sábado, 9 de agosto de 2025

O COMENTÁRIO DA SEMANA

 

 A IGREJA SOFREU COM OS DESGOVERNOS DA DITADURA

Meu interlocutor, Dr. Mariano, à distância, que me “está perguntando para que eu vá respondendo” – não ao vivo, como eu fazia outrora pelo Rádio, mas, 450 km nos separando - ao me perguntar sobre a relação de Getúlio com a Ação Católica, acrescentava sua mesma curiosidade, relacionada a João Goulart. Vou tentar responder, embora vendo entre os 02 ex-presidentes, mais dois que ficaram de lado: Juscelino Kubistchek e Jânio Quadros; aquele, sobretudo pela verdadeira parceria com a Igreja Católica do Brasil, em gratidão a ela. O colega, Prof. Leunam discorrerá melhor do que eu, ao falar do M.E.B.

 

O meu ‘comentário da semana’ passada encerrava com as palavras: até breve. Voltarei. Jango vem aí.

Mas, antes de Jango chegar, o reboliço foi muito grande. Antes de tudo porque, devido à pressa de Juscelino, de fazer o Brasil “crescer cinquenta anos em cinco”, desgastara-se muito com dívidas exorbitantes ao construir Brasília em seu mandato e ao comprar um histórico prédio na Praça Navona, em Roma para ser a Embaixada Brasileira, incluindo uma contígua Igreja. Tudo muito caro. É uma área tão importante que, ainda hoje é aberta ao público pra visitas.

Antes mesmo de Juscelino ser presidente, Jânio Quadros já alimentava sua vocação política, sendo, seguidamente, vereador, prefeito e governador de São Paulo, Deputado Federal pelo Paraná e, em sete anos, já disputava a Presidência da República. Durante seu mandato de Deputado Paranaense

nunca compareceu ao Congresso, pois viajou, o tempo todo, com sua família, envolvido em polêmicas à sua imagem, pois visitara alguns países comunistas, parceiros da guerra fria. Além da China de Mao Tsé-Tung, a Cuba de Fidel Castro e Chê Guevara, a Rússia do astronauta Yuri Gagarin e outros.

Para Jânio, esses gestos não representavam apoio explícito ao comunismo, mas simbolizavam, para o grande público, sua política externa independente, o que muito desagradava a seus aliados da U.D.N. e a militares e demais políticos conservadores. Ele não tinha base de apoio político.

Jânio só voltou ao Brasil, quando Juscelino estava em fim de mandato e tinha feito inúmeros gastos e deixado débitos com a construção de Brasília e com a compra caríssima do local Histórico da embaixada brasileira em Roma.

Ele aproveitou bem, a oportunidade, para empreender a campanha em seu favor e ser eleito. De fato, aos 03 de outubro de 1960, com o apoio da U.D.N., um partido conservador e outros pequenos partidos, ao som de um ‘jingle publicitário’ em todo o Brasil, o homem da vassoura, cantou de norte a sul: “varre, varre, vassourinha” e derrotou o candidato, apoiado pelo partido comunista, Marechal Teixeira Lott, nas urnas. Que coisa mais contraditória!...

Enquanto Jânio assustava pelas visitas feitas a países comunistas e que certamente seria votado por comunistas, foi eleito pelos votos da direita, e um Marechal, que poderia ser votado pela direita, foi o candidato dos comunistas, e foi o grande perdedor. Não deu certo, a estratégia. Jânio e seu Vice, Jango,

foram eleitos. Com 07 meses Jânio renuncia e após certo malabarismo político, Jango assume seu mandato como presidente. Vou falar sobre ele, agora. A meu ver, Jânio e Mal. Lott se maquiaram de comunistas, sendo fascistas os 02.

João Goulart não precisou maquiar-se. Ele era autêntico socialista. Não precisou travestir-se, tanto que aceitou ser Vice de Jânio, admitindo que sua roupagem de viajante por países e em contato com esquerdistas era autêntico. Jango precisou buscar apoio de setores tradicionais do Catolicismo e já se foi conduzindo para o regime presidencialista, sem radicalizações sociais.

