sábado, 27 de setembro de 2025

O COMENTÁRIO DA SEMANA

 

“A esperança não decepciona” (Mt.5,5)

Desde que nos “encontramos” – Dr. Mariano e eu – demos continuidade a uma ousadia, de minha parte, de responder ao vivo e instantaneamente, pelo Rádio, a todas as perguntas que me eram dirigidas, pelos microfones da Rádio Universitária de Sobral, sempre em cadeia com outras Emissoras locais.

                Além de correr um risco - chamei até de “ousadia” – eu não imaginaria o tipo de pergunta que me fosse feita, quanto às maledicências ou às “cascas de bananas” que me fariam “escorregar”. Mas, topei o novo desafio, enfrentando a distância que nos separa (450 km), o desconhecimento mútuo e o espaço de tempo a ser empreendido, entre o “pergunte e responderemos” ou o “quem pergunta quer saber” vivenciado no tempo das Rádios.

                Disse-lhe, ao longo desses 03-04 meses, que há uma grande diferença entre a postura da Igreja católica que tem dois mil anos de história, com a presença do Espírito Santo, e a postura dos poderes políticos que, aqui entre nós, têm 500 anos, e que nem sempre cuida bem da “res pública”.      

                Nestes últimos dias, falamos sobre as Congregações Vicentinas: leigas e Religiosas, masculinas e femininas, que se estendem pelo mundo de 400 anos para cá, como um dos modelos de esperança e caridade a serem seguidos e que Mateus, 5,5 acrescenta: ‘a esperança não decepciona’.

                Para completar a minha linha de raciocínio, meu ainda desconhecido amigo, Dr. Mariano Freitas, aumenta mais sua curiosidade e aguça a minha: o que há em comum e o que diferencia um do outro, para entender bem o Pe. Teilhard de Chardin e o Pe. Henrique Claudio de Lima Vaz?

                O que eles têm em comum é terem sido ambos: jesuítas, padres, professores universitários e de seminários, filósofos, teólogos e terem vivido, ao mesmo tempo, 34 anos de suas vidas entre 1921 a 1955.

                O Padre Pierre Marie Joseph Teilhard de Chardin nasceu em Orcines, na França em 1º de Maio de 1881 e morreu em Nova Iorque em 10/04/1955.

                O Padre Henrique Claudio de Lima Vaz nasceu em Ouro Preto – MG, Brasil aos 24 de agosto de 1921 e morreu em Belo Horizonte em 23/05/2002.

                Portanto, os 34 últimos anos de vida do Pe. Teilhard Chardin coincidem com os 34 anos iniciais de vida do Pe. Lima Vaz. É nessa reciprocidade de experiências ou nessa ajuda mútua que vamos caminhando, aprendendo e ensinando uns aos outros. Ninguém pode dizer que não precisa de alguém.

                Há também notáveis diferenças entre si: o Pe. Teilhard Chardin nasceu na França e morreu nos EEUU e o Pe. Lima Vaz nasceu e morreu no Brasil. Quanto ao Curriculum Vitae de ambos, além do que já dissemos acima, que os une, o Pe. Teilhard se ocupou ou exerceu funções paleoantropológicas e geológicas, acrescentadas às suas especialidades.

                É claro que estes dois ‘monstros sagrados’ da sabedoria eclesiástica impressionam a qualquer estudioso sócio-político, como é o Dr. Mariano; daí a sua curiosidade e o aguçamento da minha, como me referi ali acima. Ambos foram alvos de direcionamento da Igreja oficial e de cristãos mais conscientes a respeito da missão e das funções por eles exercidas. O mais antigo - Pe. Teilhard Chardin - foi censurado por ilustres membros da Igreja Católica e por ‘biólogos evolutivos’ por causa de seus pontos de vista sobre o pecado original, embora tenha contado com os apoios de proeminentes líderes e teólogos como os Papas João Paulo II e Bento XVI que escreveram, positivamente, a respeito de suas ideias. Também o Papa Francisco se baseou em seus ensinamentos teológicos para escrever a Encíclica “Laudato Si” em 2015.

