaram uma federação com o nome de Aktion Brennpunkt Brasilien (Ação Ponto Focal Brasil), integrando atividades de vários grupos municipais e lançando uma publicação chamada Brasilien Nachrichten (Notícias do Brasil).

 Os evangélicos também tinham forte atuação solidária. Em Bochum foram acolhidos muitos refugiados brasileiros na Ökumenisches Studienwerk, (Obra de Estudos Ecumênicos) dirigida pelo pastor Heinz Dressel, que lhes proporcionava um curso básico de alemão e hospedagem gratuitos. Foi recebido ali um grupo que escapara do Chile para o México, mas que não pudera ficar naquele país. De mudança para Colônia, tive ainda um rápido contato com algumas pessoas deste grupo. Nele, estavam o Travassos, ex-presidente da UNE com quem eu tinha uma relação próxima e a Dora, de Minas Gerais, estudante de medicina, sobre cuja tragédia falarei em outra historieta.

 Na retomada dos seus estudos universitários, a Ruth, teve que fazer desde o início o curso de Psicopedagogia de quatro anos de duração, igualando-se assim o tempo que levaríamos para nos formar. Resolvidos os problemas de estudo, moradia e manutenção (tínhamos bolsas de estudo tipo Fies, somadas ao que nós dois passamos a ganhar na Deutsche Welle e eu na Transtel), nossa vida entrou em “voo de cruzeiro, depois de muito tempo de seguidas turbulências”.

 Nesta última sexta-feira, ao tomar conhecimento da triste notícia da morte do Sebastião Salgado, lembrei-me de um fato ocorrido depois da maioria dos acontecimentos que estou narrando nesta historieta. Como o curso dos relatos que venho fazendo está mais ligado a temas do que a uma ordem cronológica rígida, resolvi deixar-me guiar pelo sentimento e falar logo dos telefonemas que ele deu de Paris para Colônia, para conversar com a Ruth e comigo quando nasceu um filho seu com Síndrome de Down. Por meio de um amigo em comum, ele soubera da boa evolução que estava tendo nossa filha Mariana e queria informações sobre ela e a respeito da nossa experiência como pais dela. Trocamos muitas ideias sobre nossas emoções, sobre as peculiaridades do desenvolvimento dos nossos filhos especiais e sobre as novidades em Colônia na estimulação precoce de crianças com esta síndrome. Nestas conversas muito proveitosas para todos nós, Ruth e eu, que já conhecíamos a fama do Sebastião Salgado como grande artista, ficamos sabendo que ele era também um ser humano excepcional.

 Sobre minha primeira viagem a Berlim, agora só dá para adiantar a decepção com o que vi e com o que não pude ouvir na parte a que tive acesso da Alemanha Oriental. Em próxima historieta falo sobre isso e sobre aquela cidade que à época ainda era dividida.

   (*) Dr. João de Paula Monteiro Ferreira, de Crateús, Ce. - Médico Consultor Empresarial,  

importante liderança universitária nos anos da ditadura de 64

Maranguape, 26 de maio de 2025


O COMENTÁRIO DA SEMANA

 

      VEM AÍ ENCÍCLICA       “RERUM DIGITALIUM”

No meu Comentário de Sábado passado, empolgado como estou com o início do Pontificado de Leão XIV, tentei externar a minha alegria, na acolhida e compreensão dos motivos que o levaram a fundamentar sua ação missionária, não só na Encíclica Rerum Novarum que foi fundamental na linha pastoral de seu predecessor, Leão XIII, como foi a tônica doutrinária dos Papas que se lhe seguiram, até a revolução causada por Francisco e sua ação evangelizadora.

 

            O Papa Leão XIV ainda foi além: desafiou-nos a avançar no caminho das Rerum Digitalium. Para isso, já está atualizando toda a estrutura de suas secretarias de Estado, dos Arquivos Pontifícios para darem mais segurança e agilidade ao Estado Cidade do Vaticano. Não será isso, importantíssimo para maior eficácia na Missão e nas ações da Igreja? Não era a hora de acontecer?

            No sábado, 24/05, ao encerrar o meu Comentário, eu prometia dar continuidade ao assunto iniciado sobre as Coisas Novas, comentadas pelos Papas, depois de Leão XIII, indo até Francisco; mas acrescentando a novidade Prevostiana, isto é, indo até a Rerum Digitalium.

            Ao parar no Santo João XXIII, citei dois feitos de Sua Santidade que, em tão pouco tempo marcaram o seu Papado: a Encíclica Mater et Magistra – nos 70 anos da  Rerum Novarum - e a abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II.  Ambos os feitos chamaram a atenção para duas palavras-chave: Comunidade e Socialização em que ele convocava a Igreja para colaborar e construir uma comunhão autêntica.

            Dez anos depois, o Papa Paulo VI promulgou uma Carta Apostólica - Octogesima Adveniens – que preparava a chegada da Encíclica Populorum Progressio, referindo-se à mudança profunda do mundo e ao crescimento excessivo urbano. Dizia-se preocupado com “o crescimento excessivo das cidades, embora acompanhasse sua expansão industrial, sem se identificar com ela. Baseava-se na pesquisa tecnológica e na transformação da natureza”.

            Diante de tantas inquietações, Paulo VI ainda se expressava: “a industrialização continua seu caminho sem parar, demonstrando uma criatividade inexaurível. Enquanto algumas empresas se dissolvem e se concentram, outras se extinguem ou se deslocam, criando novos problemas sociais: desemprego profissional ou regional, requalificação e mobilidade das pessoas, adaptação permanente dos trabalhadores, desigualdade de condições nos vários setores da indústria”.

            Até aqui, já se foram 80 anos “daquele chute inicial” de que falamos ao nos referirmos a Leão XIII. Relendo o que já comentamos dos Papas que se seguiram, é claro que não estamos encontrando uma “unanimidade” entre eles, mas não queremos dizer que eles estão desunidos na doutrina social que nos repassam. Unidade na Igreja, sim. Mas, uniformidade, isso não. Afinal, são pessoas diferentes, culturas diversas e mundo, Igreja, sociedade, ideologia e até sentimentos vão sofrendo as mutações de cada época. Isso não é para invalidar a nossa reflexão. É para completá-la. Vamos em frente.