 O susto que a renúncia de Jânio causou em 07 meses de seu governo, alegando “forças ocultas” fez o novo presidente ser mais precavido e procurar livrar-se das tais “forças ocultas” que poderiam continuar em curso. Os anos 60 estavam a todo vapor na Missão da Igreja. Além de sua Doutrina Social, da

A.C. já muito ativa, da convocação do Papa João XXIII pro Concílio Vaticano II, das Encíclicas Sociais do Papa João e de Paulo VI, já estavam fermentando movimentos de renovação católica e de diálogo ecumênico.

O surgimento do Concílio e sua realização durante 03 anos, reunindo mais de dois mil bispos, cardeais e peritos-teólogos do mundo trouxe um novo espírito no seio do catolicismo, marcado por um movimento de renovação litúrgica e da difusão do ecumenismo, além da renovação da consciência do ser católico, com uma forte preocupação social.

O Concílio afirmou, fomentou uma maior sensibilidade para as diversidades culturais e para os problemas sociais do mundo, além de uma nova maneira de pensar a fé em uma sociedade modernizada e uma relação renovada entre o catolicismo e a sociedade na qual a Igreja estava atuando.

Nessa Igreja conciliar não havia lugar para “forças ocultas”, para antidemocracia, para um Papa conservador. Tinha que ser um Papa carismático e renovador que inaugurasse um novo jeito de ser Papa, mais próximo da realidade, sem intransigência e sem dogmatismos. Por isso, o catolicismo estava entrando em uma época mais arejada, enquanto o Brasil estava perto de entrar na época de chumbo da ditadura; chegávamos ao golpe militar: 1964.

Jango havia assumido o governo, depois da renúncia de Jânio, naquele clima de Igreja em renovação. Apesar de alguns bispos e de parte do clero, conservadores, ainda no Concílio e após o Concílio apareceram: a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), o CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano), a CLAR (Confederação Latino-Americana e Caribenha de Religiosos), além de movimentos católicos leigos que se dividiam entre o apoio aos movimentos sociais do campo, da Igreja popular e das campanhas de alfabetização, apoiados pelo novo presidente, Jango, embora desapoiados por católicos e políticos conservadores. Aí o golpe foi mais mortal. A ditadura arrebentou por 21 longos e dolorosos anos. Foi uma “democradura”.

Aliás, a Democracia Brasileira, antes do Grito do Ipiranga, depois do Grito e até hoje, foi sempre entrecortada por fatos antidemocráticos em toda a sua história: na inconfidência mineira, na conjuração baiana, na revolução pernambucana, na crise do sistema colonial, no grito da independência, na

proclamação da república e na sequência de regimes de exceção: de Getúlio e seu suicídio, bem como na candidatura, eleição e renúncia de Jânio, no governo de Jango que levou ao golpe militar... Tudo foi fragilizando o Governo Brasileiro, que vai capengando até hoje, maquiando a Democracia.

Quem sofreu consequências de tudo isto e esteve presente em todos os momentos – mais difíceis, no início e encontrando saídas pelas suas atividades pastorais - foi a Igreja, com sua criatividade, ficando do lado do povo, com sua Doutrina Social, suas Encíclicas, sempre buscando o bem comum, com sua

Ação Católica especializada, com o seu ecumenismo, sempre baseada no conteúdo da Palavra de Deus que diz: “a verdade vos libertará” (Jo. 8,32). Ela não deixou de ser afetada pelos “desgovernos” que se seguiam e por suas ideologias conservadoras. Mas ela seguiu em frente Maus políticos têm-se

apresentado como “verdadeiros”, ao usarem o princípio “Joanino”, mas o usam da boca pra fora. Aprendamos com a Igreja. Podemos voltar a este tema?

BORDADOS PEDAGÓGICOS DA PROFª NAZARÉ ANTERO







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