sábado, 19 de julho de 2025

O COMENTÁRIO DA SEMANA



Todos os que acreditavam estavam juntos e unidos

Há uma semana, em meu Comentário sobre férias, falei da sua origem e necessidade para todos, exemplificando com o próprio Papa, Leão XIV que, em Castel Gandolfo, estava de férias, mantendo uma tradição multi-secular de Papas que, nesta época de verão, sempre buscavam um lugar muito agradável e ameno, para livrar-se um pouco, do grande calor europeu.

             Acrescentava eu que, ao que se sabe, o único Papa que renunciara ao lazer oferecido por toda a área agrícola (55 ha.) jardinada, produtora de leite, das Vilas Pontifícias teria sido o Papa Francisco que, em vez de usar tudo para o seu conforto e descanso pessoal, decidiu ‘socializar o espaço, fundando uma Escola Superior de Astronomia, onde já formou uma 1ª Turma de Astrônomos de 22 países. Francisco pensou nisso pra dar utilidade a um dos mais potentes telescópios do mundo (1/2 ocioso) de propriedade do Estado do Vaticano. Dizia também que, por certo, Francisco se teria tornado mais merecedor da simpatia de seu sucessor e de todos nós por mais este feito que conquistou o mundo.

            Este exemplo concreto de “socialização” dado pelo Papa Francisco, me remete a pensar no início dos meus estudos de Filosofia e Teologia, no ITER (Instituto de Teologia do Recife) onde funcionava o Seminário Regional do NE, em Olinda – PE: de 1961 a 1966, isto é, dos meus 20 aos 25 anos. Ali fiquei, exatamente, durante o tempo prévio e de realização do Vaticano II em Roma.

            Tal período foi de muita reflexão, muito aprendizado e armazenamento para uma Missão que se desenvolveria na prática futura. A sigla ITER, por si, já era uma palavra latina, plena de significado: “caminho”, “estrada”. Muito expressiva e chamativa. Estávamos na via certa. Procedíamos, especialmente, do Nordeste Brasileiro, com abertura para o Norte e até, para o Centro Sul.

            A Região Nordeste II da CNBB, que compreendia os Estados de Alagoas, Paraíba, Pernambuco e R.G. do Norte selecionara o melhor de seus professores e orientadores para fazerem parte de sua equipe de formadores: Padres e Leigos, distribuídos entre direção e corpo docente, tais como: Padres Marcelo Carvalheira, Luís Carlos, Arnaldo Cabral, os irmãos Zeferino e Zildo Rocha, Almeri Bezerra, Luís Gonzaga Sena, Marcelo Santos, José Comblin, Eduardo Hoenaert, Humberto Plumen e outros brasileiros ou europeus que por lá estudaram, bem como outros professores leigos com vasta experiência em Universidades brasileiras ou portuguesas, como Newton Sucupira, Ariano Suassuna, Vamireh Chacon e outros, todos com a supervisão, aval e bênção, inicialmente, de Dom Carlos Coelho e, depois de 1964, de Dom Helder Câmara e Dom Lamartine Soares, os profetas que enfrentaram a ditadura militar.

            Esta chegou para destruir todos os conceitos filosóficos e sociológicos de nossos estudos, bem como as exegeses que fazíamos da Palavra de Deus que fundamentava nossa Teologia Libertadora.

            Concomitantemente, a tais estudos filosóficos e teológicos buscávamos aplicá-los na vida prática, entre o povo, através da Ação Católica especializada, das C.E.Bs (Comunidades Eclesiais de Base), do M.E.B. (Movimento de Educação de Base), dos Centros de Estudos Bíblicos, de aprofundamento dos Decretos, Declarações ou outros tipos de Documentos Conciliares, de forma que, a junção da teoria à prática, da fé à obra, de oração e ação ia formando no futuro Padre ou (se não fosse padre) no cristão do futuro, um conscientizado      agente de transformação na sociedade: eclesial, política e educacional.

            Ao socializar o uso do Potente Telescópio de Castel Gandolfo na Escola Superior de Astronomia, Francisco tornou-a também Museu a ser visitado.

