CONHECENDO MELHOR O NOSSO CARO MONSENHOR ASSIS ROCHA
Na
comemoração dos 50 anos de sacerdócio do Mons. Assis Rocha, o Jornal CORREIO DA
SEMANA, da Diocese de Sobral fez esta entrevista com ele e que estamos
reproduzindo, nesta edição, para que os nossos leitores conheçam, um pouco
melhor, este sacerdote que, semanalmente, escreve O COMENTÁRIO DA SEMANA
JORNAL CORREIO DA SEMANA
- Como surgiu sua “vocação”?
MONS. ASSIS ROCHA: “como
todos os chamados: de Deus”. E acrescentou: “não foi assim com Jeremias,
Isaías, Amós... Pedro, André, João, Tiago... Paulo, Agostinho, Francisco,
Vicente e tantos outros? Nós até cantamos: antes que te formasses dentro do
ventre de tua mãe/ Antes que tu nascesses, te conhecia, te consagrei/ Para ser
meu profeta entre as nações Eu te escolhi/ onde te envio irás, o que te mando
proclamarás”.
No meu caso não foi diferente.
Como nos demais, Deus se utilizou de alguma situação. Ele preparou o ambiente.
Deu o seu laço. Criou a ocasião. Eu nasci nas matas da Santa Maria; nas brenhas
do Bom Sucesso. Meu pai, como o pai de Amós, era vaqueiro e agricultor braçal.
Minha mãe, doméstica, simples, sem nenhuma alternativa que os impedisse de
gerar muitos filhos. Chegamos a 18, acrescidos de mais 03, de um 2º casamento.
Que coisa bonita! Como Deus não se agradar de uma família dessas, generosa,
cristã, para lhe pedir que um filho se tornasse Padre?
A sede da Paróquia era Acaraú.
Toda a região da praia e adjacências era coberta, pastoralmente, pelo Padre
Sabino Feijão desde 1932. Tudo era muito distante e de dificílimo acesso. O
Padre cavalgava por toda parte, trocando o animal cansado por outro que já
estivesse esperando em algum lugar para continuar a desobriga. No final de
1939, início de 1940, o Pároco convidou uma equipe de missionários franciscanos
– como já havia acontecido, anteriormente - para visitar as principais
comunidades paroquiais. Para cá vieram: Frei Serafim, Frei Gregório e Frei
Romualdo, todos alemães, que já atuavam na Província Santo Antônio do
Brasil, sedeada em Recife. Em junho de 1940 haviam terminado as Missões na
grande Paróquia de Acaraú e se dirigiam, sempre a cavalo, para a Paróquia de
Camocim, na continuidade do litoral cearense. No roteiro da viagem, por
recomendação do Padre Sabino, os Frades pararam lá em casa para um rápido
pouso, descansarem um pouco, se alimentarem e, é claro, descansar e alimentar
os cavalos. Meus pais acolheram os Frades, com o maior prazer, além da alegria
de atender ao pedido do Vigário, a quem ele sempre dava pousada.
Alimentados, descansados, na hora
da despedida e do agradecimento para retomarem o longo caminho até Camocim, um
deles – o Frei Serafim – diante da minha mãe, no 5º mês de grávida, disse,
tocando em sua barriga: “vai ser um menino. Vai-se chamar Francisco de Assis e
vai ser um Padre Franciscano”. Para meus pais: católicos, respeitadores da
Palavra de Deus, diante de 03 Religiosos, vestidos com o hábito franciscano,
era o próprio Deus quem falava. Era um “chamado” irrecusável. Quatro meses
depois, eu apareço: um menino. Nome do batismo, é claro: Francisco de Assis.
Onde se realizou? Na Capela mais antiga da área, por isso mesmo, chamada de
Matriz: no Carrasco. E quem celebrou? O Padre Sabino, conhecedor de toda essa
história; continuou amigo de minha casa. Não chegou a me ver Padre, pois morreu
em 1965; mas a 3ª profecia se realizou no dia 04 de agosto de 1968.