            Chegamos ao 90º Aniversário da Rerum Novarum. É a vez do Papa João Paulo II. Ele nos chega com a Encíclica Laborem Exercens. “referindo-se aos novos progressos nas condições tecnológicas, econômicas e políticas que, segundo muitos especialistas, influenciarão o mundo do trabalho e da produção, não menos do que a revolução industrial do século passado”.

            Dez anos depois, o mesmo João Paulo II lança a Encíclica Centesimus Annus como ele mesmo disse: “é uma releitura da Encíclica Leonina”.

            E acrescenta: “vamos olhar para trás. Vamos redescobrir a riqueza dos princípios fundamentais formulados na Rerum Novarum. Mas também convido a olhar ao redor, para as coisas novas que nos cercam e nas quais nos encontramos imersos, muito diferentes das coisas novas que caracterizaram a última década do século passado. Por fim, convido a olhar para o futuro, quando já podemos vislumbrar o 3º Milênio da era cristã, cheio de incógnitas, mas também de promessas que apelam à nossa imaginação e criatividade”.

            Entre João Paulo II e Francisco tivemos o Pontificado de Bento XVI. Era um famoso teólogo alemão, professor de Universidades que deixou a ala mais conservadora da Igreja e o mundo político mais reacionário, de certo modo, esperançosos de que a já histórica Doutrina Social da Igreja sofreria abalos, exatamente porque não tinham aquela visão eclesial Divina: ‘não tenhais medo: eu estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos’ (Mt.28,20).

            Até ‘a releitura da Encíclica Leonina’, sugerida por João Paulo II, ali acima, confirma esta citação de Mateus. O Papa Bento XVI lançou a Encíclica Caritas in Veritate para calar conservadores e surpreender reacionários, ao retratar várias mudanças que afetavam o tecido social e trabalhista: “o conjunto de mudanças sociais e econômicas significa que os sindicatos enfrentam maiores dificuldades para cumprir sua tarefa de representar os interesses dos trabalhadores, também porque os governos, por razões de utilidade econômica limitam as liberdades sindicais ou a capacidade de negociação dos próprios sindicatos. As redes tradicionais de solidariedade encontram, assim, obstáculos crescentes a serem superados”. E ainda acrescenta: “o convite da Doutrina Social da Igreja, a partir da Rerum Novarum – para criar associações de trabalhadores para defender direitos – deve, portanto, ser honrado hoje ainda mais do que ontem, antes de tudo, dando uma resposta pronta e clarividente à urgência de estabelecer novas sinergias em nível internacional e local” e assim Bento XVI continuou a surpreender e a calar conservadores e reacionários.

            Ao fazer essa pequena ligação entre João Paulo II e Bento XVI, já fizemos algo semelhante entre Bento XVI e Francisco (no 1º sábado de Maio) quando falamos da Encíclica Lumen Fidei, assinada pelos dois (a 04 mãos – no dia 29/06/13) colocando em relevo, a preferencia e o cuidado com os pobres, especialmente, com os migrantes, como última mensagem do Papa que se ia, pela renuncia, e o Papa que tomava posse, na chegada. Não foi bonito? Mais uma pequena mostra de unidade e não, de uniformidade.

            Bento XVI permaneceu morando com Francisco, até morrer a 31.12.22 e Francisco nos ofereceu aos 24.05.2015 sua grande Encíclica Laudato Si sobre o Cuidado da Casa Comum. Segundo Comentários àquela época, a Laudato Si era a Rerum Novarum na prática.

            Aos 03/10/2020 Francisco nos chega com a Encíclica Fratelli Tutti, conclamando o mundo a vivermos como irmãos: sem guerra e buscando a paz.

            Aos 24/10/2024, mais uma Encíclica de Francisco: Dilexit nos, sobre o amor do Coração de Jesus para conosco. O amor é necessário para que se elimine a guerra e se viva em paz.

            Esses temas permearam toda a Missão de Francisco, que via nas nossas tensões sociais e a nossa falta de diálogo, de entendimento, de sentar para conversar, toda a razão da efervescência social que tanto nos separa.

            Agora nos vem o Papa Leão XIV pedindo a humanização daquilo que mais nos afasta do contato pessoal e humano, que é a linguagem digital. É o que há de menos comunitário. É o apelo à solidão. Ficar sozinho vai resolver? 

  






sábado, 24 de maio de 2025

 

TV ATITUDE POPULAR:PAULO FREIRE NA EDUCAÇÃO MUNICIPAL

EDIÇÃO DE 24 DE MAIO

Para muitos, pode não ser novidade, mas para mim foi surpreendente a quantidade de pessoas no lançamento do livro sobre Paes de Andrade, no ideal Clube, quarta feira, 21.

 Como todos os Betanistas, costumo ser pontual, mas percebi que há muitos outros, não betanistas, que são bem mais pontuais. O salão já estava lotado. Fila para compra e fila para os autógrafos.

 Dois bons motivos: Paes de Andrade, o biografado e Juarez Leitão, o escritor. Felizmente, o som estava bom no discurso do Juarez. Nos demais, quase imperceptíveis, para os mais distantes. Além de longos.

 Não deve ser cômodo para um orador segurar o seu texto, fazer a leitura e segurar o microfone, ao mesmo tempo. Tinha-se a ideia de que o som não havia sido testado antes.

 Falha comum: As caixas de som ficam perto de quem fala e longe de quem precisa escutar. Os instaladores se preocupam com a qualidade do som, mas não como chega à plateia mais distante.

 Por aquela razão e pelos discursos longos e monótonos, o salão, antes superlotado, esvaziou. Muitos perderam o, sempre ótimo, discurso do escritor Juarez Leitão.

