sábado, 29 de março de 2025

COLUNA PRIMEIRO PLANO

 

Cidades cearenses homenageiam mulheres    

Edição de 29 de março

Por razões técnicas não foi possível a nossa edição de 22 de março. No entanto, não deixaremos de dar destaque a fatos relevantes acontecidos na semana passada.

A propósito, nesta edição estamos publicando o artigo do Mons. Assis Rocha sobre a Campanha da Fraternidades para que os leitores não percam a sequencia dos Comentários da Semana.

Por motivos diferentes duas cidades cearenses: Guaraciaba do Norte e Pedra Branca homenagearam mulheres com serviços prestados à população.

O fato que abalou nossa Guaraciaba do Norte: foi o falecimento da Professora e Ex Primeira Dama Fátima Pontes Melo, viúva do Ex Prefeito e Ex deputado Estadual José Maria Melo, também falecido.

Deus escreve certo por linhas certíssimas. Fátima vivia e sobrevivia com um câncer. Deus a manteve viva para assistir a espetacular vitória do seu filho Cefas, eleito prefeito de nossa terra. Naquele dia aconteceu a nossa última conversa, em sua casa.

A multidão que compareceu ao sepultamento demonstrou o quanto a comunidade reconhecia o seu trabalho como Primeira Dama, Vereadora, Diretora de Escola e grande parceira de seu marido, grande líder político.

Em Pedra Branca, a Câmara Municipal prestou homenagens a duas Professoras conterrâneas na última sexta feira, 21 de março. Uma a Professora Ruth Cavalcante, criadora da Educação Biocêntrica e com longa história de serviços aos Ceará, ao Brasil e ao Mundo.

A outra foi a Professora Ivonete Braga de Sousa, Prefeita eleita em 2024, pelo Partido dos Trabalhadores. Nascida na zona rural do município, com vasta folha de serviços à Educação de Pedra Branca.

Ruth Cavalcante, na celebração dos 70 anos da Universidade Federal do Ceará, recebeu o título de Doutora Honoris Causa, a maior honraria da UFC, de onde foi expulsa na ditadura de 64.

O requerimento foi da Vereadora Maria Eunice Ribeiro de Lima para a solenidade que aconteceu no dia 21 de março, às 9 horas na Câmara de Vereadores, completamente lotada. Os ex-prefeitos estavam presentes.

A Vereadora proponente das homenagens fez um relato detalhado da história das homenageadas. A história da Professora Ruth despertou muita curiosidade, tanto por ter sido vítima da ditadura de 64, quanto pela sua contribuição mundial à Educação.

                          O DISCURSO DE RUTH CAVALCANTE                                                           

 Após as cerimonias na câmara Municipal de Pedra Branca, familiares e amigos se reuniram no Sítio Buenos Aires para a comemoração dos 70 anos do Engenheiro, Cantor, Músico e Compositor Joaquim Ernesto Cavalcante.

Muitos músicos de Fortaleza, que animaram, por muito tempo as noites do Cais Bar, fizeram questão de comparecer às homenagens ao amigo. 

Reencontrei o amigo Jurandir Frutuoso, hoje destacado gestor no Ministério da Saúde, em Brasília, onde está há mais de dez anos cuidando da saúde dos brasileiros, nas articulações com os Estados.

Na cidade de PEDRA BRANCA, a grande atração é o luxuosíssimo Consultório da Dra. Myrella Cavalcante, que abriu as portas para uma visita de familiares e amigos, na semana passada.

A comunicadora Sara Gois, âncora do Portal 247, escreveu um artigo sobre a decisão da Comissão de Anistia de avaliar o requerimento de Mariana Cavalcante Ferreira ser reconhecida como brasileira.

Mariana e filha de Ruth Cavalcante e João de Paula Monteiro Ferreira. Nasceu no exilio, Alemanha, onde os pais estavam exilados por causa da perseguição da ditadura.

No mesmo dia 25 de março, o ex-presidente que negou o reconhecimento a Mariana será tornado réu por tentar tomar o poder de um governo, legitimamente, eleito.  Os caminhos da democracia são mais limpos.

A propósito, para quem duvida que houve ditadura, deve ler os interessantes artigos de João de Paula Monteiro Ferreira publicados abaixo desta coluna. São Memórias da Ditadura.

Estou lendo um livro de um autor, atualmente, famoso e que eu tinha muita curiosidade e interesse em ler. Infelizmente, observo que há muitos textos incompreensíveis e, perfeitamente, dispensáveis.

Cada vez mais me convenço de que o que se escreve é para ser lido e entendido facilmente. Parece-me um exibicionismo desnecessário escrever de forma complicada.

Em 1963, no Recife, ao fazer um curso de jornalismo, aprendi que a missão do jornalista é “dizer coisas cada vez mais complicadas, de forma cada vez mais simples, de modo a atingir cada vez mais gente”. Concordo e tento seguir.

Com a aprovação do Projeto que isentará de Imposto de Renda quem ganha até cinco mil reais, será muito importante para a maioria dos Professores que terão um pouco mais de dinheiro ao final de cada mês.

Esta medida do Presidente Lula é uma demonstração concreta de alguém que pensa nos que mais trabalham e mais precisam.

A OAB indicou os nomes de Dr. Marcelo Uchoa, Titular, e dra. Stella Maris Nogueira Pacheco para representarem aquela instituição na Comissão Especial Wanda Sidou - ANISTIA.

                       
                                                                                                                                                                                  

Memórias da Ditadura

CONSULADOS CEARENSES EM SAMPA

 
João de Paula Monteiro Ferreira

- Bem-vindo à Paulicéia, caboclo.

Foi o que me disse o Bergson, abrindo um sorriso largo e os braços compridos para um abraço apertado e sem pressa quando, na segunda quinzena de dezembro de 1969, cheguei de Curitiba após um ano no Presídio do Ahú. Depois de algumas horas de conversa em um café do centro, atualizando as notícias e matando as saudades, ele levou-me a um lugar que uma irmã da Ruth, a Neuma, mestranda no Curso de Letras da USP, havia conseguido para me hospedar por alguns dias.  Era um apartamento no Butantã, onde morava com um casal de amigos dela, a Maninha e o Eliomar - professor de física da UFC, que fazia um doutorado na USP. Naquela espécie de consulado, os dois acolhiam solidariamente universitários cearenses necessitados de abrigo, fosse para estudar ou para escapar dos agentes da ditadura.

