sábado, 11 de abril de 2026

O COMENTÁRIO DA SEMANA

 


Cada Paróquia, um mutirão por moradia!

                                             

            Faz 03 semanas, ao comentar sobre a abertura da semana santa, com o Domingo de Ramos no dia 29/03, eu dizia que era também o Dia da Coleta da Solidariedade, que nos últimos 62 anos era feita para externar a Fraternidade dos católicos, como gesto concreto, diante da realidade exposta na C.F.

            Disse também que não se tratava de “invenção de esquerdista” ou da “Igreja desmiolando a cabeça do povo”. Era um trabalho muito sério, originado no Concílio Ecumênico e “legalmente aprovado pelo governo”, pois estava acobertado pela Lei 11.888/2008, e pela Constituição Federal, inciso XIII, Art. 5º, respectivamente, sobre a “Assistência Técnica à Habitação de Interesse Social” e “ao exercício do direito à moradia” (favor reler Comentário de 21/03).

             Enquanto estes comentários eram feitos e a Quaresma ia convidando à ‘conversão’, a CNBB – através de sua Comissão Episcopal para a Ação Sóciotransformadora - aproveitava a Festa de São José, no dia 19 de março, para convidar a todas as Comunidades Católicas para uma iniciativa e gesto concreto da C.F. 2026: “diante da necessidade urgente do povo de Deus, por moradia, lançar um convite a todas as Comunidades Católicas, propagar e viabilizar em ‘cada Paróquia, um mutirão por moradia, já que, pelo menos, 26 milhões de famílias brasileiras vivem em moradias precárias. Será que isto não é um gesto cristão, ou não é uma das Obras de Misericórdia?

            Que católico sou eu, pra engrossar o caminho errado dos maus cristãos, que acham esta atitude, coisa de comunista?

            Faz 1.702 anos que existe o Tempo da Quaresma, precedendo a Festa da Páscoa, convidando o povo de Deus, à conversão ou à penitência física, isto é, no corpo. Faz 62 anos que, no Tempo da Quaresma se celebra a C.F. e se pede uma conversão na alma, por dentro. Já dissemos isto em Comentários anteriores: “passada a Quaresma”, a gente vai se converter de novo, no ano próximo. Com o aparecimento da C.F. a conversão continua; temos que pôr em prática aquilo que refletimos. É o caso, agora. A C.F. não acabou. Daí, o convite da CNBB: “cada Paróquia viabilizar um mutirão por moradia”. Se, de fato isso acontecer, vai ser “um sinal” de mudança geral em todo o país.

            As coletas feitas, em todos esses 62 anos se destinaram a isso. Foi um mal tão grande pra ser criticado como coisa de comunista, ou de bem comum?

            Eu mesmo me arrisco a responder: digo sempre que estou com 85 anos de idade, dos quais, 58 dedicados aos ministérios Diaconal e Presbiteral, em Paróquias, no magistério, usando os Meios de Comunicação e, 10 anos seguidos, pregando Santas Missões Populares por vários estados do Nordeste, através da AMMINE (Associação de Missionários e Missionárias do Nordest).

            Seminarista ainda – e o Leunam sabe disso – integrávamos uma equipe de alunos do Seminário de Olinda, para darmos acompanhamento religioso aos estudantes dos vários Colégios de Olinda e Recife, sobretudo nesses Tempos de Quaresma, C.F. e Páscoa, promovendo encontros, debates variados, como um treinamento, um tirocínio que nos preparasse para a missão futura. Quando terminávamos os estudos, ainda fazíamos um estágio na Diocese onde iríamos trabalhar pra amadurecer melhor e executar as pastorais que nos aguardavam.

            No meu caso, por onde andei, e graças a Deus, andei muito, só fiquei 05 anos, em cada Paróquia, dediquei-me à construção de Salões, Capelas, Casas Paroquiais e ampliação de Igrejas, tudo em mutirão, mais rapidamente, durante as Santas Missões Populares, enfim, não exagero em dizer que construímos ou renovamos mais de 60 obras em nossas Paróquias em mutirão com o povo.