 Há muitos que se referem ao Brasil dizendo “esse país”, como se estivessem fora dele.  O correto é dizer este país, se quem fala está no Brasil. Esse país é quando alguém se refere ao país do interlocutor que esteja em outro país.

 Há muitas pessoas que não sabem usar o pronome demonstrativo.  Imaginam que dizer ESSE PAÍS fica mais bonito.  Esta cadeira, é a de quem fala. Essa cadeira é a cadeira da pessoa com quem se fala. Aquela cadeira é aquela que está distante dos dois.

MUSEU: Em Croatá, na Serra da Ibiapaba, Silvério Oliveira, Músico e Servidor Público, tomou a iniciativa de ir juntando objetos relacionados à história do, então, recém instalado município. O acervo foi crescendo e virou um Museu.

 Agora tem recebido visita de muitos estudantes que, por iniciativa própria ou de seus Professores vão conhecer inúmeros objetos que já foram importantes, mas ficaram em desuso.

 Cada objeto tem sua história que o Silvério, pedagógica e pacientemente, vai contando aos visitantes, despertando muita curiosidade.  Alguns objetos usados até recentemente, foram ficando superados pela modernidade.

 Pela necessidade de cuidados especiais, bem que já podia haver uma cobrança de ingressos, como acontece em todos os museus do mundo. A conservação é necessária, senão o tempo vai corroendo muitas peças.

 Imaginamos até que, muito breve, o poder público municipal e/ou estadual olhará para a situação deste Museu de Croatá para servir de exemplo aos demais municípios cearenses.

 Imaginamos até que há iniciativas semelhantes em outros municípios que, com estímulos da Secretaria de Cultura do Estado poderão oferecer importantes contribuições para a valorização da cultura local.

Na próxima quinta feira, acontecerá mais uma reunião da Comissão Especial Wanda Sidou (Anistia) que conta com representação de 13 instituições, com atos de nomeação do Governador do Estado.

 Naquela reunião haverá a posse dos representantes da Ordem dos Advogados do Brasil: Dr. Marcelo Uchoa e Dra. Stella Maris Nogueira Pacheco, respectivamente, Titular e Suplente, recém nomeados.

 Na segunda feira, a convite da TV Atitude Popular, estarei participando de uma entrevista cujo tema será a adoção das ideias de Paulo Freire nas Secretaria de Educação dos municípios.

 Trabalho em Educação há 58 anos e sempre adotei como orientações fundamentais as ideias de Paulo Freire e sempre deram certo.

A minha experiência à frente da Secretaria de Educação de Guaraciaba do Norte deu resultados muito positivos e se transformaram no tema central de minha dissertação de Mestrado, realizada na UVA/sobral, em parceria com a Universidade Internacional de Lisboa.

 O tema central da Dissertação é a participação da comunidade nas ações desenvolvidas. O título é EM EDUCAÇÃO, SEM PARTICIPAÇÃO NÃO HÁ MUDANÇA.

 Na Pró-Reitoria de Extensão da UVA adotamos o Método de Alfabetização de Paulo Freire no Programa Alfabetização Solidaria. Pelo êxito alcançado, fomos convidados a realizar formação de alfabetizadores em Cabo Verde, África. 

Com prazer, estamos recebendo neste final de semana, em Fortaleza, o querido Sérgio Hermes, Advogado e Servidor Público, em São Luís. É filho de nossos caros compadres Lucimar e Osmar Oliveira. 


MEMÓRIAS DA DITADURA

AQUI, DEZENOVE SÉCULOS VOS CONTEMPLAM

                                                                                                                                                João de Paula Monteiro Ferreira (*)

- Entrem, fiquem o tempo que quiserem e, quando saírem, me encontrem ali.

 Apontando para um bar, era o que eu passara a dizer aos que nos visitavam em nossa nova morada, ao levá-los à mundialmente famosa Catedral de Colônia. O motivo, juro, não era uma vontade inadiável de tomar uma gostosa Kölsch, cerveja típica da região. É que, mesmo ficando extasiado com aquela expressão deslumbrante da arte gótica nas primeiras vezes que a via, depois da décima visita mostrando suas maravilhas aos amigos que vinham de outros países europeus e do Brasil, eu não aguentava mais a repetição.

 As articulações do Paulo Lincoln para que eu fosse aceito na Faculdade de Medicina de Colônia tinham dado resultado. Em consequência disso, eu fora chamado para prestar exame de proficiência no idioma alemão, condição para obter autorização de matrícula naquela instituição pertencente a uma universidade que tinha seis séculos de existência. Quando desembarquei do trem vindo de Bochum na Estação Central, ao lado da Catedral daquela cidade fundada pelos romanos no Século I, a palavra século martelou-me a cabeça até que me lembrei da badalada frase de Napoleão Bonaparte: “Soldados, do alto destas pirâmides quarenta séculos vos contemplam”. De fato, viver em Colônia era sentir-se contemplado pela cultura dos seus fundadores, presentificando um passado que se insinuava no idioma, na arquitetura, no urbanismo, nos sítios arqueológicos constantemente descobertos, nas obras de artes colecionadas em seus museus etc.

 Aprovado no exame de alemão, recebi a autorização para matricular-me no curso de medicina.  A Alegria que senti com esta notícia foi muito grande, mas a ela seguiu-se outra que me causou uma frustação que lhe era equivalente em tamanho. É que, dos cinco anos que eu cursara no Brasil e dos seis meses de estudos no Chile, foram reconhecidos apenas dois anos, significando que eu teria de estudar mais quatro para concluir um curso que estivera tão perto do fim ao ser interrompido duas vezes por ditaduras militares. Apelei desta decisão, mas meu recurso foi negado com a alegação de que não existia um convênio da Alemanha com o Brasil ou com o Chile para embasar uma equivalência curricular plena. Tive que resignar-me, decidindo levar adiante a luta para superar aquele novo desafio.