Tempos depois, conheci um consulado semelhante que reunia cearenses ligados à música, passantes ou residentes em São Paulo: era o apartamento da Téti e do Rodger. Quem me deu a dica deste outro serviço consular cearense foi o Belchior, que tinha sido meu colega de turma no Colégio Sobralense – onde nunca o vi tirar uma nota que não fosse 10 - e contemporâneo na Faculdade de Medicina – três anos atrás de mim, devido a uma temporada que ele passara em um mosteiro. Eu o encontrara por acaso em uma viagem de ônibus do Rio para São Paulo. O Belchior morava em um apartamento no mesmo andar da Téti e do Rodger, em um prédio da Rua Oscar Freire, no bairro de Pinheiros. Numa das visitas furtivas que fiz àquele recanto acolhedor, a Téti pediu-me para examinar um dos filhos que estava com febre. Felizmente, meus parcos conhecimentos de quintanista de medicina foram suficientes para diagnosticar uma daquelas viroses banais que ocorrem na primeira infância e que não requerem mais que uma boa hidratação e algum antipirético. Aquele bebezinho febril é o hoje Doutor Pedro Rogério, professor da UFC, pesquisador da MPB, excepcional conhecedor de música na teoria e na prática, pois ensina, compõe, toca, canta e é parceiro musical do pai em lindas canções.

Mesmo cercado de afeto e cuidados, minha estadia no apartamento da Maninha e do Eliomar teve que ser curta, devido ao grande trânsito de pessoas, o que colocava em risco minha segurança e, em consequência, a de todos os que ali residiam. Dali fui levado pelo Bergson a um encontro com o Genoíno, que me convidou para morar com ele em um apartamento que dividia com o Hélio Nóbrega. O Hélio era um estudante de engenharia da UFC, que havia sido preso junto com a Nadja Oliveira, estudante de Pedagogia, em uma manifestação em Fortaleza pela libertação dos participantes do Congresso da UNE em Ibiúna. Os dois foram soltos, mas, depois condenados à revelia e tiveram que viver clandestinamente em São Paulo.

O Genoíno que me substituíra na UNE porque eu estava preso quando fui eleito, foi quem me reintroduziu no movimento estudantil. Ele colocou-me a par da difícil situação em que se encontrava o movimento em todo o país por conta do recrudescimento da repressão a partir da decretação do AI-5 e me informou dos desfalques na diretoria da UNE, que começaram pela prisão e tortura do Jean Marc, o presidente, mantido em um presídio da Marinha desde setembro daquele ano.

Fiquei triste por não encontrar em São Paulo uma amiga muito querida, a paulistana Helenira Rezende, eleita comigo para a diretoria da UNE. Naquele momento, ela estava atuando em Salvador e Fortaleza. A Helenira também tinha prisão preventiva decretada por participação no Congresso de Ibiúna e, como eu, fora presa no início do Congresso Regional do Paraná, mas, diferentemente de mim, conseguira escapar daquela arapuca.

Foi o Genoíno quem organizou minha primeira atividade ligada à UNE, ao me levar para uma reunião na sede do CAOC - Centro Acadêmico Oswaldo Cruz, da Faculdade de Medicina da USP, que se vê na foto abaixo. 

Percebia-se ali que ainda havia disposição de luta por parte das lideranças estudantis, mas que houvera uma grande redução nas condições de mobilização para ações de protestos públicos. A ditadura desencadeara uma nova onda de fechamento de entidades estudantis, prendera muitos de seus dirigentes e proibira mais de duas centenas de líderes de se matricularem em suas faculdades por meio do Decreto-Lei 477. A repressão desenfreada desfalcava as fileiras dos que lutavam contra a ditadura e causava temor entre os que não eram diretamente atingidos, tornando tudo muito difícil para a resistência ao arbítrio.

O clima de apreensão, no entanto, não nos imobilizava, nem tirava nossa alegria de viver. Resistíamos como podíamos e aproveitávamos as poucas oportunidades que surgiam para usufruirmos de alguns momentos de prazer. Foi assim que, desconsiderando as mais elementares regras de segurança, Genoíno, Lourdinha (sua então namorada), o Hélio, a Ruth e eu, fomos passar um fim de semana na baixada santista. A Ruth e eu tínhamos namorado quando éramos colegas de diretoria no DCE da UFC e havíamos reatado o namoro quando nos encontramos em São Paulo, onde ela passara a viver após sua fuga da prisão em Fortaleza; foi a Ruth quem teve a ideia e tomou as providências para nos hospedarmos em Santos no apartamento da Zimar, que fora casada com seu irmão, Álvaro Lins, então deputado federal pelo MDB. Foram dois dias inesquecíveis pelo calor da recepção que tivemos e pela oportunidade de matar a saudade de banho de mar. A teimosia em não deixar a repressão nos roubar as possibilidades de curtir a vida, manifestou-se também quando o Genoíno, o Hélio e eu, vendo uma multidão passar na rua do nosso prédio comemorando a vitória da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1970, resolvemos nos meter no meio dela e seguir para o Vale do Anhangabaú berrando é tricampeão, é tricampeão, é tricampeão.

O período de convivência com o Genoíno em São Paulo foi curto. Certo dia de julho de 1970, ele despediu-se de mim, dizendo que tinha aceitado um convite da direção do PCdoB para travar a luta contra a ditadura no campo. Pouco antes o Bergson dissera-me a mesma coisa. Nenhum dos dois disse-me para onde ia e nem era conveniente dizer por razões de segurança. Não muito tempo depois, por meio do Ozéas Duarte, ex-estudante de direito da UFC e militante destacado no movimento estudantil do Ceará que se tornara dirigente do PCdoB, recebi um convite semelhante. Não o aceitei, respondendo que já passara quase a metade do meu mandato de diretor da UNE na prisão e que meu compromisso naquele momento era concluí-lo.

Depois da ida do Genoíno para o campo, fiquei sem conexão com a diretoria da UNE, que se vira obrigada a atuar nas mais severas condições de clandestinidade. Os contatos que eu tinha com as lideranças do movimento estudantil paulista, construídos no período em que eu participava ali de atividades da UNE como presidente do DCE da UFC, também tinham sido desfeitos. Quem não estava preso ou exilado, estava na clandestinidade. Os centros de efervescência do movimento estudantil paulistano em 1968, como a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, na Rua Maria Antônia, o CRUSP – Centro Residencial da USP e as faculdades mais ativas da PUC pareciam sitiados, sob constante e feroz vigilância policial.

Este era o cenário em São Paulo, quando o Ozéas, em nome da direção do PCdoB, convidou-me pela segunda vez para deslocar-me para o campo. Embora, por diversas circunstâncias, não tivesse sido formalizada minha entrada na diretoria da UNE, considerei haver cumprido meu compromisso como diretor eleito da entidade e honrando a confiança dos que me elegeram. Lembrando-me da minha mãe, mulher de poucas letras e muita sabedoria, de quem ouvi muitas vezes a frase “quem fez o que podia fazer, fez tudo”, aceitei, então, aquele convite. O desdobramento desta decisão é assunto para outra historieta.

          PARA OS QUE TENTARAM DESTRUIR BRASÍLIA  EM 8 DE JANEIRO






COMENTÁRIOS DA SEMANA

 

COMO TEMOS CUIDADO DO MUNDO QUE DEUS NOS DEU?

