“Padre e
egoísmo nunca podem andar juntos”.
Desde a 2ª quinzena do Mês
de Julho e nessas 04 semanas deste Mês de Agosto, tenho dedicado meus ‘Comentários’ a responder
perguntas, que me são formuladas por um assíduo leitor, pessoalmente, ainda meu
desconhecido.
Pelo meu costume antigo de - em Programas de Rádio, ao
vivo - colocar o telefone à disposição dos ouvintes para perguntarem o que
quisessem, aceitei que o Dr. Mariano de Freitas – 450 km distante de mim –
colocasse sua pergunta e eu iria tentar responder, mesmo sem a resposta
instantânea. Com as dificuldades na
comunicação, até agora está dando certo, além de curioso.
Faz 15 dias, ao encerrar meu Comentário do dia 09, eu dizia que, alguns políticos citavam um princípio “Joanino” - isto é, do capítulo 8, versículo 32, do 4º evangelho - só da boca pra fora: “conhecereis a verdade e ela vos libertará”. E acrescentava: ‘podemos voltar a este tema’?
No sábado passado, eu encerrei com
mais uma advertência: “é claro que a
Igreja é composta de homens, como as demais instituições. Têm todos eles um fio
condutor, uma busca de unidade, um desejo de governar e de ser governado,
respeitando as hierarquias, com revisões sistemáticas das ações, vendo,
julgando e agindo”? Com isto eu questionava a diferença dos poderes.
Lá no início desta nova fase de Comentários – no dia 26 de julho
- ao aceitar a provocação do meu novo interlocutor, eu citei, rapidamente, o
jovem Pe. Helder Câmara (1936); pouco depois foi convidado a ser o Secretário da
Arquidiocese do Rio de Janeiro, até 1952, quando se tornou seu bispo auxiliar. Padre Conciliar do Vaticano II (1962 a 1965), fundador
da CNBB (1963), Arcebispo de Olinda e Recife (1964) e, daí em diante, peregrino
pelo mundo, pelo menos, duas vezes por ano, em consonância com o Papa, para
divulgar, a convite, o resultado do Concílio Ecumênico de Comunhão e Participação. É sobre este Monstro Sagrado, que
quero discorrer agora, como um dos vários exemplos concretos da Igreja
Católica, tão criticado por falsos patriotas.
Nasceu
em Fortaleza – CE, aos 07 de fevereiro de 1909 e morreu em Recife – PE, aos 27
de Agosto de 1999, com mais de 90 anos, bem vividos, de consagração e dedicação
ao bem, à verdade e ao combate por uma sociedade justa, solidária e de amor,
preferencialmente, pelos pobres.
Teve
uma vida normal de criança católica comum: batizado, crismado, 1ª Eucaristia e
já demonstrava interesse em entrar no Seminário Menor de Fortaleza. Nessa
ocasião, seu pai, Sr. João Câmara, guarda-livros de firmas comerciais e meio
sem religião, disse-lhe uma frase que ele guardou pra toda a vida: “meu filho, você sabe o que é ser padre? Padre e egoísmo nunca podem andar juntos. O padre tem
que se gastar; deixar-se devorar”
Sem
esquecer esta máxima, o
seminarista, o Padre, o secretário e bispo auxiliar da Arquidiocese do Rio de
Janeiro, o Arcebispo de Olinda e Recife, o Padre Conciliar do Vaticano II, o
líder do Movimento Operário, do departamento de Educação, da Teologia da
Libertação, das Comunidades Eclesiais de Base, da divulgação Conciliar da
Comunhão e Participação, das Conferencias Episcopais, Conselhos e Comissões, dentro
e fora do Brasil, de tal maneira que, não havia uma necessidade ou solicitação
da Santa Sé que o procurasse, pedindo-lhe a colaboração, que ele não se
lembrasse da advertência do seu pai: “meu
filho, Padre e egoísmo nunca podem andar juntos. O Padre tem que se gastar;
deixar-se devorar”. Falo, por conhecimento de causa. Convivi, muito de
perto, com ele e o tenho como uma das grandes referencias da Igreja. Não me
canso de falar sobre Dom Helder e quero aproveitar mais esta chance.