 Ao retomar os estudos de medicina, morei inicialmente numa residência universitária em Efferen, nos arredores de Colônia, com ligação à universidade por trens frequentes, confortáveis e rápidos.  Ela ficava em uma área bucólica, com muitos campos nos quais se podia passear a pé e de bicicleta e com alguns lagos muito bonitos, onde, no verão, pessoas de todas as idades costumavam tomar banho sem sentirem necessidade de usar qualquer tipo de roupa.

 No centro do Campus Universitário, situava-se a Mensa, nome latino do restaurante onde eram servidas refeições para algumas centenas de estudantes, muitos deles vindos dos mais variados lugares do mundo. Era um ambiente efervescente, que possibilitava trocas culturais entre pessoas de aparências físicas diversas e de costumes diferentes, oportunizando enriquecimento mútuo por meio das suas complementaridades. Tal como Bochum, Colônia era um centro universitário internacional, mas em escala muito maior.

  Outra coisa impressionante em Colônia era o alto grau de solidariedade das pessoas para com os refugiados vindos do Chile, principalmente das mais jovens. Com o propósito de apoiá-los, tinham sido organizados vários grupos, entre os quais um comitê de professores   para orientar estudantes sobre a continuação dos seus estudos. A Amnesty Internacional criara o Grupo de Coordenação Brasil, para articular ações com outros núcleos da entidade na Alemanha e no exterior. Apresentado pelo Paulo Lincoln, comecei a participar daquele grupo, ajudando nas traduções de notícias do Brasil para o alemão e do alemão para o português, em cartas que os alemães escreviam para o governo ditatorial do Brasil, pedindo a libertação de prisioneiros políticos.

 Atendendo solicitação de brasileiros do Comitê França-Brasil, sediado em Paris, foi articulada uma entrevista do Brasilien Rundschau (Panorama do Brasil), informativo do Grupo de Coordenação Brasil com François Jentel, padre belga que acabara de ser expulso do Brasil, após passar um ano na prisão. O crime dele era o seu trabalho pastoral com os povos originários, que incomodava a ditadura. A entrevista do sacerdote católico teve grande repercussão na Alemanha, gerando convites de muitas cidades para ele proferir palestras sobre suas experiências com os indígenas e a respeito da repressão que sofrera no Brasil.

 Exemplo notável da solidariedade dos alemães aos brasileiros vindos do Chile era o do casal Bärbel e Friedhelm. Os dois tiveram seus nomes abrasileirados quando vieram trabalhar aqui como voluntários, a Bárbara nos arredores do Recife e o Fred em Aracati. Estes estudantes conheceram-se no Brasil, apaixonaram-se pelo nosso país e entre si. Algum tempo depois casaram-se. Eu os havia conhecido no Grupo de Coordenação Brasil e quando a Ruth foi morar em Colônia para fazer seu curso de Psicopedagogia eles conseguiram um apartamento para alugarmos no prédio onde moravam. Com suas habilidades inatas e os conhecimentos adquiridos no curso de engenharia, o Fred liderou um mutirão de brasileiros para fazer a reforma do nosso apartamento. Dentre estas pessoas, lembro da participação dos casais Cristina e Sérgio Buarque, Ângela e Paulo Lincoln e, evidentemente, do casal beneficiário da reforma; a Bárbara, quase brasileira, como sempre estava presente.

 Um fato curioso desta reforma: ao consertarmos o reboco de uma parede que dava para a rua, descobrimos sob ele uma colagem de jornais, feita certamente para vedar rachaduras produzidas por bombas. Eram publicações de abril e maio de 1945 (portanto, de 30 anos antes) noticiando fatos que revelavam os sofrimentos da população. Foi um momento de reflexão sobre os horrores causados pelo nazismo aos povos que tiveram seus países invadidos e aos próprios alemães. 

Morar naquele prédio era um privilégio por sua localização muito próxima da Catedral e do rio Reno. Para Ruth e para mim, retirantes do Sertão do Ceará, viver perto de um rio que nunca secava era um encantamento.

 Na onda de solidariedade que recebíamos em Colônia, foi muito importante também a que nos foi prestada por Dom Fragoso, Bispo de Crateús, pelo padre José Maria Cavalcante e pelo hoje Monsenhor Assis Rocha. Eles nos visitavam e ajudavam no contato seguro com nossas famílias, levando a elas notícias tranquilizadoras e, às vezes, fazendo chegar aos saudosos paladares cearenses algumas iguarias como rapadura, goma e farinha de mandioca.

 E por falar em paladares, a feijoada e a caipirinha tornaram-se fortes atrativos para os eventos políticos que organizávamos em Colônia. Os alemães que tinham inventado o gostoso prato de joelho de porco com chucrute, não haviam descido um pouco mais para descobrir as delícias do mocotó deste animal, mas quando o provavam numa feijoada acompanhada de caipirinha ficavam fascinados. Alguns pegaram nossas dicas de onde comprar o feijão preto que vinha da África e a Pitú, importada de Pernambuco, e logo tornaram-se hábeis na preparação de uma feijoada teuto-brasileira.

 O ano de 1975 elevou de patamar a rearticulação dos brasileiros que haviam sido dispersados por vários países com o golpe do Chile. Muitos já haviam conseguido organizar bases mínimas para sua sobrevivência nas condições que lhes foram impostas. Ademais, a Revolução dos Cravos, ocorrida em Portugal no ano anterior, desencadeara um amplo processo de democratização naquele país, criando condições favoráveis para o acolhimento de refugiados brasileiros e para a divulgação de ações contra a ditadura militar do Brasil.

 Na Alemanha, Colônia tornara-se o centro da solidariedade a refugiados brasileiros e de ações de denúncia dos crimes da ditadura militar.

 A expansão na Alemanha do movimento de solidariedade aos perseguidos pela ditadura brasileira, as atividades da Ruth em Colônia, a turma da Deutsche Welle e da Transtel, minhas funções de estudante, locutor e palestrante, uma viagem a Berlim com membros do Grupo de Coordenação Brasil e uma a Paris no fuscão vermelho do Paulo Lincoln...ufa, são assuntos para uma próxima historieta.