Estamos às Vésperas do 4º Domingo da Quaresma com reflexões sobre este tradicional tempo de penitência, celebrado em todo o mundo, e à sua concomitante Campanha da Fraternidade com 61 anos de caminhada no Brasil.

Já refletimos sobre o significado da histórica Quaresma, da sexagenária C.F. e seu Tema, deste ano: Fraternidade e Ecologia Integral e prometemos aprofundar no Comentário de hoje o Lema: Ele viu que tudo era muito bom.

 Em que circunstâncias ou ocasião Deus viu que tudo era muito bom”? Esta Campanha da Fraternidade está falando de natureza, ecologia, uso da terra, clima, Criação, vida, oceanos, enfim, quem não vê ou sente que o Mundo está transformando-se, que a ordem universal está cada vez mais problemática? Os homens que têm poder não se entendem. Só os “cegos” não querem ver. Enfim, quando Deus viu que tudo era muito bom?

Leia os primeiros momentos da Criação do Mundo, por Deus. Entenda a linguagem do Antigo Testamento, como a do Novo, e a linguagem, os recursos tecnológicos de hoje e espere pelo que ainda há de vir.

Faz muito tempo: uns 15 bilhões de anos. Só existia Deus, em suas 03 Pessoas Divinas. Era, como que, uma Família: Pai, Filho e Espírito Santo.

Deus resolveu “criar”. Tinha a Vida em plenitude. Resolveu, vagarosamente, no tempo d’Ele, nos 14 bilhões de anos iniciais. Criou dia e noite; partes com terra e com águas; com vegetais, sementes, plantas e frutos; astros, estrelas e constelações ou luminárias para identificarem os pontos cardeais, enfim, luzes

para separarem o claro do escuro; águas para ficarem cheias de todo tipo de seres vivos e terras onde vivam as aves que voem no ar. Tanto na água como no ar surjam monstros e pequenos animais. Estas e outras “criações” foram acontecendo ao longo dos 14 bilhões de anos. Seu tempo difere do nosso.

Depois do Big Ben inicial ou do boom que marcou a presença de Deus no Mundo Criado, foi que Deus pensou em alguém para conduzi-lo, organizá-lo. Entre os já “criados” não havia um “inteligente” que o fizesse. Só instinto!

 Toda a macroestrutura estava ‘jogada no abismo’, ou no ‘éter’, até no ‘nada’ precisando de coordenação, de um ser pensante, inteligente para comandar. Entenda como Deus é paciente. Só no 15º bilênio (cerca de 600 milhões de anos pra cá) Ele tornou realidade, aquilo que sempre esteve na sua mente: usou da matéria que Ele já havia criado: a Terra; e lhe deu forma: a alma, a vida. Qualquer estudante de Filosofia entende isso: todo ser vivo tem matéria e forma, isto é, tem corpo e tem alma. O barro, sozinho, era só matéria. A alma, sozinha, era só forma. Estava o Homem pronto: o ser com Inteligência e com vontade para cuidar da Criação Divina. É difícil de entender isto? Vai piorar!

O Senhor Deus plantou um Jardim na região do Éden, no lado leste e ali pôs o ser humano que Ele havia formado. O Éden, belíssimo. Cruzavam-no 04 Rios: o Pisom; o Giom; o Tigre e o Eufrates. (Mais tarde, bem mais tarde, essa Região ficou conhecida e tida como Mesopotâmia, i.é, “entre Rios” em Israel).

 Lá ficou o 1º Homem, sozinho, ainda com uma ordem de Deus: “você pode comer os frutos de qualquer árvore do jardim, menos da árvore que dá o conhecimento do bem e do mal. Não coma o fruto dessa árvore, pois, no dia em que você a comer, certamente morrerá”.

O Homem ficou ali, sozinho, pensativo, para começar sua aventura, já com esses limites. Deus que já sabia o que fazer, fê-lo logo. Vou dar-lhe uma “companheira”, ou “companhia” com quem você divida o pão, o corpo, a casa, a sua própria vida. Ela será “a sua outra metade”. Comecemos já, a escolha.

 Diz o Livro do Gênesis, logo em seu 2º capítulo, que Deus levou ao Homem todos os animais, já existentes – domésticos e selvagens - para que ele lhes pusesse os nomes e, quem sabe, escolhesse um para sua companhia. Imaginem! A girafa era muito alta. O rinoceronte, muito desengonçado. A cabrinha muito baixa e pequena. Que dizer do elefante? O Homem deu-lhes os nomes, mas não encontrou nenhum ou nenhuma para sua possível metade. Deus é Deus. Sabe o que quer, o que faz, o que cria. Ele não erra. Antes que queiramos qualquer coisa, Ele já sabe o que é melhor pra nós. Daí, ter tomado a decisão. Fez o Homem dormir, tirou-lhe uma parte do corpo que não lhe faria falta, e dela fez a Mulher. Ela não é um apêndice. Algo que se possa descartar. Ela é o que o 1º Homem disse quando a viu: “Agora sim! Esta é a

carne da minha carne e osso dos meus ossos. Ela será chamada de Mulher porque Deus a tirou do Homem”. E o Livro do Gênesis encerra seu 2º capítulo, dizendo: “é por isso que o Homem deixa seu pai e sua mãe para se unir com a sua mulher, e os dois se tornam uma só pessoa” ou uma só carne.

 A Igreja, nesta 61ª Campanha da Fraternidade, além do Tema proposto:

Fraternidade e Ecologia nos oferece um Lema da mais urgente necessidade de reflexão, porque, pela fundamentação bíblica que todos deveriam estudar e refletir, Homem e Mulher estão no mesmo pé de igualdade e no mesmo nível da Criação Divina. Foram criados imagem e semelhança de Deus; ela foi tirada do Homem. Toda a Criação foi consagrada por Deus e abençoada no Homem e na Mulher. Por isso que o Lema desta C.F. 2025 é: Deus viu que tudo o que havia feito era muito bom (Gênesis 1,31).

 Só para confirmar ou ajudar na compreensão das duas palavras Homem e Mulher, até na língua hebraica, um dos originais em que foi escrita a Bíblia, as palavras são semelhantes: ‘ish’ (homem) e ‘ishá’ (mulher). Ambas se referem à Humanidade que une os dois.

Não entendemos porque se institui um Dia da Mulher e se matam tantas. Inúmeras são abandonadas. Se têm um emprego ou uma função pública, seu salário é sempre inferior ao do homem que exerce a mesma função que ela. É inacreditável. Além disso, ainda encontramos negacionistas, reacionários da política e, infelizmente da própria Igreja, que se unem em seu conservadorismo e brigam, debatem e discutem defendendo suas “belas causas”. Sr. Piedade!

 Será que a instituição da Lei Maria da Penha, sancionada aos 07 de agosto de 2006, não se deve à luta de uma farmacêutica brasileira, cearense corajosa, que apanhava e era agredida, todos os dias pelo marido? Ele até lhe deu um tiro de espingarda que a deixou paraplégica. Ao voltar ela, pra casa, sofreu nova tentativa de assassinato, pois o marido tentou eletrocutá-la.

