sábado, 11 de fevereiro de 2023

O COMENTÁRIO DA SEMANA

 

CNBB: “Aos que ferem e destroem a paz,     que se convertam”!

Meus dois últimos comentários (28/01 e 04/02) trataram sobre a Teologia de Santo Tomás de Aquino (era sua festa litúrgica) e a Teologia da Libertação, com seus diferentes modos de abordagem. Comparamo-las com a “versão” de João do Vale, em Carcará, respectivamente, definindo bem: “glória a Deus, Senhor nas alturas” “e viva eu de amargura na terra do meu Senhor”. Uma visão teórica e a outra, prática.

            Tentei mostrar a Teologia da Libertação com base na Palavra de Deus, no Antigo Testamento e no Novo, embora tenha reconhecido Santo Tomás como “defensor da verdade” e usando a Palavra de Deus como “raiz da sua fé”.

            Apesar de ter afirmado que este assunto é “controverso”, eu gostaria de voltar a ele, mais uma vez, para confirmar o que já disse, recorrendo às fontes já citadas, na esperança de nos entendermos melhor. Afinal, alguns de meus leitores, até que me compreenderam e se manifestaram como esclarecidos.

            Vou usar a própria Palavra de Deus para fundamentar meus estudos, de outrora e continuados na prática, sobretudo porque, é na minha prática que tenho encontrado a incompreensão e a crítica de alguns.

            No Antigo Testamento, em Êxodo 3,7-8, Deus diz a Moisés: “eu ouvi os clamores do meu povo. Eu tenho visto como ele está sendo maltratado no Egito. Tenho ouvido o seu pedido de socorro por causa de seus feitores. Sei o que estão sofrendo. Por isso desci para libertá-los do poder dos egípcios e para levá-los do Egito para uma terra grande e boa”...

            Deus é o mesmo. Ele nos proporciona vida em abundância e alegria plena. Será que todos os seres humanos estão tendo essa vida plena? Como se pode viver com guerras, rumores de guerra, estrondos de bombas, invasões de palácios, quebra-quebra, não aceitação da democracia e da alternância de poderes? Como aceitar que a fome mate tanta gente num dos países que mais produz alimentos no mundo? E o desprezo aos Ianomâmis, está certo?

             O Papa Francisco, na Fratelli Tutti, fala dos conflitos invisíveis que estão em Moçambique, Iêmen, Etiópia, Haiti, Mianmar e outros que vão assumindo contornos d’uma terceira guerra mundial por pedaços. Isto não nos incomoda?

            Não se pode fechar os olhos e ouvidos diante da loucura da corrida armamentista no Brasil. Apesar da mudança de Governo, os perdedores não aceitam a derrota. O número de caçadores, atiradores e colecionadores de armas de fogo (os CACs) aumentou 325% de 2018 a 2021. “O gasto com armas é um escândalo: suja o coração, suja a humanidade”, diz o Papa Francisco, “particularmente, quando alimentado por discursos fundamentalistas inclusive religiosos, que transformam adversários em inimigos e comprometem a fraternidade”.

            Baseados nesta palavra do Papa, o Conselho Permanente da CNBB fez um pronunciamento ao povo brasileiro, afirmando como Francisco, que “a vida é o maior dom. Cuidar, responsavelmente da vida implica, artesanalmente, trabalhar pela paz, a justiça social e o bem comum, sempre no respeito pelas diferenças, valorizando a liberdade religiosa e a verdade, dialogando até a exaustão, pois tudo isso é condição para a verdadeira paz”.

            Os senhores Bispos encerram “unindo-se em favor da paz; não se deixando abater ou frustrar. O bom Deus continuará escutando os clamores do seu povo. Expressamos nossa palavra de esperança: aos sofredores, que não desistam; aos que têm poder de cuidar, defender e promover o bem comum, que não se omitam; e aos que ferem e destroem a paz, que se convertam”.

            Dá para perceber o espaço que ocupa a Teologia da Libertação? Como ser contrário a ela? Não está fundamentada na Palavra de Deus?

            No 4º Domingo do Tempo Comum, celebrado aos 29 de janeiro deste ano, tivemos a grande oportunidade de conhecer todo o Sermão da Montanha, narrado por Mateus - em seus capítulos 5, 6 e 7, quando Jesus deixou as multidões, admiradas - pois lhes ensinara como quem tem autoridade e não como os mestres da lei. Seu conteúdo é pura Teologia da Libertação.

            Logo no início do capítulo 05, vêm os tópicos principais do ensinamento libertador de Jesus: “bem-aventurados (felizes/santos) os pobres em espírito... os aflitos ou os que têm fome e sede de justiça... os misericordiosos... os puros de coração... os promotores da paz... os perseguidos por causa da justiça... os injuriados por causa da mentira (as tão atuais ‘fake news’) todos terão seus nomes inscritos e a recompensa nos céus, isto é, conviverão com Deus. Pra que prêmio maior do que este? Não é o que se pleiteia com a Teologia prática?

            Será que o acolhimento que damos aos pobres, aos injustiçados, aos abandonados ou espoliados não nos torna bem-aventurado, feliz ou santo? Foi a isto que nos levou a Teologia Tomista, ou foi a da Libertação? Na prática, qual nos trouxe o conhecimento de Deus: o das alturas ou o Encarnado?

            Sem dúvida, a colocação feita por Jesus resume o itinerário do discípulo- missionário. Contrapõe-se à lógica do mundo: do poder, do jogo interesseiro, do dinheiro, da busca do lucro fácil, em lançar mão dos bens que pertencem a todos. Jesus nos apresenta o caminho mais difícil, verdadeiramente na contramão do que o mundo ensina.

            Jesus nos mostra o caminho, chamando-nos de bem-aventurados, por aspirarmos a um Reino que é dom, é gratuidade do amor divino por nós. Se é dom, está do lado dos mais injustiçados e sofredores no mundo.

Será que não andamos com os olhos muito abertos para nós mesmos e muito fechados para o Reino? Será que a importância dada por Mateus aos ensinamentos de Jesus, ressaltando o caráter, os deveres, os privilégios e até o destino daqueles que O seguissem, necessariamente, não os conduziriam ao Reino dos Céus?

Quando homens do “poder político” começaram a ser autoritários, a se apresentarem como salvadores da pátria, quase como deuses, na defesa do jargão “Deus, Pátria, Família e Liberdade” como já nos aconteceu na ditadura militar ou no governo Bolsonaro, a Igreja do Brasil teve que entrar no conflito em defesa da hierarquia ou de pessoas que pedissem ajuda para restabelecer a ordem institucional, já que o estado populista que se armara, tinha que restabelecer os princípios democráticos ou “pautar seu governo dentro das 04 linhas”. Que coisa absurda?!

Clamava-se por uma libertação das opressões históricas, que grande parte do povo vinha sofrendo. Tinha-se, de fato, que retornar à Filosofia e à Teologia que liberta e que tem na Palavra de Deus, o conteúdo e o caminho da verdadeira libertação. Não podemos basear nossa reflexão em preconceitos, achando que tudo é comunismo, levando muitas pessoas, até inteligentes e cheias de fé, a se fecharem, totalmente, ao diálogo. A que serve esta fé?

Segundo a carta aos hebreus 1:1ss “a fé é a certeza de que vamos receber as coisas que esperamos e a prova de que existem coisas que não podemos ver”. É assim que você acredita? Quantos dizem: só vou vendo. É fé?











Um comentário:

  1. Momento literário excelente!! Todos os jovens, deveriam conhecer a história emocionante de Anne frank. Além do livro, o seu filme é uma ótima opção.

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