       (*) Dr. João de Paula Monteiro Ferreira, de Crateús, Médico e Consultor Empresarial,  destacada liderança estudantil nos anos 60, no Ceará

Maranguape, 19 de maio de 2025.









O COMENTÁRIO DA SEMANA

 

A caridade evangélica: estrada principal para caminhar

Nesta sequência de Comentários semanais que estou fazendo sobre a eleição do Cardeal Prevost, tornando-se Leão XIV, tenho dito que Sua Santidade, antes de ser um continuador do Papa Francisco é sucessor de Pedro e tem em Leão XIII, sua maior inspiração para comandar a Igreja neste momento da história. É que, Leão XIII, há 154 anos escreveu a 1ª Encíclica que dava início à Doutrina Social da Igreja, intitulando-a de Rerum Novarum, que ‘defendia os princípios morais da dignidade e inviolabilidade da pessoa, bem como suas questões operárias e seus direitos de trabalhadores’.

 Acrescentei em meu comentário que, para Prevost escolher chamar-se Francisco II, ou João XXIV, como se chegou a sugerir, não teria efeito igual ao escolhido pelo novo Papa, em sua homenagem a Leão XIII, que dera o chute inicial à Doutrina Social da Igreja, seguida dali pra frente pelos demais Papas.

Chegou o momento de Leão XIV dar um salto de qualidade: ele não só entendeu que as coisas novas já passaram, como se aperfeiçoaram: elas agora são digitais. Estão “nas pontas dos dedos”. Um “click” faz a diferença. A Igreja é chamada a responder a outra revolução industrial: ao desenvolvimento da inteligência artificial, que traz novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho.

 Em conversa com os Cardeais que participaram do Conclave, explicou-lhes o porquê de sua escolha de “assumir o nome de Leão XIV: porque Leão XIII indicara o caminho da Doutrina Social da Igreja a ser percorrido, mesmo nesta era dominada por desequilíbrios econômicos e novos desafios”.

 Atualmente, como naquela época do final do século XIX, o mundo do trabalho é um dos pilares que sustentam o tecido social. Relendo a Encíclica do Papa Pecci, isto é, Leão XIII, focada nas condições das massas operárias e situando essas reflexões no contexto atual, podemos projetar uma espécie de Rerum digitalium: uma releitura das “coisas digitais”, seguindo o caminho traçado por Leão XIII à luz das profundas mudanças trazidas pelas novas tecnologias, de tal modo que a Rerum Novarum é uma mensagem cristã que encontra a modernidade e transmite um recado a homens e mulheres de hoje.

 Apesar de parecer tanto tempo, a Encíclica de Leão XIII transcende as décadas e o limiar do terceiro milênio. Temos que buscar o que o cristianismo nos está garantindo: a vida eterna. Temos de empreender todos os esforços para alcançar a verdadeira vida do homem: a vida eterna. Aquela que lhe será garantida no Mundo Vindouro. Nós acreditamos nisto?

 O Papa Leão XIII nos deixou em sua Encíclica e o Papa Leão XIV está corroborando e assinando com ele: ‘quer você tenha riquezas e outros bens terrenos em abundancia, ou que não os tenha, isso não importa para a felicidade eterna; mas o bom ou mau uso desses bens, isso é o que mais importa’.

 Enquanto o Papa Leão XIII dizia: “não é justo nem humano exigir do homem tanto trabalho a ponto de sua mente se tornar entorpecida por excesso de fadiga e seu corpo enfraquecer. Como sua natureza, a atividade humana é limitada e circunscrita dentro de limites bem estabelecidos, além dos quais ele não pode ir. O exercício e o uso a aprimoram sob a condição, porém, de que seja suspensa de tempos em tempos para dar lugar ao descanso. O trabalho, portanto, não deve ser prolongado além dos limites das próprias forças”.

O Papa Leão XIV reforça o que diz o seu predecessor e aponta a caridade evangélica como estrada principal para caminhar neste 3º milênio, além da lógica dos algoritmos, imprescindível na sustentação familiar.

 Será que precisamos de mais argumento para justificar a preocupação de Leão XIV, no aprofundamento dessa reflexão que não pode parar? Os Papas que o antecederam – de Leão XIII a Francisco – não deixaram apagar a mecha acesa, inicialmente. Mantiveram-na fumegando, alimentando a chama da Doutrina Social da Igreja. Não estaria na hora do passo de qualidade que Leão XIV está propondo?

 A Igreja não parou de fazer ouvir a sua voz diante das coisas novas, típicas da era moderna, e exorta para que façamos todos os esforços para que se possa afirmar uma civilização autêntica, na busca do desenvolvimento humano, integral e solidário.

 Em 15/05 de1931, o Papa era Pio XI. Nos 40 anos da Rerum Novarum ele escreveu a Encíclica Quadragesimo Anno, comemorando a data, num contexto histórico da crise, chamada de Wall Street, nos EEUU, que abalou o Mundo Industrial. Nesta nova Encíclica, Pio XI definiu a Rerum Novarum como uma “Carta Magna” da ordem social que, no fim do século XIX definira o sistema industrial da época, como dividido em duas classes: ‘uma minoria que gozava de quase todo conforto e uma maioria, composta da imensa multidão de trabalhadores, oprimidos por uma penúria ruinosa”.

 O Papa Pio XI, enquanto citava o início da Doutrina Social da Igreja, abria mais horizontes de reflexão sobre “o imperialismo internacional do dinheiro que tem causado danos à economia, sobretudo à economia popular”.