 Em 1994, Maria da Penha lançou seu livro “Sobrevivi... posso contar” onde narra as violências sofridas por ela e pelas três filhas. Agora, eu pergunto: da Criação para cá, são 14.999.997.975 (14 bilhões, 999 milhões, 997 mil e 975 anos). Da (suposta aparição dos Primatas para se chegar ao Homem) de 600 milhões de anos para cá são 597.000.975 anos.

Será que o Deus do Gênesis 1,31, vendo que tudo o que havia feito era muito bom, depois de entregar ao Homem e à Mulher a administração do Universo, nós correspondemos à sua confiança? Nosso comportamento e opções, nosso “modus vivendi” tem sido de respeito mútuo, entre Homem e

Mulher, de quem quer pôr tudo em comum, sem nos agredirmos, pensando só na Humanidade, no sentido original da palavra? Deus pôs fim ao mundo uma vez, com o Dilúvio. Prometeu não o fazer mais. Manterá ainda tal promessa?

Deus viu que tudo era muito bom!

Desde o 1º sábado, deste mês, 1º de Março, tenho falado sobre a Quaresma e Campanha da Fraternidade, que iniciariam na 4ª Feira de Cinzas, dia 05, logo que terminasse o Carnaval e que, Quaresma e Carnaval, tinham nascido “no seio da Igreja Católica”, embora com finalidades tão diferentes.

Acrescentei nos Comentários seguintes, a ligação que o Papa Francisco fez da quaresma com o ano jubilar, alinhando seus temas num mesmo objetivo.

Não esqueci o multi-sofrimento do Papa, convalescendo no Hospital em Roma, diante de comentários malévolos de falsos cristãos e até de clérigos que o magoam, visceralmente, mas ele os perdoaria em sua mensagem quaresmal que estaríamos apresentando no comentário seguinte: o da semana passada.

É o que quero hoje: dedicar este Comentário, mais precisamente, à C.F. 2025. Depois de ter-lhes falado sobre a origem da Campanha da Fraternidade há 61 anos, exatamente quando o Concílio Ecumênico Vaticano II se realizava em Roma, reportei-me à História da Doutrina Social da Igreja, espalhada pelo mundo, desde 1891, com o chute inicial dado pelo Papa Leão XIII, com sua Encíclica Rerum Novarum.

Setenta anos depois (1961) surgiu o grande Papa João XXIII e após +cinquenta e dois (2013), o Papa Francisco. Ambos tinham pressa, como eu já comentei, anteriormente: ‘ambos queriam pôr em prática a Doutrina Social da Igreja já, teoricamente, iniciada por alguns de seus predecessores’. Eu dizia também que estes dois Papas ‘provocaram um verdadeiro incêndio na Igreja que nunca mais apagou. Eles reviraram o mundo’.

Este incêndio ou esta reviravolta foi fruto do Espírito. É o fogo do Espírito Santo que aquece e incendeia aqueles mais frios, conservadores, antiquados, reacionários ou negacionistas que têm medo de arriscar-se. Ficam impedindo a outros de assumirem mais seu compromisso cristão, quando a própria Palavra de Deus diz em 365 ocasiões: “não tenhais medo”.

Este ano, nós estamos bem motivados para viver a 61ª Campanha da Fraternidade, com Tema e Lema definidos: Fraternidade e Ecologia Integral e Deus viu que tudo era muito bom (Gn 1,31). Não é um tema novo. Ele já foi refletido, embora com Lemas bíblicos diferentes, pelo menos, oito vezes. Cada vez, os conservadores políticos, os católicos alienados se unem na defesa de seus pontos de vista  tradicionalistas e não só não participam, como atrapalham as pessoas que querem participar da Campanha e colaborar com seu sucesso.

Como eu já falei, a Campanha da Fraternidade surgiu no tempo do Concílio em Roma, como uma nova maneira de se viver a Quaresma: deixava de ser um tempo de penitencia no corpo ou um sacrifício físico, passageiro, pra ser uma mudança na alma. Seria um sacrifício interior: na mente, nas atitudes e na própria consciência. Isso é que é conversão. Mudança de Vida.

Será que se eu deixar de comer carne alguns dias, ou de beber alguma cerveja em 04 fins de semana ou de me abster de algum prazer físico por um tempo limitado, passado este período, vou viver diferente? Houve conversão?

Eu mudei de vida? É claro que não me converti. Queria que o tempo passasse pra eu voltar ao que era, e até dizer: graças a Deus, passou o sacrifício. Isto não é viver o tempo da Quaresma. Não me converti. Tudo voltará ao que era.

Por isso mesmo é que se critica tanto a Campanha da Fraternidade. Ela ainda não atingiu a todos os católicos brasileiros, porque tudo que ela propõe é contrário à aceitação dos falsos cristãos. E a Igreja é que é culpada. O Papa é comunista. O Padre que o segue, também. Digo isso de experiência própria.

O Tema que é proposto para todo o Brasil, sob a coordenação da CNBB, é Fraternidade e Ecologia Integral, já refletido várias vezes. Em cada ocasião insurgem-se pessoas, grupos, católicos conservadores, políticos sem vida cristã, mal casados, que só aparecem nas grandes concentrações de fiéis para impressionarem bem ao povo. Enfim, um batalhão de gente oportunista, que engana àqueles desavisados e inconscientes, no vão uso do nome de Deus.

Além de fazer parte da Igreja - o estudo e a preocupação com o bem-estar social do seu povo, - ela tem vários motivos para tratar da Ecologia Integral este ano devido a vários fatores: oitocentos anos da Composição do Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis; dez anos de publicação da Carta Encíclica Laudato Si; a recente divulgação da Exortação Apostólica Laudato Deum sobre a crise climática; dez anos de criação da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM) e a realização da COP 30, em Belém – PA, a primeira na Amazônia. Tudo isso, motivou a Comissão Episcopal Especial para a Mineração e a Ecologia Integral a escolher o Tema e Lema, respectivamente, Fraternidade e Ecologia Integral e Deus viu que tudo era muito bom (Gn 1,31).

Esta 61ª Campanha da Fraternidade, dentro desta Quaresma, requer de nós, a Conversão. Sempre foi assim, na Quaresma, de um modo teórico. Estes últimos 61 anos, sugeriu-nos a prática, um compromisso com a nossa mudança de vida, refletindo, conhecendo, tentando mudar a nossa realidade. Muitos não aceitam essa já sexagenária nova orientação da Igreja. E a criticam sem mais nem menos. A Igreja virou comunista, a começar do Papa. O que é isso? Pena que, nem todas as Paróquias ou Pastorais da Igreja levam a sério as C.F. Para a deste ano, já perguntam: o que é que se tem a ver com ecologia, com clima, com desmatamento? O que tem a ver isso, com Religião?

