A IGREJA SOFREU COM OS DESGOVERNOS DA DITADURA
Meu interlocutor, Dr. Mariano, à distância,
que me “está perguntando para que eu vá respondendo” – não ao vivo, como eu
fazia outrora pelo Rádio, mas, 450 km nos separando - ao me perguntar sobre a
relação de Getúlio com a Ação Católica, acrescentava sua mesma curiosidade,
relacionada a João Goulart. Vou tentar responder, embora vendo entre os 02 ex-presidentes,
mais dois que ficaram de lado: Juscelino Kubistchek e Jânio Quadros; aquele, sobretudo
pela verdadeira parceria com a Igreja Católica do Brasil, em gratidão a ela. O
colega, Prof. Leunam discorrerá melhor do que eu, ao falar do M.E.B.
O meu
‘comentário da semana’ passada encerrava com as palavras: até breve. Voltarei.
Jango vem aí.
Mas, antes de
Jango chegar, o reboliço foi muito grande. Antes de tudo porque, devido à
pressa de Juscelino, de fazer o Brasil “crescer cinquenta anos em cinco”,
desgastara-se muito com dívidas exorbitantes ao construir Brasília em seu
mandato e ao comprar um histórico prédio na Praça Navona, em Roma para ser a
Embaixada Brasileira, incluindo uma contígua Igreja. Tudo muito caro. É uma
área tão importante que, ainda hoje é aberta ao público pra visitas.
Antes mesmo de
Juscelino ser presidente, Jânio Quadros já alimentava sua vocação política,
sendo, seguidamente, vereador, prefeito e governador de São Paulo, Deputado
Federal pelo Paraná e, em sete anos, já disputava a Presidência da República.
Durante seu mandato de Deputado Paranaense
nunca
compareceu ao Congresso, pois viajou, o tempo todo, com sua família, envolvido
em polêmicas à sua imagem, pois visitara alguns países comunistas, parceiros da
guerra fria. Além da China de Mao Tsé-Tung, a Cuba de Fidel Castro e Chê
Guevara, a Rússia do astronauta Yuri Gagarin e outros.
Para Jânio,
esses gestos não representavam apoio explícito ao comunismo, mas simbolizavam,
para o grande público, sua política externa independente, o que muito
desagradava a seus aliados da U.D.N. e a militares e demais políticos
conservadores. Ele não tinha base de apoio político.
Jânio só voltou ao Brasil, quando Juscelino estava em fim de mandato e tinha feito inúmeros gastos e deixado débitos com a construção de Brasília e com a compra caríssima do local Histórico da embaixada brasileira em Roma.
Ele aproveitou
bem, a oportunidade, para empreender a campanha em seu favor e ser eleito. De
fato, aos 03 de outubro de 1960, com o apoio da U.D.N., um partido conservador
e outros pequenos partidos, ao som de um ‘jingle publicitário’ em todo o
Brasil, o homem da vassoura, cantou de norte a sul: “varre, varre, vassourinha”
e derrotou o candidato, apoiado pelo partido comunista, Marechal Teixeira Lott,
nas urnas. Que coisa mais contraditória!...
Enquanto Jânio
assustava pelas visitas feitas a países comunistas e que certamente seria
votado por comunistas, foi eleito pelos votos da direita, e um Marechal, que
poderia ser votado pela direita, foi o candidato dos comunistas, e foi o grande
perdedor. Não deu certo, a estratégia. Jânio e seu Vice, Jango,
foram eleitos.
Com 07 meses Jânio renuncia e após certo malabarismo político, Jango assume seu
mandato como presidente. Vou falar sobre ele, agora. A meu ver, Jânio e Mal.
Lott se maquiaram de comunistas, sendo fascistas os 02.
João Goulart não precisou maquiar-se. Ele era autêntico socialista. Não precisou travestir-se, tanto que aceitou ser Vice de Jânio, admitindo que sua roupagem de viajante por países e em contato com esquerdistas era autêntico. Jango precisou buscar apoio de setores tradicionais do Catolicismo e já se foi conduzindo para o regime presidencialista, sem radicalizações sociais.
A.C. já muito
ativa, da convocação do Papa João XXIII pro Concílio Vaticano II, das
Encíclicas Sociais do Papa João e de Paulo VI, já estavam fermentando movimentos
de renovação católica e de diálogo ecumênico.
O surgimento do
Concílio e sua realização durante 03 anos, reunindo mais de dois mil bispos,
cardeais e peritos-teólogos do mundo trouxe um novo espírito no seio do
catolicismo, marcado por um movimento de renovação litúrgica e da difusão do
ecumenismo, além da renovação da consciência do ser católico, com uma forte
preocupação social.
O Concílio
afirmou, fomentou uma maior sensibilidade para as diversidades culturais e para
os problemas sociais do mundo, além de uma nova maneira de pensar a fé em uma
sociedade modernizada e uma relação renovada entre o catolicismo e a sociedade
na qual a Igreja estava atuando.
Nessa Igreja
conciliar não havia lugar para “forças ocultas”, para antidemocracia, para um
Papa conservador. Tinha que ser um Papa carismático e renovador que inaugurasse
um novo jeito de ser Papa, mais próximo da realidade, sem intransigência e sem
dogmatismos. Por isso, o catolicismo estava entrando em uma época mais arejada,
enquanto o Brasil estava perto de entrar na época de chumbo da ditadura;
chegávamos ao golpe militar: 1964.
Jango havia
assumido o governo, depois da renúncia de Jânio, naquele clima de Igreja em
renovação. Apesar de alguns bispos e de parte do clero, conservadores, ainda no
Concílio e após o Concílio apareceram: a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos
do Brasil), o CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano), a CLAR (Confederação
Latino-Americana e Caribenha de Religiosos), além de movimentos católicos
leigos que se dividiam entre o apoio aos movimentos sociais do campo, da Igreja
popular e das campanhas de alfabetização, apoiados pelo novo presidente, Jango,
embora desapoiados por católicos e políticos conservadores. Aí o golpe foi mais
mortal. A ditadura arrebentou por 21 longos e dolorosos anos. Foi uma
“democradura”.
Aliás, a
Democracia Brasileira, antes do Grito do Ipiranga, depois do Grito e até hoje,
foi sempre entrecortada por fatos antidemocráticos em toda a sua história: na
inconfidência mineira, na conjuração baiana, na revolução pernambucana, na
crise do sistema colonial, no grito da independência, na
proclamação da
república e na sequência de regimes de exceção: de Getúlio e seu suicídio, bem
como na candidatura, eleição e renúncia de Jânio, no governo de Jango que levou
ao golpe militar... Tudo foi fragilizando o Governo Brasileiro, que vai
capengando até hoje, maquiando a Democracia.
Quem sofreu
consequências de tudo isto e esteve presente em todos os momentos – mais
difíceis, no início e encontrando saídas pelas suas atividades pastorais - foi
a Igreja, com sua criatividade, ficando do lado do povo, com sua Doutrina
Social, suas Encíclicas, sempre buscando o bem comum, com sua
Ação Católica
especializada, com o seu ecumenismo, sempre baseada no conteúdo da Palavra de
Deus que diz: “a verdade vos libertará” (Jo. 8,32). Ela não deixou de ser
afetada pelos “desgovernos” que se seguiam e por suas ideologias conservadoras.
Mas ela seguiu em frente Maus políticos têm-se
apresentado
como “verdadeiros”, ao usarem o princípio “Joanino”, mas o usam da boca pra
fora. Aprendamos com a Igreja. Podemos voltar a este tema?


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