               Atendendo ao meu interlocutor, à distância, que me pede a citação de uma obra dos dois, começo com o Fenômeno Humano do Pe. Teilhard Chardin em que ele diz, textualmente: “Aparentemente, a Terra Moderna nasceu de um movimento antirreligioso. O Homem bastando-se a si mesmo. A razão substituindo-se à crença. Nossa geração e as duas precedentes quase só ouviram falar de conflito entre Fé e Ciência. A tal ponto que pôde parecer, a certa altura, que esta era, decididamente chamada, a tomar o lugar daquela. Ora, à medida que a tensão se prolonga, é, visivelmente, sob uma forma muito diferente de equilíbrio – não eliminação, nem dualidade, mas síntese – que parece haver de se resolver o conflito”.

            O mais recente – Pe. Henrique Claudio de Lima Vaz – é também possuidor de uma vasta obra filosófica, bem conhecida e divulgada, sobretudo em sua metafísica clássica, permeando o pensamento filosófico moderno, a partir do profundo conhecimento da obra filosófica do alemão Hegel. Este, entre os séculos 18 e 19 ensinava que “a razão e a realidade são inseparáveis. O desenvolvimento histórico se dá através de um processo dialético de oposição e superação, buscando a realização da liberdade e do Espírito absoluto”.

            Influenciado por seu irmão bispo, D. José Carlos de Lima Vaz, entrou na ordem dos Padres Jesuítas, em 1938, cursando a Filosofia em Nova Friburgo-RJ. Em 1945 foi fazer o curso de Teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, de onde voltou laureado, com o doutorado, defendendo a Tese: O problema da beatitude em Aristóteles e Santo Tomás e em 1948, três anos depois, mais um doutorado, na mesma Universidade sobre a dialética e a intuição nos diálogos platônicos da maturidade.

            Com um Curriculum destes, com prática acadêmica dentro e fora do Brasil, convites pra lecionar em toda parte, o que esperar do Dr/Pe. Lima Vaz? Exerceu a plena Missão de Pastor, cuidador do Rebanho de que falou Jesus no Evangelho de João 10,14: Pe. Lima Vaz tornou-se mentor da J.U.C. (Juventude Universitária Católica) e da A.P. (Ação Popular). Ambas ligadas à Igreja Católica e malvistas pela Ditadura Militar que dominava à época. Basta lembrar no atentado que aconteceu no Aeroporto dos Guararapes, em Recife, em 1968, que serviu de pretexto para o governo ditatorial de Costa e Silva decretar o famoso AI-5 e o Padre Lima Vaz escreveu sobre isto, referindo-se ao cenário tão agitado e confuso, à época, que causou impactos políticos e culturais.

            Ele não teve medo de se expor porque se baseava em ensinamentos de filósofos como Platão, Aristóteles, Agostinho, Tomás de Aquino e Hegel cujas metafísica,  profundidade, lucidez e equilíbrio são fundamentais em suas intuições ainda capazes de fecundar suas reflexões. De santo Agostinho ele mantinha sempre um princípio: “crê para entenderes e entende para creres”

Como citei ali acima a obra Fenômeno Humano do Pe. Theilhard de Chardin, cito agora o último livro, Raízes da Modernidade do Pe. Lima Vaz em que ele propõe para o nosso tempo de incertezas e de renovadas articulações, o humanismo teocêntrico como itinerário para a realização plena do ser humano em sua existência pessoal e social. Interessante! Até hoje não me tinha passado pela mente lembrar alguém que foi meu conterrâneo, meu professor no ITER, assistente eclesiástico da J.U.C., assíduo estudioso de toda a obra Teilhardiana e de tudo o que outros autores escreveram sobre ele, era apelidado de “Cur hoc? = Por que isto?” – sempre perguntava em latim quando lia ou ouvia sem entender. - Quem era? - O Pe. Joaquim Diomar Lopes Araújo: nasceu em Bela Cruz: 15/04/1923 e morreu em Recife: 27/06/1982. Não seria uma boa dica para ilustrar mais nossas reflexões?

 












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