Todos os
que acreditavam estavam juntos e unidos
Há uma semana, em meu
Comentário sobre férias, falei
da sua origem e necessidade para todos, exemplificando com o próprio Papa, Leão
XIV que, em Castel Gandolfo,
estava de férias, mantendo uma tradição multi-secular de Papas que, nesta época
de verão, sempre buscavam um lugar muito agradável e ameno, para livrar-se um
pouco, do grande calor europeu.
Acrescentava eu que, ao que se sabe, o único Papa que renunciara ao lazer oferecido por toda a área agrícola (55 ha.) jardinada, produtora de leite, das Vilas Pontifícias teria sido o Papa Francisco que, em vez de usar tudo para o seu conforto e descanso pessoal, decidiu ‘socializar’ o espaço, fundando uma Escola Superior de Astronomia, onde já formou uma 1ª Turma de Astrônomos de 22 países. Francisco pensou nisso pra dar utilidade a um dos mais potentes telescópios do mundo (1/2 ocioso) de propriedade do Estado do Vaticano. Dizia também que, por certo, Francisco se teria tornado mais merecedor da simpatia de seu sucessor e de todos nós por mais este feito que conquistou o mundo.
Este
exemplo concreto de “socialização” dado pelo Papa Francisco, me remete a pensar
no início dos meus estudos de Filosofia e Teologia, no ITER (Instituto
de Teologia do Recife) onde funcionava o
Seminário Regional do NE, em Olinda – PE: de 1961 a 1966, isto é, dos meus 20
aos 25 anos. Ali fiquei, exatamente, durante o tempo prévio e de realização do
Vaticano II em Roma.
Tal
período foi de muita reflexão, muito aprendizado e armazenamento para uma
Missão que se desenvolveria na prática futura. A sigla ITER, por si, já era uma
palavra latina, plena de significado: “caminho”,
“estrada”. Muito expressiva e chamativa. Estávamos na via certa. Procedíamos, especialmente, do Nordeste
Brasileiro, com abertura para o Norte e até, para o Centro Sul.
A
Região Nordeste II da CNBB, que compreendia os Estados de Alagoas, Paraíba,
Pernambuco e R.G. do Norte selecionara o melhor de seus professores e
orientadores para fazerem parte de sua equipe de formadores: Padres e Leigos,
distribuídos entre direção e corpo docente, tais como: Padres Marcelo
Carvalheira, Luís Carlos, Arnaldo Cabral, os irmãos Zeferino e Zildo Rocha,
Almeri Bezerra, Luís Gonzaga Sena, Marcelo Santos, José Comblin, Eduardo
Hoenaert, Humberto Plumen e outros brasileiros ou europeus que por lá
estudaram, bem como outros professores leigos com vasta experiência em
Universidades brasileiras ou portuguesas, como Newton Sucupira, Ariano
Suassuna, Vamireh Chacon e outros, todos com a supervisão, aval e bênção,
inicialmente, de Dom Carlos Coelho e, depois de 1964, de Dom Helder
Câmara e Dom Lamartine Soares, os profetas que enfrentaram a ditadura
militar.
Esta
chegou para destruir todos os conceitos filosóficos e sociológicos de nossos
estudos, bem como as exegeses que fazíamos da Palavra de Deus que fundamentava
nossa Teologia Libertadora.
Concomitantemente,
a tais estudos filosóficos e teológicos buscávamos aplicá-los na vida prática,
entre o povo, através da Ação Católica
especializada, das C.E.Bs (Comunidades Eclesiais de Base), do M.E.B.
(Movimento de Educação de Base), dos Centros de Estudos Bíblicos, de
aprofundamento dos Decretos, Declarações ou outros tipos de Documentos
Conciliares, de forma que, a junção da teoria à prática, da fé à obra, de
oração e ação ia formando no futuro Padre ou (se não fosse padre) no cristão do
futuro, um conscientizado agente de
transformação na sociedade: eclesial, política e educacional.
Ao
socializar o uso do Potente
Telescópio de Castel Gandolfo na Escola Superior de Astronomia, Francisco tornou-a
também Museu a ser visitado.