Eu, que sou um Padre mais velho, ouvi à época da Campanha sobre a Amazônia (2007), alguém perguntar: o que é que nós aqui temos com a Amazônia? Tão longe!? Lá no fim do mundo!?...

Repasso-lhe a Oração da Fraternidade para ajudar na reflexão:

“Ó Deus, nosso Pai. Ao contemplar o trabalho de tuas mãos, viste que tudo era muito bom! O nosso pecado, porém, feriu a beleza de tua obra, e hoje experimentamos suas consequências.

Por Jesus, teu Filho e nosso irmão, humildemente te pedimos: dá-nos nesta Quaresma, a graça do sincero arrependimento e da conversão de nossas atitudes. Que o teu Espírito Santo reacenda em nós a consciência da missão que de ti recebemos: cultivar e guardar a Criação, no cuidado e no respeito à vida.

Faz de nós, ó Deus, promotores da solidariedade e da justiça. Enquanto peregrinos, habitamos e construímos nossa Casa Comum, na esperança de um dia sermos acolhidos na Casa que preparaste para nós no Céu. Amém”!

No Comentário acima,  do dia 29, deter-me-ei no Lema desta Campanha da Fraternidade: Deus viu que tudo era muito bom. Após a criação de tudo o que existe – peixes, aves, animais domésticos e selvagens -criou os seres inteligentes, iguais, companheiros, feitos para conviverem numa só carne, dividirem, entre si, o próprio pão: Homem e Mulher – imagem e semelhança de Deus – e Ele viu que tudo era muito bom.

Está tudo relatado no Livro do Gênesis: A Mulher e o Homem são imagens e semelhança de Deus. Ela é a carne da carne do Homem. Ela não é uma ajuda ou auxiliar para o Homem. Ela faz parte da sua ‘humanidade’. Será que Homem ou Mulher, sozinhos, gerariam um filho, ou são 50% pra cada um?

PARA OS QUE TENTARAM DESTRUIR BRASÍLIA EM 8 DE JANEIRO












sábado, 15 de março de 2025

COLUNA PRIMEIRO PLANO

 

IBIAPABA:

29.765 ELEITORES ANALFABETOS

Edição de 15 de março

Na terça feira, dia 11, muitos amigos se reuniram no mezanino do prédio onde reside Juarez Leitão para celebrar seu aniversário, à base da tapioca e muitas iguarias apropriadas para o café e os sucos.

 Lá estavam os ex-prefeitos Antônio Cambrais e Luís Marques. O ex-Governador Lúcio Alcântara. Escritores, Professores, poetas, jornalistas e, naturalmente, Betanistas, seus ex-colegas do Seminário de Sobral.

                                                            

Na oportunidade, Antônio Cambrais autografou seu livro de 371 páginas, com muitas ilustrações contando a sua importante caminhada que começou lá no interior de Senador Pompeu.

 De acordo com os resultados da última eleição, a Serra da Ibiapaba tem 29.765 eleitores analfabetos. Pode parecer pouco, em relação ao total do eleitorado: 261.035.

 Mas pode ser um número muito pequeno para ser alfabetizado em quatro anos de uma gestão municipal. Os números de analfabetos são proporcionais à população de cada município:

 Carnaubal: 1.251; Croatá: 2.952; Ibiapina: 1.086; Ipu 5.062; Guaraciaba do Norte: 6.424; São Benedito: 3.113; Tianguá: 5.441; Viçosa do Ceará: 4.436.

 Acabar com o analfabetismo é só uma questão de Metodologia. Não será apenas colocar os analfabetos em sala de aula. Já fiz isto inúmeras vezes, com excelentes resultados.

 A última experiência foi no município do Graça, em 2017. Os alunos eram muito assíduos e não gostavam da sexta feira que era o dia de planejamento dos professores. Portanto, sem aulas para os alunos.

 Ouvi de um aluno que, à época, era o vice prefeito: “Nada me impede de ir a aula. Quando dá 5 horas, para tudo o que estou fazendo e vou me preparar para ir à aula”.  Era no distrito da Lapa.

 A coordenação local era das professoras Verinha Azevedo e Marisa Rodrigues, (in memoriam) com uma equipe de Professores e Professoras bem preparados e com vontade de fazer bom trabalho.

 Era o Método de Paulo Freire que eu lhes havia passado, de uma forma prática e com muitos exercícios. Não eram aulas expositivas. Eram participativas, de modo que os alfabetizadores fossem capazes de aplicar nas suas salas.

 Mas, infelizmente, os analfabetos parecem invisíveis nos seus municípios. Ninguém cuida deles com carinho e convicções de que são pessoas que merecem cuidados especiais, exatamente porque não puderam estudar na infância. A oportunidade lhes foi negada.

 Só há bons resultados no trabalho de alfabetização de adultos se houver vontade e convicção de quem cuida da tarefa. O trabalho não termina ao colocarem os alunos na sala de aula. É aí que começa o trabalho.

 O Museu da Imagem e do Som do Ceará vai realizar o FORUM DO FUTURO e fui convidado a participar da Mesa 1, no dia 26 de março, sobre Direitos Humanos em Perspectiva: Desafios e Transformações, das 10,30 às 12,30h.

O Ator, Diretor e Apresentador da TVC Ricardo Guilherme tem uma peça de teatro que deveria ser apresentada em todas as escolas do Fundamental ao Superior: É PROIBIDO PROIBIR. Daria bons debates.

 Desta vez, a vergonha nacional, mais uma vez foi de um tal deputado Gustavo Geyer, goiano, em relação à Ministra Gleise Hoffman. De baixíssimo nível. Tudo indica que lhe vai custar caro.

Aliás, o Congresso Nacional está cheio de políticos que nunca se prepararam para chegar lá. Não sabem o que ali estão fazendo. Não apresentam um projeto de destaque. Só querem fazer cenas para aparecer. Quem os elegeu?

 O Ceará também tem contribuído, elegendo maus deputados. Uns só olham para os próprios interesses. Ainda bem que Flávio Dino chegou ao STF e está dando um nós nos aproveitadores. A PF está no encalço.

 A política é fundamental, mas precisa de políticos sérios que estejam voltados para o bem coletivo. Este é o sentido de suas ações. A questão está na escolha.

PESAR pelo falecimento do amigo JOSÉ ALMIR BALTAZAR, o primogênito de uma grande família. Ficam as boas lembranças de sua honrada trajetória.

                                                                                    

 MEMÓRIAS DA DITADURA

Na prisão,

      Fausto Nilo desenha LIBERDADE,                        em papel higiênico!                                                                                                                                                                                                                 João de Paula Monteiro Ferreira (*)

- Tô lascado. O papai vai me ver fumando!

Foi o que disse Aristeu Holanda, estudante de economia da UFC, ao ver a foto de capa da revista VEJA de 16 de outubro de 1968 que noticiava a prisão dos oitocentos participantes do XXX Congresso da UNE. Fumando um vistoso cigarro, ele destacava-se entre as pessoas espremidas na carroceria de um caminhão que transportava de Ibiúna para a capital paulista parte dos aprisionados naquela operação repressiva.