            Estou colocando este exemplo e testemunho do Papa Francisco para dizer que ele não estava inovando ou revolucionando tudo, como o criticavam. Ele era estudante - como eu e tantos coetâneos nossos - nas décadas de 1950-70, quando estudávamos em Seminários, pela América Latina, cheia de desrespeito à democracia, pela imposição de governantes ditatoriais.

            Sobretudo nossos estudos filosóficos e teológicos, fundamentalmente, tinham a mesma orientação libertadora que a Igreja Latino-americana tinha e a ousadia ou coragem de indicá-la, acompanhá-la e cobrá-la de seus estudantes.

            Entre as muitas pastorais da Igreja, à época, em que estudávamos e que citei ali acima, estava a histórica Doutrina Social da Igreja, a Ação Católica especializada e o Concílio Ecumênico Vaticano II. Deter-me-ei sobre a A.C., pra começo de conversa, lembrando que poderei depois, aprofundar ou dar mais informações, a respeito de outras entidades, já também lembradas.

            Entre todos nós -, os que pertencíamos ao corpo discente, e o grupo que integrava o corpo docente – havia um mesmo objetivo: preparar-nos para uma Missão comunitária ou social, com uma orientação para servir coletivamente. O princípio posto em nossa prática de ensino era o dos Atos dos Apóstolos, 2,44: Todos os que acreditavam estavam juntos e unidos e repartiam uns com os outros, o que tinham”. E, no mesmo Livro dos Atos, 4,32: “Ninguém dizia que as coisas que possuía eram somente suas, mas todos repartiam uns com os outros, tudo o que tinham”. Para nós, os que ensinavam e os que aprendíamos, inúmeros textos bíblicos, do Antigo e do Novo Testamentos iam justificando a Filosofia e a Teologia Libertadoras que nos fariam abraçar compromisso social.

            Quem começou a nos recriminar e a perseguir-nos por causa dessa maneira de ensinar e de aprender foi a Ditadura Militar que, em cada país que ela se instalava e, no Brasil, não foi diferente, os ensinamentos libertadores da Palavra de Deus, foram rechaçados e punidos, severamente, com prisões, proibições, exílio e até mortes, se não aceitássemos “sua época de chumbo”.

            Entre os nossos seminaristas, havia um grupo de Universitários das várias Ciências que, por fazerem parte da Juventude Universitária Católica (JUC) já haviam sido recrutados, motivados e até ingressados em Seminários, tendo em vista o Sacerdócio. Juntos conosco – sem vínculo universitário – formávamos uma Comunidade homogênea, de entreajuda, que nos enriquecia, mutuamente. Ao mesmo tempo, íamos tomando contato com a literatura de nossos professores que, com outros experientes docentes latino-americanos nos iam alimentando, intelectualmente, para termos mais segurança depois.

            Dependendo de nossa origem e da tendência que tivéssemos para nos especializar, íamos escolhendo a nossa dedicação pastoral futura, seguindo as vogais que nos uniam num mesmo método de Ação Católica que se ia dirigindo ao campo, pela J.A.C. (Juventude Agrária Católica). J.E.C. (Juventude Estudantil Católica). J.I.C. (Juventude Independente Católica). J.O.C. (Juventude Operária Católica) e J.U.C. (Juventude Universitária Católica).

            A Ação Católica iniciou pela Europa, quando operários de indústrias, em fábricas se ressentiam das desorganizações horárias, diárias, semanais, mais ou menos sem ordem e eles reivindicavam por uma distribuição mais racional.

            Suas reclamações e dores chegaram aos ouvidos do Papa Pio XI que, em 1935, dirigiu uma mensagem ao mundo cristão, convocando a todos para “o exercício pacífico de Cristo, formando um exército de justiça, amor e paz” e que “os leigos se tornem o braço estendido da Igreja Católica no seio da sociedade como apostolado organizado e subordinado ao poder do clero”. Voltarei!

                     Bordados pedagógicos da Professora Nazaré Antero

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