Todo ano, ao chegar o sábado gordo, isto
é, o dia de hoje, eu aproveito para refletir sobre o Carnaval, sua história,
seus exageros, suas ligações com o Calendário Litúrgico - pois dá início à
Quaresma - exatamente na 4ª feira de cinzas – dia 22 – e vai até a Semana
Santa, Domingo de Ramos, 02 de Abril.
Já
se vão 60 anos do início da Campanha da Fraternidade, lançada em Roma, por
ocasião do Concílio Ecumênico Vaticano II, dando seus primeiros passos na
Província do Rio Grande do Norte – Natal, Caicó e Mossoró – como fase
experimental, que deu certo, e se espalhou, rapidamente, por todo o país.
Em
cada ano se aprofundou um tema específico a ser refletido em todo o Brasil, de
acordo com a nossa realidade, sendo que a Fome nos chamou mais a
atenção em 1975, 1985 e agora, em 2023, sob o tema – Fraternidade e Fome - e o
lema – dai-lhes vós mesmos de comer – Mt.12,16.
Nas duas primeiras
Campanhas (1975 e 1985) tínhamos como referência histórica – Josué de Castro - um médico,
sociólogo e cientista político que muito influenciou em minha vida, sobretudo
no contato que tive com a sua obra, durante meus estudos no Seminário de Olinda
e através das minhas atividades pastorais, voltadas para o social, ao tempo em
que convivi na Zona Canavieira de Pernambuco, na Paróquia de Amaraji.
Nasceu
em Recife aos 05 de setembro de 1908 onde viveu, estudou e fez vestibular para
Medicina na Universidade da Bahia, graduando-se no Rio de Janeiro em 1929. Ao
se formar, retorna ao Recife e é convidado a trabalhar na Secretaria de
Educação do Estado com Sílvio Rebelo, Gilberto Freire, Olívio Montenegro,
convidados a integrar a equipe do novo governador José Maria Belo. Nenhum deles
assumiu. A Revolução de 1930 mudou a sorte de todos, inclusive a de Josué de
Castro, que começou a clinicar em Recife, a trabalhar como médico em uma grande
fábrica que, em 1932, o levaram a realizar um “Inquérito sobre as condições de vida das classes operárias no Recife”.
Isto
o fez mostrar a que veio. Casou-se com Dona Glauce Rego Pinto, companheira pra
toda vida, cúmplice, parceira e guardiã de seus escritos. Com ela teve 03
filhos. Prestou concurso para o cargo de Professor Titular em Geografia Humana
da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, defendendo a
Tese: “Fatores da localização da Cidade
do Recife”.
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Mesmo
longe, não esqueceu suas origens. No Rio, clinicava, lecionava, estudava e
pesquisava, passando a ter atuação destacada em políticas públicas: nos
movimentos em prol da criação de um salário mínimo justo; na fundação dos
Arquivos Brasileiros de Nutrição sob o comando do Serviço Técnico de
Alimentação Nacional, em parceria com a Nutrition
Foundation of New York; na fundação da Sociedade Brasileira de Alimentação,
tudo em conexão com o Serviço de Alimentação da Previdência Social – SAPS –
criado pelo Ministério do Trabalho. Sua ação foi tão eficaz em âmbito nacional
que repercutiu entre os “Hermanos
Argentinos” que o convidaram para estudar e implantar algo semelhante ao
que fazia no Brasil, quanto à alimentação e nutrição, e isto se espalhou pelo
México, República Dominicana e EEUU.
De
1943 a 1954 centrava seus esforços aqui no Brasil, como: Professor Catedrático
da cadeira de Nutrição do Curso de Sanitaristas do Departamento Nacional de
Saúde enquanto dirigia o Serviço Técnico de Alimentação Nacional e se
desdobrava na assessoria que ia prestando a países que o convidavam.
Com
tantas atividades dentro e fora do Brasil, ainda foi eleito Presidente do
Conselho Executivo da FAO e reeleito, por unanimidade, para mais um mandato. Na
época, enquanto vivia na Europa, ainda despertou interesses em cineastas do
neorrealismo italiano, que se motivaram e realizaram o filme “O Drama das Secas”, baseados em
sua “Geografia da Fome” e “Geopolítica da Fome”. Josué de Castro
era o gênio que “tocava todos os
instrumentos”. Com a facilidade que tinha de comunicação, com os livros que ia
escrevendo, abordando a vida real do povo, não precisou nem de “campanha
política” para se eleger e reeleger-se deputado
federal por dois mandatos pelo seu Estado de Pernambuco. Não precisava
de propaganda melhor do que sua obra escrita (mais de 100 livros) e sua prática
profissional como já aventamos neste texto.