Espirituoso como é, Aristeu não perdeu a oportunidade para fazer uma brincadeira com aquela situação, provocando risadas em todos nós que estávamos presos com ele. Não termos perdido a disposição para rir, não significava que as coisas estivessem fáceis ali no Presídio Tiradentes. Mesmo amontoados em celas superlotadas, que não possuíam as mínimas condições para alojar condignamente seres humanos, sofrendo pressões psicológicas de todo tipo e com muitas incertezas sobre o que seria feito conosco, não nos aquebrantamos e logo, lançando mão dos parcos meios que estavam ao nosso alcance, começamos a protestar contra a injustiça da nossa prisão.

Com batom fornecido pelas colegas, o Fausto Nilo desenhou a palavra LIBERDADE em uma faixa confeccionada com papel higiênico. Pregada nas grades voltadas para a Avenida Tiradentes, esta faixa ajudava a atrair a atenção dos passantes, que paravam na calçada e ficavam ouvindo os nossos gritos de A UNE SOMOS NÓS, NOSSA FORÇA NOSSA VOZ.

Quando cansávamos de gritar e fazíamos uma pausa, ouvíamos de uma cela debaixo da nossa, vozes gritando:

-Continua Estudante, Mostra  a força da UNE!

Eram presos comuns que, talvez, nunca tivessem ouvido falar da UNE, mas pareciam estar gostando daquela animação que lhes ajudava a quebrar a monotonia da vida carcerária. Evidentemente, não demorou muito para os guardas do presídio arrancarem a faixa que pedia liberdade.

Aqueles presos comuns podiam não saber o que era a UNE, mas os agentes da ditadura a conheciam bem e a odiavam muito. Tanto que uma das primeiras ações dos golpistas de 1964, no Rio de Janeiro, foi metralhar e incendiar sua sede na Praia do Flamengo. Pouco depois, decretaram sua ilegalidade, começaram a prender dirigentes estudantis e a fechar em todo o país entidades ligadas a ela, como as uniões estaduais, diretórios centrais e centros acadêmicos.

Diante do ataque ao XXX Congresso, os universitários brasileiros reagiram mais vez às tentativas do governo ditatorial de destruir sua entidade nacional. Manifestações em todo o Brasil, enfrentando forte repressão, exigiam nas ruas a nossa libertação. Aquilo nos estimulou a elevarmos o nível dos nossos protestos no presídio: entramos em greve de fome.

Em meio à greve de fome ocorreu um episódio inusitado. Fomos despertados por um barulho estranho e, ao acendermos a luz da cela, nos deparamos com um colega de boca cheia que foi logo dizendo: “estou aqui só comendo estas bolachinhas; deixem eu comer estas últimas que de manhã eu faço uma autocrítica.” Não lembro se ele fez a autocrítica prometida, mas o certo é que comeu as três bolachas que lhe restavam.

De repente, nós - os 70 cearenses que participavam do Congresso -, sem qualquer explicação, fomos retirados das celas e colocados em dois ônibus que, escoltados por carros da polícia de São Paulo, tomaram uma estrada que não sabíamos onde ia dar. A certa altura da viagem, a escolta desapareceu. Então, fomos informados pelos motoristas dos ônibus que estávamos livres e que o destino da viagem era Fortaleza. Dois dias depois, chegamos em casa.

Passados alguns dias da nossa volta a Fortaleza, foi decretada a prisão preventiva de 10 dos cearenses que haviam sido libertados. Como eu era um deles, colocaram-se diante de mim duas alternativas: resignar-me a ser preso arbitrariamente outra vez ou fazer o que me fosse possível para tentar evitar a prisão. Optei pela segunda. Abandonei às pressas o apartamento em que morava (que em seguida foi invadido e vasculhado por agentes da repressão à minha procura) e passei a usar uma documentação com outro nome, que me foi fornecida por uma colega da universidade, que trabalhava em uma repartição pública em Fortaleza.

Como era candidato à diretoria da UNE, usando outra identidade, viajei para o Paraná, onde ia se realizar um dos congressos regionais programados em segredo como estratégia de continuação do evento interrompido em Ibiúna. Mas o que aconteceu ali é assunto para outra ocasião.

                                       (*) JOÃO DE PAULA MONTEIRO FERREIRA, de Crateús, Médico, Consultor empresarial, Líder Estudantil, exilado no Chile e Alemanha.


 


“Façamos este caminho juntos, na esperança de uma promessa”

Nesta 4ª feira, 19 de março, faz 12 anos que o cardeal argentino, Jorge Mario Bergoglio ocupou o 266º posto de Pontífice, sucessor de Pedro. Na sua apresentação aos Diocesanos de Roma e aos habitantes do mundo inteiro em sua 1ª bênção “Urbi et Orbi”, foi logo dizendo a que veio: “escolhi o nome de Francisco para garantir a toda a Igreja a minha adesão aos excluídos e à saúde do Planeta. Parece que meus irmãos cardeais foram buscar-me quase no fim do mundo”!... e, em vez de abençoar, foi logo se inclinando, pedindo para ser abençoado pelo povo, que já foi percebendo a “novidade”.

 Tal novidade ou susto foi-se expandindo, à medida que Francisco ia mostrando sua preocupação e cuidado pastoral com os empobrecidos e o rompimento com o clericalismo que estava fazendo da Igreja uma instituição autocentrada e distante do evangelho de Jesus.

Os meios de comunicação e a imprensa, em geral, iam mostrando as atitudes de Francisco e seus pronunciamentos sobre temas tidos como tabu, até então ‘esquecidos debaixo do tapete’, embora o novo Papa os evidenciasse e ia punindo, severamente, chamando as vítimas, acolhendo-os e abrindo-lhes os olhos, tentando corrigi-los e agindo sobre bispos, padres e religiosos que davam contra testemunho cristão pelo mundo afora.

 Havia de tudo: pedofilia, abuso de menores, atitudes arcaicas conservadoras, peculato, fraude financeira e o Tribunal Penal do Vaticano, fazendo urgir a lei, até prendendo e condenando, a ponto de ser comparado com a famosa e histórica “Santa Inquisição”. Foi e continua sendo, um pontificado dificílimo.

 Francisco não escondia seu descontentamento com líderes políticos conservadores, bem como sua simpatia por administradores comprometidos com problemas, mudanças e soluções sociais: apoiou a causa palestina, o barco hospital na Amazônia, verdadeiro salva-vidas, enfim, convocou seis sínodos para ir pondo em dia, o Concílio Vaticano II, atualizando-o e renovando a Igreja. Seria impossível não ser criticado, mal entendido, infelizmente desrespeitado por uma sociedade tão conservadora e por políticos tão negacionistas.