Estou
colocando este exemplo e testemunho do Papa Francisco para dizer que ele não
estava inovando ou revolucionando tudo, como o criticavam. Ele era estudante -
como eu e tantos coetâneos nossos - nas décadas de 1950-70, quando estudávamos
em Seminários, pela América Latina, cheia de desrespeito à democracia, pela
imposição de governantes ditatoriais.
Sobretudo
nossos estudos filosóficos e teológicos, fundamentalmente, tinham a mesma
orientação libertadora que a Igreja Latino-americana tinha e a ousadia ou
coragem de indicá-la, acompanhá-la e cobrá-la de seus estudantes.
Entre
as muitas pastorais da Igreja, à época, em que estudávamos e que citei ali
acima, estava a histórica Doutrina Social da Igreja, a Ação Católica especializada e o Concílio Ecumênico Vaticano
II. Deter-me-ei sobre a A.C., pra começo de conversa, lembrando que poderei
depois, aprofundar ou dar mais informações, a respeito de outras entidades, já
também lembradas.
Entre
todos nós -, os que pertencíamos ao corpo discente, e o grupo que integrava o
corpo docente – havia um mesmo objetivo: preparar-nos para uma Missão
comunitária ou social, com uma orientação para servir coletivamente. O
princípio posto em nossa prática de ensino era o dos Atos dos Apóstolos, 2,44: “Todos os que
acreditavam estavam juntos e unidos e repartiam uns com os outros, o que
tinham”. E, no mesmo Livro dos Atos, 4,32: “Ninguém dizia que as coisas que possuía eram somente suas, mas todos
repartiam uns com os outros, tudo o que tinham”. Para nós, os que ensinavam
e os que aprendíamos, inúmeros textos bíblicos, do Antigo e do Novo Testamentos
iam justificando a Filosofia e a Teologia Libertadoras que nos fariam abraçar
compromisso social.
Quem
começou a nos recriminar e a perseguir-nos por causa dessa maneira de ensinar e
de aprender foi a Ditadura Militar que, em cada país que ela se instalava e, no
Brasil, não foi diferente, os ensinamentos libertadores da Palavra de Deus,
foram rechaçados e punidos, severamente, com prisões, proibições, exílio e até
mortes, se não aceitássemos “sua época de
chumbo”.
Entre
os nossos seminaristas, havia um grupo de Universitários das várias Ciências
que, por fazerem parte da Juventude Universitária Católica (JUC) já haviam sido recrutados, motivados e até
ingressados em Seminários, tendo em vista o Sacerdócio. Juntos conosco – sem
vínculo universitário – formávamos uma Comunidade homogênea, de entreajuda, que
nos enriquecia, mutuamente. Ao mesmo tempo, íamos tomando contato com a
literatura de nossos professores que, com outros experientes docentes
latino-americanos nos iam alimentando, intelectualmente, para termos mais
segurança depois.
Dependendo
de nossa origem e da tendência que tivéssemos para nos especializar, íamos
escolhendo a nossa dedicação pastoral futura, seguindo as vogais que nos uniam
num mesmo método de Ação Católica que se ia dirigindo ao campo, pela J.A.C. (Juventude
Agrária Católica). J.E.C. (Juventude Estudantil Católica). J.I.C. (Juventude
Independente Católica). J.O.C. (Juventude Operária Católica) e
J.U.C. (Juventude Universitária Católica).
A
Ação Católica iniciou pela Europa, quando operários de indústrias, em fábricas se
ressentiam das desorganizações horárias, diárias, semanais, mais ou menos sem
ordem e eles reivindicavam por uma distribuição mais racional.
Suas
reclamações e dores chegaram aos ouvidos do Papa Pio XI que, em 1935, dirigiu
uma mensagem ao mundo cristão, convocando a todos para “o exercício pacífico de Cristo, formando um exército de justiça, amor
e paz” e que “os leigos se tornem o
braço estendido da Igreja Católica no seio da sociedade como apostolado
organizado e subordinado ao poder do clero”. Voltarei!


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