Cada
Paróquia, um mutirão por moradia!
Faz
03 semanas, ao comentar sobre a abertura da semana santa, com o Domingo de
Ramos no dia 29/03, eu dizia que era também o Dia da Coleta da Solidariedade, que nos últimos 62 anos era feita para
externar a Fraternidade dos católicos, como gesto concreto, diante da realidade
exposta na C.F.
Disse
também que não se tratava de “invenção de esquerdista” ou da “Igreja
desmiolando a cabeça do povo”. Era um trabalho muito sério, originado no
Concílio Ecumênico e “legalmente aprovado pelo governo”, pois estava acobertado
pela Lei 11.888/2008, e pela Constituição Federal, inciso XIII, Art. 5º,
respectivamente, sobre a “Assistência Técnica à Habitação de Interesse Social”
e “ao exercício do direito à moradia”
(favor reler Comentário de 21/03).
Enquanto estes comentários eram feitos e a Quaresma ia convidando à ‘conversão’, a CNBB – através de sua Comissão Episcopal para a Ação Sóciotransformadora - aproveitava a Festa de São José, no dia 19 de março, para convidar a todas as Comunidades Católicas para uma iniciativa e gesto concreto da C.F. 2026: “diante da necessidade urgente do povo de Deus, por moradia, lançar um convite a todas as Comunidades Católicas, propagar e viabilizar em ‘cada Paróquia, um mutirão por moradia”, já que, pelo menos, 26 milhões de famílias brasileiras vivem em moradias precárias. Será que isto não é um gesto cristão, ou não é uma das Obras de Misericórdia?
Que
católico sou eu, pra engrossar o caminho errado dos maus cristãos, que acham
esta atitude, coisa de comunista?
Faz
1.702 anos que existe o Tempo da Quaresma, precedendo a Festa da Páscoa,
convidando o povo de Deus, à conversão ou à penitência física, isto é, no
corpo. Faz 62 anos que, no Tempo da Quaresma se celebra a C.F. e se pede uma
conversão na alma, por dentro. Já dissemos isto em Comentários anteriores:
“passada a Quaresma”, a gente vai se converter de novo, no ano próximo. Com o
aparecimento da C.F. a conversão continua; temos que pôr em prática aquilo que
refletimos. É o caso, agora. A C.F. não acabou. Daí, o convite da CNBB: “cada
Paróquia viabilizar um mutirão por moradia”. Se, de fato isso
acontecer, vai ser “um sinal” de mudança geral em todo o país.
As
coletas feitas, em todos esses 62 anos se destinaram a isso. Foi um mal tão
grande pra ser criticado como coisa de
comunista, ou de bem comum?
Eu
mesmo me arrisco a responder: digo sempre que estou com 85 anos de idade, dos
quais, 58 dedicados aos ministérios Diaconal e Presbiteral, em Paróquias, no
magistério, usando os Meios de Comunicação e, 10 anos seguidos, pregando Santas
Missões Populares por vários estados do Nordeste, através da AMMINE (Associação de Missionários e Missionárias
do NordestE ).
Seminarista
ainda – e o Leunam sabe disso –
integrávamos uma equipe de alunos do Seminário de Olinda, para darmos
acompanhamento religioso aos estudantes dos vários Colégios de Olinda e Recife,
sobretudo nesses Tempos de Quaresma, C.F. e Páscoa, promovendo encontros,
debates variados, como um treinamento, um tirocínio que nos preparasse para a
missão futura. Quando terminávamos os estudos, ainda fazíamos um estágio na
Diocese onde iríamos trabalhar pra amadurecer melhor e executar as pastorais
que nos aguardavam.
No
meu caso, por onde andei, e graças a Deus, andei muito, só fiquei 05 anos, em
cada Paróquia, dediquei-me à construção de Salões, Capelas, Casas Paroquiais e
ampliação de Igrejas, tudo em mutirão, mais rapidamente, durante as Santas
Missões Populares, enfim, não exagero em dizer que construímos ou renovamos
mais de 60 obras em nossas Paróquias em mutirão com o povo.
