sábado, 23 de agosto de 2025

O COMENTÁRIO DA SEMANA

 

“Padre e egoísmo nunca podem andar juntos”.

Desde a 2ª quinzena do Mês de Julho e nessas 04 semanas deste Mês de Agosto, tenho dedicado meus ‘Comentários’ a responder perguntas, que me são formuladas por um assíduo leitor, pessoalmente, ainda meu desconhecido.

            Pelo meu costume antigo de - em Programas de Rádio, ao vivo - colocar o telefone à disposição dos ouvintes para perguntarem o que quisessem, aceitei que o Dr. Mariano de Freitas – 450 km distante de mim – colocasse sua pergunta e eu iria tentar responder, mesmo sem a resposta instantânea.  Com as dificuldades na comunicação, até agora está dando certo, além de curioso.

             Faz 15 dias, ao encerrar meu Comentário do dia 09, eu dizia que, alguns políticos citavam um princípio “Joanino” - isto é, do capítulo 8, versículo 32, do 4º evangelho - só da boca pra fora: “conhecereis a verdade e ela vos libertará”. E acrescentava: ‘podemos voltar a este tema’?

            No sábado passado, eu encerrei com mais uma advertência: “é claro que a Igreja é composta de homens, como as demais instituições. Têm todos eles um fio condutor, uma busca de unidade, um desejo de governar e de ser governado, respeitando as hierarquias, com revisões sistemáticas das ações, vendo, julgando e agindo”? Com isto eu questionava a diferença dos poderes.   no mos voltar a este temaerdadem, aceitei

             Lá no início desta nova fase de Comentários – no dia 26 de julho - ao aceitar a provocação do meu novo interlocutor, eu citei, rapidamente, o jovem Pe. Helder Câmara (1936); pouco depois foi convidado a ser o Secretário da Arquidiocese do Rio de Janeiro, até 1952, quando se tornou seu bispo auxiliar.  Padre Conciliar do Vaticano II (1962 a 1965), fundador da CNBB (1963), Arcebispo de Olinda e Recife (1964) e, daí em diante, peregrino pelo mundo, pelo menos, duas vezes por ano, em consonância com o Papa, para divulgar, a convite, o resultado do Concílio Ecumênico de Comunhão e Participação. É sobre este Monstro Sagrado, que quero discorrer agora, como um dos vários exemplos concretos da Igreja Católica, tão criticado por falsos patriotas.

            Nasceu em Fortaleza – CE, aos 07 de fevereiro de 1909 e morreu em Recife – PE, aos 27 de Agosto de 1999, com mais de 90 anos, bem vividos, de consagração e dedicação ao bem, à verdade e ao combate por uma sociedade justa, solidária e de amor, preferencialmente, pelos pobres.

            Teve uma vida normal de criança católica comum: batizado, crismado, 1ª Eucaristia e já demonstrava interesse em entrar no Seminário Menor de Fortaleza. Nessa ocasião, seu pai, Sr. João Câmara, guarda-livros de firmas comerciais e meio sem religião, disse-lhe uma frase que ele guardou pra toda a vida: “meu filho, você sabe o que é ser padre? Padre e egoísmo nunca podem andar juntos. O padre tem que se gastar; deixar-se devorar”

            Sem esquecer esta máxima, o seminarista, o Padre, o secretário e bispo auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro, o Arcebispo de Olinda e Recife, o Padre Conciliar do Vaticano II, o líder do Movimento Operário, do departamento de Educação, da Teologia da Libertação, das Comunidades Eclesiais de Base, da divulgação Conciliar da Comunhão e Participação, das Conferencias Episcopais, Conselhos e Comissões, dentro e fora do Brasil, de tal maneira que, não havia uma necessidade ou solicitação da Santa Sé que o procurasse, pedindo-lhe a colaboração, que ele não se lembrasse da advertência do seu pai: “meu filho, Padre e egoísmo nunca podem andar juntos. O Padre tem que se gastar; deixar-se devorar”. Falo, por conhecimento de causa. Convivi, muito de perto, com ele e o tenho como uma das grandes referencias da Igreja. Não me canso de falar sobre Dom Helder e quero aproveitar mais esta chance.