Durante
meus 05 anos, em Roma, entre idas e vindas (1972-1982) tinha encontros com ele
na Itália ou em países vizinhos, por ocasião de suas visitas.
Certa
vez, em Milão, com Dom Helder, participei de uma caminhada com 500 mil jovens,
onde ele desenvolveu o tema: “todo homem
é o meu irmão”. A Juventude o aplaudiu, delirantemente. Nem preciso dizer
da minha felicidade.
Em
outra ocasião, em Atenas, Capital da Grécia, berço da democracia, fui ver Dom
Helder, debatendo com outros pensadores, políticos, estadistas e intelectuais
sobre o tema: “há possibilidade de
democracia hoje”? Lá estava ele dando sua mensagem e colaboração ao mundo “sem fronteiras”, mais unido e mais
saudável onde todos pudéssemos viver como irmãos.
Quantas
vezes eu o ouvi e vi, em redes de televisão europeia – algumas entrevistas,
marcadas por mim – ou se pronunciando em auditório lotado, como em Castelamare
di Stabia, perto de Napoli, com voz forte, corajosa, opondo-se a “ditaduras de esquerda ou de direita, como
nos hediondos tempos de Stalin e de Hitler” nem sempre com o assentimento
de todos.
Em
seu pastoreio em Olinda e Recife deu vida nova àquela Igreja local,
aproximando-se da vida do povo. Viajava, constantemente, ao exterior fazendo
palestras em todos os continentes. Recebeu 32 títulos de Doctor Honoris Causa,
mais de 54 prêmios e honrarias. Fez parte de mais 32 organizações nacionais e
internacionais. Deixou muitos livros, originalmente, escritos em português ou
em outras línguas, traduzidos pelo mundo afora.
De
1970 a 1973 foi candidatíssimo ao Prêmio Nobel da Paz. A ditadura o boicotou. É
bom que todos saibam: àquela época foram convocados os diretores e presidentes
de todas as empresas escandinavas no Brasil – Volvo, Scania Vabis, Ericson,
Facit, Nokia e outras de menor porte – e lhes foi solicitado que interviessem
na Fundação Nobel para evitar a concessão do seu prêmio a Dom Helder Câmara.
Todos lamentaram não poder intervir no caso, ao que o oficial general que
presidia a reunião ameaçou: ‘se os
senhores não intervierem com firmeza e D. Helder chegar a receber o Prêmio
Nobel da Paz, então as suas empresas no Brasil não poderão remeter um centavo
de lucros para as respectivas matrizes’. Tinha falado a mão de ferro do Gal. Médici. E o castigo caiu sobre um
inocente. E assim, aconteceram muitos. Inumeráveis.
A
um repórter - impressionado com o peso das injustiças praticadas contra Dom
Helder e como ele convivia com isso – ele respondeu: “para mim é muito simples compreender e viver esses acontecimentos. Em
tudo isso, procuramos sentir nossa ‘universalidade’ de católicos. Deus é
criador e Pai de todos”. Como eu já disse em Comentário anterior, é muita
matéria para colocar-se em tão pouco espaço. Dom Helder, por si só, é uma
Enciclopédia. Vou terminar, falando, resumidamente, do seu processo de Canonização.
Aos
27/08/2021 – após 22 anos de sua morte e de estudos e pesquisas a respeito de
sua vida e sua missão aqui na terra – houve uma Concelebração festiva na Igreja
da Sé, em Olinda, tendo à frente, representantes da Hierarquia Eclesiástica pra
apresentá-lo como Servo de Deus
e Venerável mediante vasta
Documentação. Toda ela seria guardada em cofre de segurança, conduzida por
representante do Vaticano até o Dicastério
para a causa dos Santos onde serão dados, os passos finais de estudos,
provas científicas e milagres que levem à declaração de santidade ou à
Canonização para toda a Igreja. É nesta fase que se encontra o processo de D.
Helder. Já podemos invocá-lo, pedir que interceda a Deus, por nós e, quem sabe,
até servir-lhe de prova de santidade. Certamente, o Deus em quem D. Helder sempre
confiou, o quer + perto dEle.


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