LULA EM PARIS - A TORRE EIFELL EM VERDE E AMRELO
EDIÇÃO DE 07/06/25
Nesta edição três artigos
muito interessantes: Em Memórias da Ditadura, Dr. João de
Paula escreve sobre o nascimento da filha Mariana, na Alemanha, onde se
refugiavam da ditadura.
José Neudo Rodrigues, em Lembranças de Guaraciaba do Norte, escreve sobre a sua primeira viagem de carro, num dia de eleição.
E o Mons. Assis Rocha, no seu artigo semanal, nos afirma: O Papa Leão XIV honrará o compromisso de Francisco.
Estilos diferentes, mas muito atraentes. São artigos que enriquecem o nosso Blog e esta publicação semanal.
Encontrei, há poucos dias, um amigo Professor universitário que se manifestou profundamente decepcionado com a falta de interesse dos alunos.
Os alunos não querem ler, estudar, participar das aulas. Uma constatação profundamente triste. Que profissionais teremos no futuro, se conseguirem concluir os cursos?
Não tenho percebido ações das instituições, no sentido de apoiar seus Professores e promover oportunidade de atualização. Algumas palestras nada mudam.
Muitos Professores não tiveram preparação para o magistério e a tendencia e reproduzir na sala de aula o que faziam seus mestres. Nem sempre imitáveis.
Em Sobral, na F5, Faculdade de Direito do INTA, a Coordenadora Vânia Pontes, possivelmente, é a única a cuidar da formação continuada de seus Professores.
Eu mesmo já estive algumas vezes com a
equipe de Professores, em Sobral, com quem conversamos sobre a metodologia de
ensino que adotam e as alternativas geradoras de participação. 
os Professores demonstraram as inovações que haviam feito, com resultados muito positivos.
E a Professora Vânia os acompanha,
ouve, conversa e compartilha as boas iniciativas. Suas atitudes entusiasmam e
motivam sua equipe de jovens Professores. É adepta da Educação Biocêntrica.
Todas as atividades em grupo são bem aceitas pelos alunos, desde que sejam bem orientadas, acompanhadas e não apenas uma forma de se ver livre dos alunos.
Este é mais novo livro da Professora
Yeda Freire, com quem trabalhei na Secretaria de Educação do Estado, nos anos
90. Desenvolvemos o Programa de Aceleração de Aprendizagem.
Era um trabalho pedagógico para recuperar alunos que estavam com defasagem idade série. Uma experiência de sucesso, em quatro municípios que elegemos pelos compromissos de suas equipes.
Foram eles: Aracati, Aratuba, Guaraciaba do Norte e Poranga. Muitos alunos passaram da primeira para a quarta; da primeira para a terceira e para a segunda série em seis meses.
GOLPE NA COMISSÃO WANDA SIDOU – A exemplo do que aconteceu há quatro
anos, presos/perseguidos políticos estavam organizando o abaixo-assinado,
indicando ao Governador, nomes para a sucessão na Presidência e Suplência.
De repente, uma instituição recém criada, com o nome de Instituto
64/68, encaminhou um oficio à Secretaria de Direitos Humanos, reivindicando o
lugar dos indicados pelos presos e perseguidos.
Na última reunião do dia 29/05, a Comissão, dia da posse dos
representantes da OAB, foi informada que a Secretaria encaminharia os nomes de
todos os Membros para que o Governador escolhesse Presidente Suplente.
Os presos e perseguidos estavam organizando o documento indicando
o nome do Dr. Marcelo Uchoa, da OAB e membro da Comissão Federal de Anistia,
como seu indicado para a Presidência. Veio o Golpe.
Lamentavelmente, aqueles que, de fato, lutaram pela redemocratização e por ela sofreram, não foram ouvidos, como era tradição. E suas histórias estão comprovadas nos arquivos da Comissão. Quem dos nomeados foi preso ou perseguido?
Foram substituídos sem nenhuma conversa, sem nenhum diálogo, sem um tempo para que a sua proposta e seu abaixo assinado fossem concluídos. Não houve nenhuma definição de prazo. Tudo, inexplicavelmente, às pressas
Os dois indicados pelo Instituto que tem pouquíssima
representação de presos/perseguidos políticos, foram nomeados, substituindo,
sem aviso, os que têm histórias comprovadas. Um choque geral. Será que o Governador
sabia disto? E os direitos humanos? Um paradoxo.
Um fato raro foram as homenagens que o Presidente Lula recebeu em Paris. Aqui a imprensa tradicional omitiu. Divulgou apenas as informações comuns.
Mas, querendo ou não, o mundo tomou conhecimento das grandes homenagens. Até a famosa Torre Eiffel se vestiu de verde/amarelo em homenagem ao nosso país. O mercado não pode apagar.
O Presidente da Republica e a Prefeita de Paris fizeram muitas demonstrações de carinho e respeito. Antes de Lula, só Dom Pedro II havia sido homenageado, em 1872.
