11 DE OUTUBRO
PARABÉNS MONS. ASSIS ROCHA
Em vez de me empolgar
hoje com os meus 85 anos de vida – e escrever sobre ela, como me pedem - quero
ainda continuar respondendo a um assíduo leitor, o Dr. Mariano Freitas,
que continua me perguntando sobre a Ação Católica e o trabalho de
conscientização política e social, feito por ela, através dos tempos.
Sem falar, propriamente de mim, quero aprofundar o que já iniciei há 15 dias, sobre outro Padre: Joaquim Diomar de Araújo Lopes, meu conterrâneo, meu professor no SERENE (Seminário Regional do Nordeste), mais tarde, no (ITER) Instituto de Teologia do Recife, chegado de uma temporada em Belém do Pará, onde se tornara sacerdote, formador de Seminário e assistente eclesiástico da J.U.C. (Juventude Universitária Católica).
Como eu, ele nascera no interior do Município de Acaraú: em São João da Tapera, bem antes de mim, em 15/04/1923. Eu só apareci, 17 anos depois, na Fazenda Bom Sucesso, a 11/10/1940, também no interior do Acaraú – CE.
Em 1941 foi criada a Paróquia no
Distrito de Bela Cruz, pertencente ao Município de Acaraú, onde habitávamos: o
“DIOMAR” e Eu, cada um na sua área rural, com certa distância de idade e
geográfica entre nós: eu acabara de nascer e ele já tinha seus 18 anos.
Tínhamos, em comum, o Pároco: de início, o Pe. Sabino de Lima (foi até
quem me batizou e, quem sabe, também ao
Diomar) substituído pelo Pe. Odécio
Loyola Sampaio. Coube ao novo Pároco, o estímulo às “nossas vocações”.
Em 1945, o Diomar já tinha 22 anos e, pela idade, o Seminário não o queria receber. Houve uma insistência de sua parte e um depoimento positivo do Pároco para a sua admissão. Eu entrei no “tempo certo”, com 11 anos e fui seguindo o curriculum escolar normal, até hoje, completando 85 anos.
O Diomar fez o 1º e 2º graus, no Seminário Menor, São José de Sobral, com muito brilhantismo. Seguiu para o Seminário Maior de Fortaleza onde fez toda a Filosofia, iniciou o curso de Teologia, mas, ‘por motivo disciplinar’, como subentende um de seus biógrafos, conseguiu transferência para continuar em Manaus onde foi recebido por Dom Alberto Gaudêncio Ramos, de quem recebeu a ordenação sacerdotal aos 30/10/1955.
Celebrou sua 1ª Missa em Bela Cruz aos 15/12/1955, quando eu tinha meus 15 anos de idade e estava de férias. Participei da Liturgia da Missa, das alegrias dos familiares e amigos e ainda me lembro de presenças importantes de Padres, como o eloquente Pregador, Secretário do Bispado de Sobral, Pe. José Palhano de Saboia, além de outros Padres como o Pároco Odécio Loyola Sampaio, seu antecessor Pe. Sabino de Lima, os Padres Egberto Rodrigues e Osvaldo Chaves, o subprefeito, Mário Louzada e as famosas autoridades civis e militares da sede municipal, pois Bela Cruz ainda não era emancipada. O neossacerdote ainda volta a Manaus para continuar a missão iniciada, acompanhar a Ação Católica entre os Universitários, dedicar-se à Amazônia que, tão bem, o acolheu, fazendo palestras, debates teológicos e filosóficos, enfocando sua visão política e social, até D. Alberto se tornar emérito. Bateu na porta certa em Recife. D. Helder, como fizera D. Alberto, o acolheu.
Reencontramo-nos em meus estudos finais no Seminário Regional do Nordeste (SERENE) em Olinda e no ITER (Instituto de Teologia de Recife) em que ele fez parte de uma equipe docente de peso, que eu sempre recordo com gratidão e saudade e que lembro, muito nitidamente de suas intervenções em debates, certas extravagâncias temperamentais e sua teimosia em convencer-nos daquilo que duvidávamos e ele argumentava até “matar no cansaço”.