 Nos meus dois comentários anteriores referi-me “ao calvário que tem vivido o Papa Francisco, devido aos maus cristãos que nada entenderam da renovação conciliar e sinodal” e aos maus usuários de redes sociais que o Leunam transcreveu no “Primeiro Plano” de seu Blog, lamentando:

 “Papa comunista tem que morrer”. “Espero que morra agonizando”. “Vou rezar para que ele morra logo” e outros absurdos que faz até vergonha ainda lembrar. No entanto eu disse ainda que “quem se expõe assim talvez ainda saiba que Quaresma é tempo de conversão e penitencia e que neste sábado, hoje, portanto, eu iria trazer a Mensagem do próprio Papa Francisco para esta Quaresma de 2025, na esperança de que, tantos maus batizados se sintam tocados, se convertam e se salvem. É o próprio Francisco quem vai convidá-los” sob o título: Caminhemos juntos na esperança e que eu vou mostrar agora. *

 (*Antes, uma explicação: toda mensagem, discurso, solenidade litúrgica e mesmo reflexão na Sala de Audiência, o Papa os prepara com antecedência. Oficialmente, ele não fala de improviso Esta Mensagem para a Quaresma de 2025 ele a escreveu aos 06/02/25. Hospitalizou-se aos 14/02 e, desde então, está no Hospital Gemelli, em Roma. A Secretaria de Estado publicou esta Mensagem aos 25/02, 11 dias depois de sua internação, mas ela é autentica. Ninguém a escreveu por ele).

  Dito isso, passemos à Mensagem do Papa:

 

“Queridos irmãos e irmãs! Nesta Quaresma, enriquecida pela graça do

Ano Jubilar, gostaria de oferecer algumas reflexões sobre o que significa

caminhar juntos na esperança e evidenciar os apelos à conversão que a

misericórdia de Deus dirige a todos nós, enquanto indivíduos e comunidades”.

 Pelo histórico do Papa Francisco, recordado acima, houve sustos, tabus, novidades, opção pelos pobres, rompimento com o clericalismo e com a falta de testemunho cristão, mas ele não desistiu da Missão que Jesus lhe confiara.

 Até nessa sua Mensagem pra viver esta Quaresma ele apela para a conversão e para a misericórdia de Deus, garantindo aos bons e maus cristãos, que ainda é Tempo de Mudança ou de conversão. Ainda é tempo de salvação. Até aos maus cristãos que o atacam, ele está dizendo que tem jeito: é juntar-se, unir-se aos demais, na esperança de serem todos “premiados”. Apesar dos pesares, não se sinta excluído. Vá em frente.

 Francisco continua insistindo: “Façamos esta viagem juntos. Caminhar juntos, ser sinodal, é esta a vocação da Igreja”.

Apesar de estarmos informados de 06 realizações de ‘sínodos’, somente dentro do Pontificado de Francisco, não tenhamos entendido ainda porque ele diz que “ser sinodal é vocação da Igreja”. É que, ‘syn+rodos’ significa = grupo na estrada ou na rodovia, isto é, um grupo que mostra o caminho, que coloca no rumo. Sínodo, na Igreja seria um grupo que inclui: Papa, Cardeais, Bispos, Teólogos, unidos na “retomada do caminho, da rodagem, da estrada inicial”.

 Associando a outras palavras portuguesas dá pra gente entender sua origem e significado: sindicato, síndico, sintaxe, síncope, síntese: um grupo, de uma mesma classe social, que a atualiza, relembra as normas e a faz andar.

 E o Santo Padre ainda nos adverte: Façamos este caminho juntos na esperança de uma promessa: esperança que não engana (Rm. 5,5); mensagem central deste Ano Santo. Que ela seja para nós o horizonte do caminho quaresmal rumo à vitória pascal”.

 É mais um apelo do Papa Francisco, à conversão; à esperança, à confiança em Deus e à Sua grande promessa: a vida eterna. Daí porque o seu convite é dirigido a todos: bons e maus. Aos justos e pecadores. Até àqueles e àquelas que tanto o incompreenderam, o magoaram ou até lhe desejaram a morte por se fecharem à sua orientação, ao seu contato com os pobres e ao seu apoio aos injustiçados e pecadores.

 Francisco, mesmo hospitalizado e com dificuldades para sobreviver, fisicamente, com quatro semanas de “calvário” não nos fala de derrotismo ou de desespero. O pouco que ainda fala e a imprensa nos vai retransmitindo é que está vivendo a esperança, relendo os acontecimentos da história, sempre impelido pelo compromisso com a justiça e desejando que ninguém seja deixado pra trás. Foi com fundamento nessa mesma fé do Papa Francisco que eu falei ali acima que “tinha esperança de que, tantos maus batizados se sentissem tocados, se convertessem e se salvassem”. E acrescentava: “é o próprio Francisco quem os vai convidar”. E eu arremato agora: “O que foi tão ofendido é quem vai colaborar com a salvação dos ofensores”. Não foi o que Jesus ensinou? “Pai, perdoai-lhes. Eles não sabem o que fazem” (Lc. 23,34).

 “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso” (Lc. 23,42). É a esperança do cristão que São Paulo, em sua carta I Tim 2,4 diz que “por ela todos os homens serão salvos”. A Salvação é, de fato, o que todos queremos. Nem sempre seguimos o esquema de Jesus: ir pregar, crer, batizar-se-receber sacramentos, salvar-se. No esquema de Jesus, salvar-se é a 5ª coisa. É só a que queremos. E agora?





sábado, 8 de março de 2025

COLUNA PRIMEIRO PLANO

 

EDUCAÇÃO COM PARTICIPAÇÃO, MUDOU A HISTÓRIA DO MUNICÍPIO

              Edição de 08 de março  

DIA DA MULHER

Pelas defesas dos indiciados pelo quase golpe de 8 de janeiro, aquilo é um grupo de velhinhas e velhinhos, com Bíblias na mão, passeando pela Praça dos Três Poderes. Então aquilo que se viu pela TV era o quê?

Será que aquele pessoal acampado em frente ao Quartel estava cansado do calor e foi apenas abrigar-se no ar condicionado dos três palácios?

Agora querem ser julgados apenas pelos juízes que eles mesmo indicarem. E dizem que eram apenas “velhinhas e velhinhos com a Bíblia na mão”. O inelegível diz que “era pessoal da esquerda”, mas não aponta um nome.

Nesta edição, ao final da coluna, mais um artigo da série MEMÓRIAS DA DITADURA, do médico João de Paula Monteiro Ferreira, grande liderança estudantil dos anos 60/70.

O Professor e Radialista Tupinambá Frota, depois de aposentado, deixou Sobral, sua grande paixão, e foi morar em Guaraciaba do Norte. Preferiu a Zona rural e está encantado com o que tem visto.

O que mais lhe tem chamado atenção é a capacidade dos agricultores. Todo o desenvolvimento da agricultura tem por base o nível intelectual da categoria.