Ontem à noite, tivemos a satisfação de participar da grande festa de aniversário da amiga Edna da Matta, esposa do ex companheiro de trabalho Raimundo da Matta, proprietário da ASA BALÕES.
A festa aconteceu num grande salão do Café Viriato, de excelente serviço. Na oportunidade foi lançado o livro Relatos de Experiência de Vida, do escritor Manoel Alves de Sousa.
MEMÓRIAS
DA DITADURA
PODE SER FELIZ?
João de Paula Monteiro Ferreira (*)
Com
esta frase, o pediatra que examinou a Mariana no hospital em que ela nascera no
dia anterior e que, por coincidência, era meu professor na faculdade,
arrematava uma argumentação em que começara dizendo: “colega, como estudante
de medicina, você deve saber que a Síndrome de Down não tem cura. Prepare-se
para um destino duro. No entanto, há uma opção “...
Ruth
e eu não perdemos um minuto com aquilo que para o meu professor de pediatria
poderia ser uma opção. Para nós, ela não era sequer uma hipótese a considerar.
A imensa dor que sentíamos não perturbava a clareza que tínhamos de que,
independentemente de qualquer coisa, nós iríamos cuidar da nossa filha.
A
dor nos primeiros dias era muito grande. Tinha sido enorme a nossa expectativa
pela vinda da Mariana e não estávamos preparados para o fato de nossa filha
nascer com uma condição de limitação de seu desenvolvimento, tida à época como
insuperável. Alguns meses antes, escrevêramos uma carta a seis mãos para nossas
famílias, junto com Dom Fragoso, Bispo de Crateús, que nos visitava em
Colônia, comunicando a gravidez da Ruth e falando da nossa alegria por estarmos
tendo a oportunidade de concretizar um sonho de muitos anos. Moldados por nossa
cultura e educação para nos submetermos a certos padrões de aparência, fama,
poder, inteligência, papéis sociais e de desempenho que não se coadunavam com
os que eram prescritos a quem a medicina e a sociedade carimbavam com o
diagnóstico de Síndrome de Down, ficamos completamente desnorteados diante
daquela realidade.
Foram
três semanas de desalento e prostração. Conversávamos, chorávamos juntos,
procurávamos dar apoio um ao outro, mas éramos como dois náufragos abraçados e
acabávamos afundando cada um em seu
microcosmo. Em um destes momentos de angústia individual, depois de me fazer
várias interrogações que eu não sabia responder, perguntei-me: a Mariana pode ser feliz? Quando
percebi que sim, compreendi que não havia nada melhor para minha filha do que
felicidade e que, sendo ela feliz, como pai dela eu também poderia ser. Foi
como um clarão. Corri para conversar com a Ruth. Analisando um sonho que
tivera, ela chegara a uma posição semelhante.
Convergimos
imediatamente, atiçando-se nossa chama adormecida de lutadores. E a primeira
batalha que travamos foi na frente interna, buscando extirpar os preconceitos
sobre a realização do ser humano que havíamos introjetado ao longo da nossa
formação. Em paralelo, sem desconsiderar as limitações impostas pela natureza,
começamos a procurar meios de ajuda para o desenvolvimento daquela bebezinha de
olhos puxados, nariz deprimido, língua grande e musculatura flácida. De início,
uma boa notícia: a Mariana não tinha qualquer problema cardíaco, ocorrência
frequente em portadores daquela síndrome, que costuma dificultar procedimentos
terapêuticos.
Por
feliz coincidência, soube por um colega de turma que sua esposa estava
frequentando um Programa de Estimulação Precoce para crianças com déficit
cognitivo no Curso de Pedagogia da Universidade de Colônia. Apresentados por
ela ao professor que conduzia aquele programa pioneiro, conseguimos
imediatamente inscrever a Mariana nele. Este programa tinha como um de seus
pontos mais inovadores a capacitação dos pais como estimuladores dos seus
filhos. Entramos de corpo e alma em suas atividades.
Nossa
busca por recursos terapêuticos e pedagógicos que pudessem ser úteis à Mariana
estendeu-se inicialmente a outras cidades da Alemanha e, em seguida a outros
países europeus, de onde recebíamos informações e convites para visitas por
parte de amigos que viviam neles como refugiados políticos, formando-se uma
rede que captava novidades que surgissem em quase toda a Europa. A Ruth, como
quase concludente de psicopedagogia e eu, mais uma vez, pertinho de formar-me
em medicina, estudávamos tudo o que podíamos alcançar sobre o desenvolvimento
de pessoas com deficiências.
Em
Colônia mesmo, localizamos um médico que fazia um tratamento experimental que
ele denominava de terapia celular, mas depois de duas aplicações de umas
injeções que ele preparava com tecido embrionário do cérebro de carneiros,
desistimos por descrença em suas bases científicas.
Tomamos
conhecimento de que um cirurgião plástico estava operando crianças com Síndrome
de Down em Frankfurt no Meno, cidade a duas horas de carro de Colônia. Seu fundamento era que, realizadas
precocemente, estas operações traziam melhorias funcionais, contribuíam para
reduzir discriminações e para aumentar a autoestima da criança no futuro.