Tornei-me Padre em 1968 e não perdemos o contato nem a amizade. Tanto no SERENE como no ITER ele integrou uma excelente equipe de sacerdotes e assessores de 1º nível das várias pastorais da Ação Católica. Na JAC (Juventude Agrária Católica): Padres Paulo Crespo e Servat. Na JEC (Juventude Estudantil Católica): os irmãos Padres Zildo e Zeferino Rocha. Na JIC
(Juventude Independente Católica):
Padres Luís Carlos e Marcelo Carvalheira.
Na JOC (Juventude Operária Católica):
os Padres irmãos Moisés e Bernardo Lindoso, dos quais o Padre Diomar era
muito amigo e até recordava com saudade, a mãe deles: dona Zenóbia. Mais tarde,
um discípulo deles: Padre Ramos, cearense, também compôs o grupo. Na JUC (Juventude
Universitária Católica): Padres Luís Sena, Almeri Bezerra e Diomar Lopes,
com seu saber, mas muito cheio de extravagância ou intervenção ou teimosia ou
até algo temperamental que ele me pareça ter praticado. Faz parte do seu
folclore, sem diminuir-lhe o valor e o bem que ele tenha feito em todo lugar.
Há 15 dias, quando rapidamente me
referi a ele como leitor de toda a “obra Teilhardiana” e de tudo o que
outros autores escreveram sobre ela, ao aparecer alguém, dizendo que estava
querendo lê-la também, mas não tinha como encontrá-la, ele, rapidamente, partia
a obra ao meio, dava a parte que ele já havia lido, ficava com o restante para
acabar de ler e depois lhe dava a parte não lida para concluir a obra toda. Dá
para entender?
Outra atitude: ele lia pelos corredores do seminário, debaixo de árvores, em voz alta e discutindo com o autor: “não é possível”, dizia em voz alta. “Só pode ser um doido, pensando assim”. Terminava irritado e rasgando o livro. Dizia, em voz alta, expressões latinas, francesas ou em outras línguas. Perguntava muito: “Cur hoc”?, “Cur Hoc”? = “Por que isto”? Por que isto?
Por isso mesmo, tinha como apelido
por todos: Cur hoc era como o chamavam.
Certa vez, comprou na Loja um carro Zero Km. Talvez não muito habilitado ou treinado, saiu da loja e logo, bateu o carro, novinho. Indo para casa ou para o trabalho, onde parava, perguntavam: Foi batido? Onde foi? Quem tinha razão? Você vai ficar com o carro amassado? Ele voltou à Loja, também lá, se admiraram pelo carro já estar batido e trocou-o, imediatamente, por outro novo, igual ao primeiro; pagou a diferença entre o novo carro Zero e o carro batido, para deixarem de perguntar e de chateá-lo tanto. Que tal? Foi a este conterrâneo que eu sempre admirei sua inteligência, sua mentalidade, socialmente, aberta, sofreu incompreensões emanadas da ditadura, mas morreu ainda novo: com 59 anos, em Recife. Eu ainda o visitei no Hospital, estive em casa de sua irmã que ficou morando numa vila popular, onde habitavam no bairro do Curado e no próprio hospital em que convalescia, também morreu aos 27 de junho de 1982.
Numa das eleições em que votei, no
bairro do Curado, do grande Recife, visitei a Terezinha, irmã do Pe. Diomar,
que ainda morava lá. À época, escolhi votar lá, porque eu estava trabalhando em
Paratibe, distrito de Abreu e Lima e meu título de eleitor, ainda era de
Recife. Para não mudar de município e como era mais fácil transportar-me de
Metrô para o Curado, transferi-o para lá e isto
facilitou fazer a visita à amiga e
conterrânea. Nunca mais a encontrei. Neste momento em que escrevo estas
recordações, soube, através de um primo dela e do Pe. Diomar, que ela faleceu
há cerca de um ano. O Pe. Diomar que nos deixou, com tão pouca idade,
certamente, a causa do “motivo disciplinar” do seu Biógrafo, explica o mau que
lhe fez a ditadura; e ainda há quem a defenda.TT
Certamente este texto, enriquece mais
a curiosidade de meu nobre interlocutor.

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