            Conseguia algum suporte financeiro no exterior, para os gastos maiores e o povo fazia o resto.  O que a CNBB está pedindo agora é o que ela sempre pediu em C.F. anteriores: que ninguém se contente em aguardar a Confissão, que não converte, e deixe de lado, a Catequese, através de Tema e Lema da C.F. que é a prática daquilo que só a teoria não dá, senão a Quaresma estaria resolvendo. As Coletas da Solidariedade, em todos estes anos, comtemplaram as “realidades” cruciais do povo e encaminharam para soluções concretas. Os recursos advindos das C.F. foram usados nas mais diversas necessidades.

            Para a deste ano, a CNBB está propondo que “cada Comunidade Paroquial, baseada já na Centenária Doutrina Social da Igreja, se organize para reformar ou construir, ao menos, uma Moradia em seu território ou nas proximidades da Paróquia”.

            Dom Manuel Ferreira dos Santos Júnior, bispo da Diocese de Registro – SP, responsável pela Pastoral da Moradia e Favela insiste também para que “cada Paróquia desperte para a necessidade de colocar em prática a missão do amor ao próximo e a formar a sua Pastoral da Moradia, envolvendo mais gente na solidariedade, sobretudo nas necessidades existentes nas periferias de nossas Paróquias”.

            Ali acima falei nas experiências de “mutirões” feitos, tanto nas Santas Missões Populares, como em Paróquias ou pequenas comunidades por onde passei. Sempre escutei dizerem que “Paróquias e Comunidades Católicas do Brasil não têm condições financeiras de construir moradias ou casas para seus desabrigados”. Isso não é verdade. Falta experimentar, incentivar o povo e acreditar em refrão que se cantava tanto na América Latina e até ouvi pela Europa: “o povo unido, jamais será vencido”. Enquanto nós que temos fé, não acreditamos nisto, muitos que dizem não acreditar, cantam tal refrão, em voz alta, publicamente, sem medo. Não é isto, uma fraqueza de nossa parte?

            Temos que acreditar na força mobilizadora da Igreja, da comunidade, da Paróquia, da palavra do padre, do bispo e do próprio Papa. Aliás, no dia 14/03 citamos o apelo de S.S., Leão XIV: “meu desejo é que, a reflexão sobre a dura realidade da falta de moradia digna, que afeta tantos irmãos nossos, leve não somente a ações isoladas que venham de modo emergencial em seu auxílio... mas também que as iniciativas nascidas dessa C.F. (mutirão por ex.) tragam à população mais carente, melhorias significativas nas condições de habitação”.

            Fica claro que não se trata só de construir moradias, casas, habitações. Trata-se de desenvolver um processo metodológico de escuta, de diálogo, de ação comum com os irmãos e irmãs que vivem, que padecem do problema da falta de Moradia. O mutirão, portanto, inclui os que estão necessitados e os que, não necessitando, oferecem sua inteligência, bom senso, desinteresse compensatório, colocando-se a serviço dos “carentes” na busca das soluções.

            Nós que nos encontramos em nossa “área de conforto” temos que dar um pouco de nós para ajudar àqueles que ainda não despertaram para a sua realidade. É a inconsistência dos poderes públicos, a falta de conscientização dos mais esclarecidos, a exploração política dos “negacionistas”, o catolicismo dos reacionários, a exploração de políticos que gostam d’um povo escravizado e que se submete aos favores e esmolas humilhantes a que são submetidos, que os tornam cada vez mais dependentes e subjugados “sob o casco do boi”.

            Sempre ouvi essa comparação: um homem escravizado a um patrão é como o casco de um pesado novilho sobre um cururu: “pesa muito, ele incha, mas não reclama”. Até quando, meu Deus, vamos fazer esta comparação? 



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