Depois de muita pesquisa e de uma consulta com ele, decidimos pela realização
de um procedimento de elevação da base do nariz e de redução da língua da
Mariana. Em Frankfurt, para a realização desta operação, fomos hospedados pela
Lourdinha e o Moacir, um casal amigo da Ruth e da Neuma, sua irmã. Os
resultados da cirurgia foram altamente satisfatórios do ponto de vista estético
e, no caso da língua, também funcionalmente, contribuindo para a melhoria da
dicção e da mastigação.
Mariana é um dos seres humanos mais felizes que já
conheci. Autoconfiante, comunicativa, bem-humorada e solidária, tem
inteligência afetiva e sociabilidade acima da média. É estimada e admirada por
familiares, amigos e por muitas pessoas que a conhecem em suas múltiplas
atividades. Já teve alguns namorados e diz que não desistiu de casar-se. Lê e
escreve, faz discursos e dá palestras sobre sua trajetória de vida e sobre
inclusão de pessoas com deficiência. Estagiou nos Correios, trabalhou no
Empório Delitália, no Centro Cultural do Banco do Nordeste e na
Comissão de Pessoas Com Deficiências da Prefeitura de Fortaleza. Indicada
pelo professor Custódio Almeida, atual Reitor da UFC, para fazer formação em
Biodança, está em sua etapa final, atuando em dupla na facilitação de grupos em
cumprimento do seu período de estágio.
Quando
leu a primeira versão desta historieta, a Mariana me disse: “pai, está boa,
mas você esqueceu de falar que fiquei dois anos sem Pátria”. E ela está
certa. Seguindo diretrizes da ditadura militar, o Consulado do Brasil em Düsseldorf,
responsável pela área de Colônia, não registrou o seu nascimento. Só veio a
fazê-lo em 1979. depois da concessão da anistia, mais de dois anos após a data
em que nascera. Neste intervalo de tempo ela ficara como apátrida, sendo por
isso anistiada pelo governo federal em 25 de março de 2025.
Ao
voltarmos do exílio, Ruth e eu viemos para o Ceará com o propósito de
aplicarmos aqui o que havíamos aprendido na Europa sobre o desenvolvimento de
pessoas com deficiências. Com este objetivo, em parceria com a psicóloga Fátima
Diógenes, criamos a Escolinha Raio de Sol e o Centro de Desenvolvimento
Humano. Simultaneamente, convidado por Dondea Regina Almeida, então
presidente da APAE de Fortaleza, ajudei a estruturar naquela instituição uma
equipe multidisciplinar para tratamento de pessoas com deficiência, constituída
por profissionais da Pedagogia, Psicologia, Fisioterapia, Terapia Ocupacional,
Educação Física e Assistência Social, ocupando por alguns anos o cargo de seu
diretor clínico.
(*) Dr. João de Paula Monteiro Ferreira, de Crateús, Médico Consultor Empresarial
Importante liderança universitária no tempo da ditadura de 64
GUARACIABA DO NORTE:
LEMBRANÇAS
A Primeira Viagem de Carro: Um Encontro com a
Democracia
O
veículo era um caminhão antigo, talvez um Chevrolet ou Ford, com a boleia
aberta e de madeira. Viajei no colo de minha mãe, ao lado de meu pai. A
estrada, de terra batida e esburacada, serpenteava entre as serras cearenses.
Para mim, tudo era novidade: o vento no rosto, o barulho do motor, a paisagem
passando depressa.
Na
cidade, o movimento era intenso. As pessoas se reuniam para votar e discutir os
rumos do país. Meu pai, apoiador do general Eurico Gaspar Dutra, estava
confiante. Dutra, candidato do PSD, enfrentava o brigadeiro Eduardo Gomes, da
UDN, e Yedo Fiúza, do PCB. A eleição marcava o retorno à democracia após anos
de regime autoritário.
Mesmo
tão jovem, percebi a importância daquele momento. A vitória de Dutra, com
55,39% dos votos, (3.251.507 votos), contra 2.039.341 votos sufragados a
Eduardo Gomes, trouxe esperança de um futuro mais livre e justo. Dias depois,
comemoramos em casa, sentindo que o país iniciava uma nova era.
Aquela
viagem não foi apenas minha primeira experiência sobre rodas, mas também meu
primeiro contato com a cidadania e a política. Uma lembrança que carrego com
carinho, símbolo de um Brasil que renascia.
Trata-se
de uma lembrança pessoal de uma viagem em um caminhão com boleia de madeira, em
estradas precárias, que reflete não apenas uma experiência familiar, mas também
o espírito de um Brasil em transição. Hoje celebro a emoção de testemunhar a
primeira eleição presidencial a que assisti, mesmo na tenra idade, e a
compreensão que adquiri do significado daquele momento histórico, que me
impregnou uma consciência precoce e profunda do que seja democracia.
(*) Dr. José Neudo Rodrigues, guaraciabense, ex Juiz de Direito em várias Comarcas do Ceará
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