 A Rerum Novarum tornou-se, como que, o paradigma: era a referencia maior para os Papas continuarem seu processo de ensinamento doutrinário social. No seu 50º Aniversário, o Papa era Pio XII. Em 1941 – num tempo parecido com o nosso, da atualidade, marcado pelas guerras e por rumores de guerra – no Pentecostes, em sua mensagem radiofônica (o Vaticano já tinha os “Mass Media”), Sua Santidade os utilizou para lançar um recado forte ao Mundo, referindo-se à Encíclica Jubilar como “uma fonte que, se hoje pode ser, parcialmente, coberta por uma avalanche de acontecimentos diversos e mais fortes, amanhã, uma vez removidas as ruínas deste furacão mundial, quando começar a obra de reconstrução de uma nova ordem social, implorada como digna de Deus e do homem, infundirá novo impulso vigoroso e uma nova onda de crescimento em todo o florescimento da cultura humana”.

 Pio XII, menos incisivo do que seus predecessores, e até dos Papas, seus posteriores, não deixou passar em branco, sua participação. No entanto, nos 70 anos da Rerum Novarum, o Papa era o Santo João XXIII, e em tão curto tempo de seu Pontificado, convocou o Concílio Ecumênico Vaticano II e brindou-nos com a Encíclica Mater et Magistra, chamando a atenção em seu texto, para duas palavras-chave: Comunidade e Socialização, em que ele convoca a Igreja para colaborar e construir uma comunhão autêntica. Foi um programa escrito que o Concílio estudou e tirou normas pra vivenciar na Igreja.

João XXIII e sua Mater et Magistra, com o Concílio. Paulo VI e sua voz profética em Octogesima Adveniens. João Paulo II e suas: Laborem Exercens e Centesimus Annus. Bento XVI e Francisco (a 4 mãos) em Caritas in Veritate e as outras Encíclicas de Francisco, poderiam formar um bloco para o “próximo comentário” na conclusão do pensamento proposto por Leão XIV se já não está na hora de refletir sobre a Rerum Digitalium, dada a atualidade de Tema tão controverso e cada vez mais recorrente. Todos os dias, a cada momento, somos instados a responder a alguns curiosos que não estão acompanhando o progresso das ciências e tecnologias. Essa linguagem digital é preocupante!...






sábado, 17 de maio de 2025

COLUNA PRIMEIRO PLANO

 

GOLPISTAS PRETENDIAM “MATAR MEIO MUNDO”

As últimas publicações da Policia Federal revelam que a intenção era matar meio mundo. São revelações do Agente da Policia Federal Wladimir Matos Soares, de uma tal “equipe de operações especiais

Diz que só esperavam a canetada sair para ir ajudar a defender o Palácio e o Presidente.  E mais, ele diz que o grupo estava disposto a matar meio mundo de gente para garantir a permanência do Presidente.

“Os generais se venderam ao PT no ultimo minuto que a gente ia tomar tudo”.  E ainda há os que defendem tais golpistas, pedindo anistia para os demolidores dos prédios símbolos da democracia.

Ouvindo as gravações, percebe-se a grande fome de poder. Eles estavam dispostos a tudo. As gravações estão no site do ICL e qualquer pessoa poderá ouvir tudo.

Eu fico triste observando pessoas supostamente inteligentes, apoiando os golpistas.  Muitos que apoiavam o Trump estão voltando dos Estados Unidos com mãos abanando.

No domingo, às 17 horas, os ex-Perseguidos Políticos, no Ceará, estarão reunidos para apoiar e assinar um documento indicando o Dr. Marcelo Uchoa para Presidência da Comissão Wanda Sidou.

Se for escolhido e indicado pelo Governador, ficarei muito honrado em ser substituído por um jovem e competente Professor Universitário e Membro da Comissão Federal de Anistia.

Finalmente, depois de tantos anos, a Universidade Federal do Ceará concedeu, mesmo post mortem o título de graduação a Bergson Gurjão Farias, morto no Araguaia, pela ditadura de 64.

A solenidade deveria acontecer na concha Acústica, mas por causa da grande chuva que caiu sobre Fortaleza, aconteceu na Sala de Reuniões do Conselho Universitário.

O Magnífico Reitor Custódio Almeida presidiu a solenidade com a presença de seus principais assessores e com a presença de grande número de contemporâneos do homenageado e significativa presença de universitários

Bergson foi líder estudantil enquanto estudava química na Universidade Federal do Ceará (UFC), ocupando a vice-presidência do Diretório Central do Estudantes (DCE) da universidade. 

O ato significa muito mais um momento de reflexão sobre o que significa uma ditadura. Muitos outros foram presos e torturados. Outros tinham que viver na clandestinidade, com outros nomes, para escapar.

Muitos perseguidos conseguiram fugir e abrigar-se em outros países, sobrevivendo com o apoio de pessoas que não concordavam com a ditadura.

Semanalmente, aqui neste espaço, o ex-líder universitário João de Paula Monteiro Ferreira, hoje Médico e Consultor Empresarial, tem contado fatos vividos nos tempos da ditadura. É bom lê-los.

No Chile, por exemplo, onde conseguiram abrigo, com a queda de Allende e a ditadura que se seguiu, recebiam refeições que vizinhos lhes repassavam pelas brechas entre a parede e o telhado.

Boas notícias tenho recebido de Sobral, da F5, a Faculdade de Direito do INTA. Professores que participaram do encontro conosco estão aplicando, com êxito, o que exercitaram em nosso encontro.

O que a Professora Vânia Pontes está fazendo é algo inédito e extraordinário. Ela está preparando os Professores antes de encaminhá-los às salas de aula.  Isto faz uma grande diferença.

Alunos que percebem os Professores preparados para a docência e os tratando com respeito demonstram muito mais gosto de retornar diariamente à Faculdade.

Os professores estão descobrindo que, na cidade há outros locais que são fontes de aprendizagem. Um professor levou seus alunos à Agencia Municipal de Meio Ambiente – AMA, de Sobral. Um sucesso. (Confira o Vídeo – Visita dos alunos...)

Ao falar das inovações da F5, tenho ouvido comentários sobre outras instituições que apenas contratam professores e os encaminham para a Sala de aula sem nenhuma orientação. E os resultados?