Conseguia
algum suporte financeiro no exterior, para os gastos maiores e o povo fazia o
resto. O que a CNBB está pedindo agora é
o que ela sempre pediu em C.F. anteriores: que ninguém se contente em aguardar
a Confissão, que não converte, e deixe de lado, a Catequese, através de Tema e
Lema da C.F. que é a prática daquilo que só a teoria não dá, senão a Quaresma
estaria resolvendo. As Coletas da Solidariedade, em todos estes anos,
comtemplaram as “realidades” cruciais do povo e encaminharam para soluções concretas.
Os recursos advindos das C.F. foram usados nas mais diversas necessidades.
Para
a deste ano, a CNBB está propondo que “cada
Comunidade Paroquial, baseada já na
Centenária Doutrina Social da Igreja, se organize para reformar ou construir,
ao menos, uma Moradia em seu
território ou nas proximidades da Paróquia”.
Dom Manuel Ferreira dos Santos Júnior,
bispo da Diocese de Registro – SP, responsável pela Pastoral da Moradia e
Favela insiste também para que “cada
Paróquia desperte para a necessidade de colocar em prática a missão do amor ao
próximo e a formar a sua Pastoral da Moradia, envolvendo mais gente na
solidariedade, sobretudo nas necessidades existentes nas periferias de nossas
Paróquias”.
Ali
acima falei nas experiências de “mutirões” feitos, tanto nas Santas Missões
Populares, como em Paróquias ou pequenas comunidades por onde passei. Sempre
escutei dizerem que “Paróquias e
Comunidades Católicas do Brasil não têm condições financeiras de construir moradias ou casas para seus
desabrigados”. Isso não é verdade. Falta experimentar, incentivar o povo e
acreditar em refrão que se cantava tanto na América Latina e até ouvi pela
Europa: “o povo unido, jamais será
vencido”. Enquanto nós que temos fé, não acreditamos nisto, muitos que
dizem não acreditar, cantam tal refrão, em voz alta, publicamente, sem medo.
Não é isto, uma fraqueza de nossa parte?
Temos
que acreditar na força mobilizadora da Igreja, da comunidade, da Paróquia, da
palavra do padre, do bispo e do próprio Papa. Aliás, no dia 14/03 citamos o
apelo de S.S., Leão XIV: “meu desejo é
que, a reflexão sobre a dura realidade da falta de moradia digna, que afeta tantos irmãos nossos, leve não
somente a ações isoladas que venham de modo emergencial em seu auxílio... mas
também que as iniciativas nascidas dessa C.F. (mutirão por ex.) tragam à população mais carente, melhorias
significativas nas condições de habitação”.
Fica
claro que não se trata só de construir moradias,
casas, habitações. Trata-se de desenvolver um processo metodológico de escuta,
de diálogo, de ação comum com os irmãos e irmãs que vivem, que padecem do
problema da falta de Moradia. O mutirão, portanto,
inclui os que estão necessitados e os que, não necessitando, oferecem sua
inteligência, bom senso, desinteresse compensatório, colocando-se a serviço dos
“carentes” na busca das soluções.
Nós
que nos encontramos em nossa “área de conforto” temos que dar um pouco de nós
para ajudar àqueles que ainda não despertaram para a sua realidade. É a
inconsistência dos poderes públicos, a falta de conscientização dos mais
esclarecidos, a exploração política dos “negacionistas”, o catolicismo dos
reacionários, a exploração de políticos que gostam d’um povo escravizado e que
se submete aos favores e esmolas humilhantes a que são submetidos, que os
tornam cada vez mais dependentes e subjugados “sob o casco do boi”.
Sempre
ouvi essa comparação: um homem escravizado a um patrão é como o casco de um
pesado novilho sobre um cururu: “pesa
muito, ele incha, mas não reclama”. Até quando, meu Deus, vamos fazer esta
comparação?

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