Quando
estudei no Seminário de Olinda – na 1ª metade da década de 1960 – nas aulas de
sociologia do Pe. Almery Bezerra ou nas aulas de filosofia dos
professores Newton Sucupira e Zeferino Rocha ou nas de Economia do Professor
Vamireh Chacon, fui orientado pastoralmente pelo Pe. Paulo Crespo.
Éramos
seminaristas, provenientes do norte/nordeste, cheios do espírito renovador do
Concílio Vaticano II e ansiosos pela atualização dos currículos que o Seminário
Regional do Nordeste nos estava oferecendo. Tínhamos uma competente equipe de
direção e o braço forte de D. Carlos Coelho, sucedido pelo “profetismo” de D.
Helder Câmara, arcebispos de Olinda e Recife.
Acompanhávamos
toda a efervescência política de Pernambuco e sua consequente ação social, bem
como a evolução do pensamento ideológico que nos ia norteando. Um deles, sem dúvida,
foi Josué
de Castro.
Nossos
professores citavam suas obras e nos estimulavam a conhecer algumas, pelo
menos, as mais importantes. Falavam-nos de suas pesquisas, por exemplo, “Sobre as Condições de Vida das Classes
Operárias no Recife” ou sobre o “O Nanismo
a que estavam ameaçados os Trabalhadores Rurais da Zona da Mata” em
Pernambuco, Alagoas e Paraíba. Eram gerados na fome, subalimentados com fome e
desnutridos pela fome. Que estatura poderiam ter?
Eu
me tornei Padre em 1968. Josué de Castro ainda era vivo, exercendo a função de
embaixador do Brasil na ONU, desde 1962. Com o golpe militar em 1964, ele foi
destituído do cargo de embaixador-chefe em Genebra, teve seus direitos
políticos cassados por 10 anos e foi impedido de voltar ao Brasil. Ficou exilado
na França. Como seus valores pessoais eram muito maiores do que o cargo que
ocupava, ele permaneceu em Paris, exercendo suas atividades intelectuais.
Fundou em 1965 e dirigiu até 1973, o Centro Internacional para o
Desenvolvimento, tornou-se Presidente da Associação Médica Internacional para o
Desenvolvimento, além de ser também Presidente da Associação Médica
Internacional para o Estudo das Condições de Vida e Saúde. Como se não
bastasse, em 1969, o Governo Francês o designou Professor Estrangeiro associado
ao Centro Universitário de Vincennes (setor VIII) da Universidade de Paris,
onde trabalhou até sua morte de saudade aos 24 de setembro de
1973.
Como eu disse acima, no 1º parágrafo, ‘ao tempo em que convivi na Zona Canavieira
de Pernambuco, na Paróquia de Amaraji’ é porque eu tive a felicidade de
trabalhar naquela área, quando eu tinha 10 anos de sacerdócio.
Iniciei meu ministério
em Afogados da Ingazeira – de 1968 a 1973 – fui pra Roma, estudar um pouco e,
quando retornei, assumi a direção de uma Escola Polivalente em Paratibe, no
grande Recife, quando me decidi – em 1978 - a abandonar tudo e trabalhar na
Arquidiocese, que me ofereceu como missão pastoral, a Paróquia de Amaraji, onde
fiquei até 1983. Foi muito bom!
Experimentei de perto,
ao vivo, convivendo com aquela realidade, no meio de Engenhos e dentro da Usina
Bonfim, o que Josué de Castro já falara sobre a sucessão de gerações “nanicas”.
Na Missa da Criança, comparávamos o físico de um menino nutrido, bem-criado e
alimentado, com um menino da mesma idade, desnutrido, faminto, gerado já nessa
situação. Era a verdade pura, denunciada e comprovada por Josué de Castro e
ensinada no Seminário.
É claro que o
proprietário de 20.000 hectares de terra, toda cheia de cana de açúcar, não
gostava da denúncia que fazíamos, pela imprensa, com exemplos concretos e com
dados fornecidos pela FEBEM Local. A melhor oposição ao trabalho da Igreja era
de desmoralização dos seus padres e leigos conscientes da sua missão ou de
apelidá-los de comunistas
como, infelizmente ainda se faz hoje. Ah! Josué de Castro! Você foi vítima de
um sistema podre que o matou de saudades. Mas o que um agricultor me dizia lá,
ainda é verdade: “vou morrer como nasci:
nu e com fome”. Nunca o esqueci.
A fome é o tema da
Campanha da Fraternidade deste ano. Vamos voltar a ele, com base nesta história
de Josué de Castro, tão comprometida com tal realidade e, infelizmente, pouco
transformada. Mostraremos com dados atuais e concretos. Depois de tanto tempo,
a mudança é mínima. Nos próximos 40 dias, voltaremos ao assunto..jpg)