São muitos os modelos de professores que, sem preparo, vão para as salas de aula. Uns só fazem ler os livros. Outros só sabem escrever no quadro para os alunos copiarem. Outros, arrogantes. E por aí vai...

O Papa Leão XIV surpreende, positivamente, a cada dia. Há uma satisfação geral. Seria muito bom que seus comportamentos servissem de exemplo para muitos padres e bispos.

Recomendo que vejam, no NETFLIX, o filme sobre o livro UM HOMEM DE PALAVRA, relacionado ao Papa Francisco. Nele se toma conhecimento das brilhantes ideias do Papa.

Coincidência? Em 2015, escrevi um livro sobre o empresário Vicente Emídio da Silveira, nascido no distrito de Serrota, em Senador Sá, com o título: UM HOMEM DE PALAVRA, publicado em 2015 

À época, quando o escrevi, ouvi vários empresários que muito elogiavam o personagem principal do livro e todos destacavam o cumprimento de seus compromissos. Daí um título.

É incrível a posição da grande imprensa nacional em relação às conquistas do Governo na viagem à China. É silencio total ou ênfase em pequenos detalhes insignificantes e até ridículos. Torcem contra o país?

Os comentaristas se acham donos do conhecimento. Só eles sabem. Só eles têm ideias para a economia, para a política, para tudo. E seus candidatos nas eleições.

O ICL, veiculo mais acreditado no país, está com uma serie de documentários sobre o milionário pastor Silas Malafaia, aquele que já esteve ao lado de todos os Presidentes.

Com os boletos dos “fieis” possui jatinho de luxo e carro de quatrocentos mil, para os seus passeios. Faz verdadeiras extorsões em nome da fé. Distribui envelopes com a quantia pré estabelecida a ser entregue.

O meu amigo Silveiro Oliveira, com quem tive o privilégio de trabalhar, na Secretaria de Educação de Croatá, organizou, com seus próprios recursos, um Museu com riquezas culturais do município. Será assunto de nossa próxima coluna.


MEMÓRIAS DA DITADURA

NÃO NASCEMOS RACISTAS

                                                                                                                                          João de Paula Monteiro Ferreira (*)

- Porque quero ficar da cor bonita do meu amigo.

Foi o que respondeu aquele alemãozinho de um seis para sete anos de idade, que tomava sol, deitado na calçada da vila onde havíamos sido alojados na véspera, ao ser perguntado pela nossa intérprete, a nosso pedido, porque estava fazendo aquilo.

A opinião daquela criança nos surpreendeu, nos encantou e nos colocou muitas interrogações. Qual era seu significado para os habitantes daquele lugar? Qual o seu alcance? Representaria uma mudança na posição dos alemães que foram tão afetados pela questão racial, algumas décadas antes? Ou era apenas uma daquelas manifestações da pureza infantil que os adultos não demoram a erradicar? Não tivemos respostas para tais interrogações naquele momento.

Aliás, estávamos cheios de perguntas sobre nossa vida e sobre aquele país onde, por circunstâncias imprevisíveis, iríamos passar um período relevante da nossa juventude.  O que era mesmo aquela Alemanha? Quanto tempo viveríamos ali? O que poderíamos esperar da vida naquela nova realidade?

Tínhamos muitas interrogações, mas nenhuma dúvida sobre nossa opção pela oferta de acolhimento da RFA- República Federal Alemanha, que nos deu integral apoio a partir do momento daquela decisão. A sua embaixada no Chile nos entregou passaportes especiais de refugiados e nos deu proteção desde a saída do Refúgio de Padre Hurtado até nosso embarque seguro no avião que nos retirou do Chile. 

Ao desembarcarmos em Bruxelas, naquele dia 9 de janeiro de 1974, já no aeroporto nos defrontamos com uma realidade bem diferente daquela em que vivêramos. A começar pela tecnologia. Fingers, máquinas de enxugar mãos, dispositivos automáticos de venda de camisinhas, refrigerantes e cigarros, por exemplo, eram coisas que ainda não tinham chegado aqui. A globalização ainda era lenta àquela época.

Em Bruxelas, fizemos conexão com um voo (pilotado por uma loura alta e muito simpática que não soubemos se era belga ou alemã) para Colônia, cidade da Alemanha situada no Vale do Reno. Ali nos aguardava um carro que nos levou para Unna-Massen, local de triagem para refugiados, no qual passamos quatro dias. Em seguida, viajamos para Bövinghausen, bairro periférico da cidade de Dortmund, onde fomos alojados em uma vila que abrigava refugiados do leste europeu, mas que fora aberta provisoriamente aos perseguidos pela ditadura de Pinochet. Ocupamos o pavimento térreo de um sobradinho de dois andares, com três cômodos, todo mobiliado, simples, mas bastante confortável.

Bövinghausen era um lugar seguro, calmo e agradável. Passamos a frequentar ali um curso básico de alemão. Nas horas livres, fazíamos caminhadas em um campo que se situava atrás da vila e praticávamos natação em uma piscina aquecida de um ginásio fechado, próximo à nossa casa. 

Recebemos muitas manifestações de atenção e solidariedade por parte de vários segmentos da sociedade local, que nos ajudava na nossa inserção em seu cotidiano e nos convidava para seus festejos. Foi aí que tivemos a primeira participação em um carnaval alemão. Isto se deu em um baile carnavalesco de um clube local. A festa começou com os casais dançando ...valsas, mas tornou-se mais animada quando a orquestra, regida por um maestro com batuta e tudo, passou a tocar ritmos parecidos com rancheiras e mazurcas. Usando nosso inglês-de-colégio, perguntamos ao maestro se ele poderia tocar músicas brasileiras e fomos logo brindados com o repertório que ele possuía: caímos na dança ao som do Tico-Tico no Fubá, da Aquarela do Brasil e da Banda, acompanhados de muitos entusiasmados alemães.