Tive a felicidade de encontrar o Frei
Serafim, em Mettingen – Alemanha e recordar todos esses momentos com ele.
Morreu em 2015 com 102 anos. Como a pergunta inicial foi só “como surgiu minha
vocação” e eu digo que isso é coisa de Deus, está aí a prova. Entre essas 03
previsões e os 50 anos que estou celebrando, “muita água passou debaixo da
ponte”. É outra longa, difícil, bela, acidentada de altos e baixos, mas
agradável História.
JORNAL CORREIO DA SEMANA – Como foi sua
Infância Mons. Assis Rocha?
Meu pai administrava um
latifúndio, bastante produtivo, de um tio, irmão do seu pai, Senhor José
Batista da Rocha, que morava em Fortaleza. Muito gado (leite e derivados),
cavalos, animais de pequeno porte, agricultura variada na produção de cera de
carnaúba, farinha, caju, milho, feijão, espalhados por toda a extensão da
terra, em fazendas e sítios diferentes, utilizados de acordo com a variação
climática, para onde houvesse água, forragem e melhor sustentação para a
família e para os animais. Havia muitos moradores, vaqueiros, fixos por toda
parte, que trabalhavam e tornavam as terras produtivas, garantindo a
subsistência própria e a de suas famílias, enquanto meus pais nos conduziam, em
comboios de animais com cargas, para os mais diversos lugares de acordo com a
necessidade e o uso da terra naquela ocasião. Éramos nômades, sem paradeiro
fixo, sem compromisso escolar, viajando pra lá e pra cá, sem muitos objetivos
futuros.
Meu avô, Francisco das Chagas
Rocha, era Professor Municipal de Acaraú, lotado aonde a Secretaria de Educação
destinasse, sempre nas proximidades da sede. Nas férias escolares, ele vinha
pra nossa casa, ficar com o filho, visitar os netos, descansar das atividades e
dar aulas para nós. Era quando tínhamos algum contato com a tabuada, com a
escrita do próprio nome e de outras palavras e já chegava o fim das férias do
vovô. Ele tinha que voltar às suas atividades e nós ficávamos aguardando a
próxima temporada. Ainda bem que nossa mãe nos ensinava a rezar em família e
quando o Padre ia à Capela do Carrasco (do lado de Acaraú e, mais tarde, Bela
Cruz), ou da Serrota (do lado de Uruoca, Martinópolis ou Senador Sá), a gente
ia a cavalo. Morávamos, mais ou menos 20 kms. equidistante das duas Capelas,
para um lado ou para o outro. Era um passeio maravilhoso.
Já éramos 11 filhos, a família
aumentando, sem estradas para nos transportarmos, dependentes só da tração
animal, sem estudo. Só a nossa irmã mais velha, a Nair, estudava em Acaraú,
morando na casa da tia Zilma, irmã do papai, que também tinha uma grande
família. Coitada, morreu muito nova e minha irmã voltou para casa. Em meio a
tantas dificuldades, só havia um jeito: era sair das matas. Bela Cruz, ainda
Distrito de Acaraú, tinha-se tornado Paróquia em 1941. O novo Pároco – Pe.
Odécio Loyola Sampaio - informado pelo Padre Sabino, tomou conhecimento dos
homens de bem da nova Paróquia: sede e interior e se aproximou de minha
família, mesmo morando na zona rural, mas era um testemunho concreto de vida
cristã e de bom exemplo. Tornaram-se amigos: meus pais e o novo pároco. Seis
anos depois, em 1947, o Padre Odécio, que passava tanto lá por casa, motivou
meus pais a se mudarem para a Vila de Bela Cruz, dada a possibilidade que os
filhos teriam de estudar e saírem daquela situação. O próprio Padre arranjou
logo uma casa grande, com quintal espaçoso para meu pai botar uma vacaria e
vender produtos do leite e garantir a sustentação e a escola dos filhos. Em
julho de 1947, transferimo-nos todos para a Vila. Já entramos na escola no 2º
semestre (no Instituto Imaculada Conceição), no catecismo paroquial (centro
catequético Pio XII), na Cruzadinha Eucarística, no grupo dos “acólitos” (hoje
“coroinhas”) e a vida foi mudando para nós. Não, para o meu pai. Ficava indo e
voltando, a cavalo, toda semana – 80 kms. ida e volta - cuidando dos bens do
tio, e mantendo a família à distância, sob o comando da mamãe.