            Durante meus 05 anos, em Roma, entre idas e vindas (1972-1982) tinha encontros com ele na Itália ou em países vizinhos, por ocasião de suas visitas.

            Certa vez, em Milão, com Dom Helder, participei de uma caminhada com 500 mil jovens, onde ele desenvolveu o tema: “todo homem é o meu irmão”. A Juventude o aplaudiu, delirantemente. Nem preciso dizer da minha felicidade.

            Em outra ocasião, em Atenas, Capital da Grécia, berço da democracia, fui ver Dom Helder, debatendo com outros pensadores, políticos, estadistas e intelectuais sobre o tema: “há possibilidade de democracia hoje”? Lá estava ele dando sua mensagem e colaboração ao mundo “sem fronteiras”, mais unido e mais saudável onde todos pudéssemos viver como irmãos.

            Quantas vezes eu o ouvi e vi, em redes de televisão europeia – algumas entrevistas, marcadas por mim – ou se pronunciando em auditório lotado, como em Castelamare di Stabia, perto de Napoli, com voz forte, corajosa, opondo-se a “ditaduras de esquerda ou de direita, como nos hediondos tempos de Stalin e de Hitler” nem sempre com o assentimento de todos.

            Em seu pastoreio em Olinda e Recife deu vida nova àquela Igreja local, aproximando-se da vida do povo. Viajava, constantemente, ao exterior fazendo palestras em todos os continentes. Recebeu 32 títulos de Doctor Honoris Causa, mais de 54 prêmios e honrarias. Fez parte de mais 32 organizações nacionais e internacionais. Deixou muitos livros, originalmente, escritos em português ou em outras línguas, traduzidos pelo mundo afora.

            De 1970 a 1973 foi candidatíssimo ao Prêmio Nobel da Paz. A ditadura o boicotou. É bom que todos saibam: àquela época foram convocados os diretores e presidentes de todas as empresas escandinavas no Brasil – Volvo, Scania Vabis, Ericson, Facit, Nokia e outras de menor porte – e lhes foi solicitado que interviessem na Fundação Nobel para evitar a concessão do seu prêmio a Dom Helder Câmara. Todos lamentaram não poder intervir no caso, ao que o oficial general que presidia a reunião ameaçou: ‘se os senhores não intervierem com firmeza e D. Helder chegar a receber o Prêmio Nobel da Paz, então as suas empresas no Brasil não poderão remeter um centavo de lucros para as respectivas matrizes’. Tinha falado a mão de ferro do Gal. Médici. E o castigo caiu sobre um inocente. E assim, aconteceram muitos. Inumeráveis.

            A um repórter - impressionado com o peso das injustiças praticadas contra Dom Helder e como ele convivia com isso – ele respondeu: “para mim é muito simples compreender e viver esses acontecimentos. Em tudo isso, procuramos sentir nossa ‘universalidade’ de católicos. Deus é criador e Pai de todos”. Como eu já disse em Comentário anterior, é muita matéria para colocar-se em tão pouco espaço. Dom Helder, por si só, é uma Enciclopédia. Vou terminar, falando, resumidamente, do seu processo de Canonização

            Aos 27/08/2021 – após 22 anos de sua morte e de estudos e pesquisas a respeito de sua vida e sua missão aqui na terra – houve uma Concelebração festiva na Igreja da Sé, em Olinda, tendo à frente, representantes da Hierarquia Eclesiástica pra apresentá-lo como Servo de Deus e Venerável mediante vasta Documentação. Toda ela seria guardada em cofre de segurança, conduzida por representante do Vaticano até o Dicastério para a causa dos Santos onde serão dados, os passos finais de estudos, provas científicas e milagres que levem à declaração de santidade ou à Canonização para toda a Igreja. É nesta fase que se encontra o processo de D. Helder. Já podemos invocá-lo, pedir que interceda a Deus, por nós e, quem sabe, até servir-lhe de prova de santidade. Certamente, o Deus em quem D. Helder sempre confiou, o quer + perto dEle.

BORDADOS PEDAGÓGICGOS DA PROFESSORA NAZARÉ ANTERO







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