Depois de quase três meses em Bövighausen, fomos transferidos para a cidade de Bochum, pois aceitáramos um convite da sua universidade para fazermos um curso de alemão de duração de um ano, essencial para aprovarmos um exame de proficiência, requerido para que continuássemos com os nossos estudos superiores.

Ao chegarmos em Bochum, já encontramos uma colônia de chilenos e de outros refugiados latino-americanos. mas com poucos brasileiros. Logo fizemos bom relacionamento com esta comunidade e passamos a integrar a sua rede de apoios mútuos.

A propósito da convivência com os latino-americanos, lembro-me de uma ocasião em que, ao aproximar-me do Nelson, um salvadorenho baixinho e muito engraçado, que estava debruçado na sacada do prédio onde funcionava o nosso curso de alemão, olhando para uma obra de construção civil lá embaixo, ele virou-se para mim, dizendo: “acho ótimo ficar aqui observando estes lourões carregando sacos de cimento na cabeça, pois na minha terra só quem faz isso são os crioulos como eu”. E deu uma risada.

O curso de alemão oferecido pela universidade de Bochum reunia pessoas de praticamente todos os continentes. Ali havia alunos do norte da África, do Oriente Médio, da Ásia, da América Latina e de quase toda a Europa. Aquela convivência propiciava um intercâmbio cultural muito rico, que nos tornava conscientes de sermos habitantes de um planeta com grande diversidade humana, o que contribuía para nos sentirmos diferentes e complementares.

Fizemos boas amizades com os colegas. Duas polonesas que tinham parentes vivendo no Paraná, tinham muito interesse no Brasil e me contaram muitas coisas sobre a Polônia, tida a época como um país socialista. Os relatos delas impressionaram-me muito, pois davam conta da falta de liberdade e da ingerência da União soviética nas políticas do país.

Importante solidariedade recebemos também de portugueses e de espanhóis que trabalhavam na indústria automobilística na região do Ruhr, entorno da cidade universitária que era Bochum. Entre estas pessoas havia também refugiados políticos, pois em Portugal e na Espanha ainda sobreviviam regimes fascistas surgidos antes da Segunda Guerra Mundial. Eles sentiam-se identificados conosco pelas semelhanças culturais e pelo fato de virmos de países dominados por ditaduras militares, com teor fascista. Participávamos de suas atividades de luta pela democracia na península ibérica e das comemorações das festas nacionais de seus países.

Ruth e eu tivemos grande ajuda do casal Gertrudes e Michael, que fazia parte de uma rede de cidadãos criada para dar apoio aos refugiados vindos do Chile. Gertrud era uma secretária bilingue e Michael um alto executivo de empresas. Recebemos deles excelentes orientações sobre a região do Ruhr que eles conheciam muito bem; agiam como se fossem nossos cicerones em passeios a lugares muito bonitos e pacientemente nos contavam sua história e esclareciam fatos daqueles momentos. Na montagem da nossa residência em Bochum, a Gertrudes ajudou muito a Ruth na decoração, enquanto o Michael trabalhava comigo na instalação dos móveis. Estávamos fazendo este serviço e ele constatou que as buchas que trouxera para fixação de parafusos nas paredes não seriam suficientes, ficando constrangido por termos que interromper as atividades até o sábado seguinte, quando teria novamente folga; sugeri, então colocarmos palitos de fósforo nos buracos e quando ele viu que os parafusos ficaram bem firmes, quase pirou de admiração. Para ele, acostumado com o planejamento eficaz, era difícil imaginar a capacidade brasileira de improvisação no uso de colas, cordões, arames e outros recursos do tipo para fazer gambiarras capazes de substituir vários arranjos tecnológicos.

Muito relevante também foi o desprendimento e a ajuda que a Ruth e eu recebemos do Gerardo Alcoforado, um cearense do Crato, filólogo especializado em alemão, muito respeitado no mundo acadêmico pelos seus profundos conhecimentos e muito querido por estudantes, funcionários e professores da universidade pelo seu modo aberto de ser. O Gegê, como era carinhosamente chamado, nunca quis receber nada pelo serviço que nos prestou de tradução dos nossos documentos para o alemão. Ele tornou-se um grande amigo nosso. 

E por falar em cearense, tivemos também na Alemanha um porto seguro, como tivéramos no Chile, do casal Ângela-Paulo Lincoln. De Colônia, onde já estavam relativamente bem instalados, eles nos orientavam sobre os passos iniciais a serem dados, por meio de telefonemas e por carta (um antigo instrumento de comunicação) e batalhavam para conseguir nossa transferência para lá, onde as oportunidades eram melhores do que as de Bochum, onde tivemos a alegria de recebê-los, junto com a Daniela, algumas vezes.

Em Bövinghausen eram recebidos principalmente refugiados do leste europeu, fugidos de regimes socialistas, em Bochum eram mais os perseguidos por ditaduras de extrema direita. Deste modo, a República Federal da Alemanha abrigava pessoas de políticas e ideologias opostas. A própria nação alemã estava dividida em dois países, a parte leste sob influência soviética e a parte oeste, sob influência ocidental, com relações tensas entre elas, agravadas pelas disputas da Guerra Fria, travada entre os Estados Unidos e a União Soviética. A democracia na RFA, retomada após o término da Segunda Guerra Mundial, tinha muitos desafios pela frente por conta de sua complexa situação nacional e pela necessidade de superar o passado nazista.

As atividades dos brasileiros de denúncia dos crimes da ditadura militar, o exame de alemão, o recomeço de nossos cursos e nossa mudança para Colônia, ficam para uma próxima historieta.

dr. João de Paula Monteiro Ferreira, de Crateús, Médico,  consultor Empresarial, importante liderança universitária, à época da ditadura de 64

Maranguape, 12.05.25

                        







COLUNA PRIMEIRO PLANO

  LUIZIANE, A CAMINHO DO SENADO, SAI DO PT, MAS APOIARÁ LULA E ELMANO.                                        EDIÇÃO DE 04.04.26            ...