Brincávamos no areal debaixo das
mangueiras da Praça da Matriz, corríamos pelas ruas “tangendo” rodas de aros de
bicicleta com pequena forquilha de madeira, andávamos de “cavalo de talo”,
conduzíamos colegas e éramos conduzidos por eles em pequenos carros puxados à
corda pela mão, jogávamos de bila, as meninas “brincavam de roda”, cantarolando
e dançando nas noites de luar, andávamos montados em carneiros nos arredores de
Bela Cruz, como nosso esporte predileto, enfim, éramos felizes e nem sabíamos.
Era tudo muito bom. Na escola paroquial, tínhamos a seriedade, a dureza, a
disciplina e até a “palmatória” de Dona Cecy Regino Holanda, Dona Perpétua
Carvalho, Dona Rosalba Vasconcelos, acobertadas pela rigidez, o pulso forte do
Padre Odécio e sua orientação espiritual, humana e intelectual para o resto da
vida. Foi ele quem me fez levar à prática a “profecia de Frei Serafim”: pôs-me
no Seminário, em Sobral. Se não fosse para atender a um “chamado”, isto é, por
uma “vocação especial”, rumo ao desconhecido, saltando no escuro, não se teria
nenhuma explicação para tamanha violência ou agressão: uma criança, com apenas
11 anos de idade, deixar pai e mãe, vários irmãos e sair de casa. Foi o que me
aconteceu: deixei o convívio de minha família de sangue, para conviver com
“irmãos” das mais variadas origens, embora com objetivos semelhantes. Com
estes, permanecíamos mais tempo, durante o ano, do que com os irmãos de sangue
que deixávamos em casa. E assim a minha infância ficou dividida entre o “antes”
e o “depois” do Seminário. Vieram os estudos, a adolescência, o crescimento
espiritual e intelectual, as dificuldades para lidar com as principais virtudes
sacerdotais da obediência, castidade, humildade, pobreza, oração, respeito às
diferenças, convivência fraterna e comunitária e com toda a formação que era
dada, tendo em vista a missão e o compromisso com a estrutura da Igreja mais
tarde.
JORNAL CORREIO DA SEMANA: Quando lhe chegou
mesmo a Hora da decisão?
Em 1955, com 15 anos de idade,
adolescente, impressiona-me muito no Jubileu Áureo Sacerdotal de D. José
Tupinambá, em Sobral, a reflexão feita no Congresso Eucarístico e Sacerdotal
sobre a Vocação de São João Maria Vianney, o Cura d’Ars, que completava 30 anos
de sua canonização. A partir dali eu me decidi: “se eu for Padre, quero me
ordenar no dia da festa litúrgica de São João Maria Vianney”. E assim o
fiz. Tornei-me Sacerdote no dia 04 de agosto de 1968, pelas mãos de meu querido
amigo e saudoso Bispo D. Francisco Austregésilo, em Bela Cruz, a minha terra
natal. Para completar minha alegria, entusiasmo e devoção, em 1975, estudando
em Roma, fui a Ars participar do Jubileu de Ouro da Canonização de seu famoso
Cura. Senti-me, plenamente, realizado. Além de integrar uma imensidão de
“peregrinos”, ainda tomei contato com toda a sua história e visitei seu corpo
“incorrupto”, em perfeito estado de conservação, como se vivo fosse.
Certamente, toda essa motivação
bonita, sugerida por Cura d’Ars e alimentada pela graça, bondade e misericórdia
de Deus me fez sustentar o “chamado” e o compromisso sacerdotal até agora.
Obrigado, meu Deus! Ajuda a meus irmãos padres e aos novos vocacionados a
seguirem o caminho e a serem fiéis até o fim. Não é fácil. Só com a graça de
Deus é possível.


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