O amigo Tupinambá tem percebido que a Educação dos trabalhadores é o que tem feito a diferença. Tudo é feito com base em estudos e planejamentos. Não é mais na base da intuição.

Ele acredita que a mudança se deveu ao cuidado maior com as escolas e, especialmente, com a elevação do nível dos Professores. Percebeu que as mudanças não surgiram agora, mas há uma história de mudança.

Toda a história do que aconteceu em Guaraciaba do Norte está na minha Dissertação de Mestrado, cujo título é EM EDUCAÇÃO, SEM PARTICIPAÇÃO NÃO HÁ MUDANÇA.

Fico muito feliz que o amigo Tupinambá tenha percebido as razões das mudanças. Hoje a nossa terra está bem diferente porque as pessoas foram crescendo em conhecimentos e os levaram para a prática.

A minha grande referência eram as bodegas do Mercado Público. Quando alguém da família começava a fazer curso superior, os efeitos se refletiam nas melhorias das bodegas. Observei isto desde o início.

A parceria com o Colégio Oriento com a UVA abriu muitas oportunidades de graduação e atraiu muitos estudantes da região. Os efeitos foram se manifestando na melhoria das residências e dos comércios.

Como percebe o amigo Tupinambá e diversas outras pessoas mais perspicazes, Guaraciaba do Norte tem este crescimento todo graças ao nível intelectual de sua população.

A grande vitória do filme AINDA ESTAMOS AQUI motivou a TVC a ouvir pessoas ligadas ao assunto, em entrevistas. Na sexta feira, no Espaço Bergson Gurjão, da UFC aconteceram duas entrevistas.

Uma foi com a Dra. Socorro França, Secretária de Direitos Humanos do Estado do Ceará. E a outra foi comigo, na condição de perseguido politico e Presidente da Comissão Especial Wanda Sidou.

Há uma coincidência entre mim e a Dra. Socorro França. Ela veio do Maranhão na equipe de Dom Delgado, Arcebispo de Fortaleza. E, na época, eu fui para o Maranhão pela perseguição da ditadura que aqui me aconteceu.

Dra. Socorro pertencia à JEC – Juventude Estudantil Católica e eu era Coordenador do Movimento de Educação de Base, instituição criada pela Igreja para Alfabetizar Adultos.

Uma coincidência histórica: Hoje estamos no Ceará, na mesma Secretaria, cuidando de Direitos Humanos. Passaram-se mais de 50 anos e continuamos “olhando na mesma direção” como diz o livro O Pequeno Príncipe, de Exupéry.

E foi em São Luís do Maranhão que, há 51 anos, no Dia da Mulher, Myrtes e eu nos casamos. Lá, residimos durante 20 bons anos. Fizemos muitos amigos. Criamos muitos laços que, ainda hoje, nos unem e se fortalecem.

Foram nossos padrinhos de casamento: Janete e José Maria Vieira de Sousa e Graça e Marcos Fernandes de Carvalho. Tornamo-nos, depois, compadres e comadres e grandes amigos.

Nos últimos anos temos ido a São Luiz, no período junino, para reencontrar amigos, compadres, comadres, afilhados e afilhadas e reviver as alegrias da época, em festas que só existem no Maranhão.

Memórias da ditadura

Tô contigo, caboclo!”                     Só podia ser 

o Bergson!

Dr. João de Paula Monteiro Ferreira

- Vamos estudantes bandidos, vamos estudantes bandidos!

Foi o que começaram a gritar presos comuns do Presídio do Ahú, em Curitiba, incentivando nosso time de futsal, naquele dia em que nossos adversários eram estudantes da Faculdade de Direito da PUC, convidados pelo Cabral, nosso companheiro de prisão.

Os que, costumeiramente, torciam por nossa equipe com um simples “vamos estudantes”, para fazer a distinção, acrescentaram aquele adjetivo que, para eles, era sinônimo de preso. E não eram poucos nossos torcedores. Tínhamos conquistado a simpatia deles por termos nos solidarizado com jogadores de um de seus times, colocados no castigo porque guardas do presídio os consideraram violentos em uma partida contra nós. Acontece que as botinadas foram mútuas. Quando a punição foi retirada por solicitação nossa ao diretor do presídio, demostrando -lhe que ela era injusta, muitos se tornaram nossos fãs.

Mas eles usavam também tratamentos conosco, no dizer de hoje, mais, politicamente, corretos como, por exemplo, na comemoração do Dia do Detento, quando, pelo serviço de som instalado no pátio, o preso que fazia o papel de locutor disse com voz empostada: “tenho a honra de registrar a presença dos nossos colegas subversivos.”

Os acontecimentos acima podem dar a impressão de que a vida carcerária ali era um mar de rosas. Bem ao contrário, a rotina do presídio era dura e mantida por uma disciplina rigorosa que punia a mais leve transgressão. O Dia do Detento era um evento anual, o direito a banho de sol, incluindo jogar futsal no pátio interno, era de somente uma hora por dia e as visitas de familiares, severamente, vigiadas, só ocorriam aos domingos.

Depois de um certo tempo da nossa prisão, começaram a chegar ao Ahú outros presos políticos que, invariavelmente, vinham com sinais de torturas. Com a consolidação do sistema de total negação do Estado Democrático de Direito instituído pelo AI-5, a tortura nos interrogatórios passara a ser regra. Neste sentido, o caso da estudante Janete, de 17 anos, foi um marco. Ela foi trazida ao Ahú com visíveis marcas de tortura em seu corpo franzino, sendo levada diversas vezes para novas sessões de maus tratos por agentes que não se sabia ao certo se eram do DOPS ou do exército. Esta questão, no entanto, mostrou-se irrelevante quando Aluízio Palmar, um dos presos políticos torturados em Curitiba e que esteve algum tempo conosco, esclareceu que a máquina de massacre montada ali depois do AI-5 tinha uma eficiente divisão de trabalho: oficiais do exército interrogavam os presos enquanto os agentes do DOPS os torturavam.

Um dia, quando aqueles agentes voltaram, mais uma vez, com a intenção de levar Janete, o diretor do Ahú lhes perguntou se assinariam um documento se responsabilizando por uma eventual rebelião no presídio, pois havia sido informado que os presos comuns tramavam isso “caso a menina fosse torturada novamente”. Desistiram. Os que tiveram aquela atitude solidária eram homens embrutecidos, acusados de praticar todo tipo de crime.

No que me diz respeito, os primeiros meses de prisão foram de muita tensão por conta da possibilidade de descoberta da minha verdadeira identidade, o que resultaria em sério agravamento da minha situação carcerária e penal. E ocorreram dois sustos. O primeiro, quando um agente penitenciário gritou na porta da nossa cela: “Iran Vieira Dias, comparecer à segurança”. Para nós, a palavra “segurança” era sinônimo de encrenca. Chegando lá, dois agentes da Polícia Federal disseram-me que precisavam tomar novamente as minhas impressões digitais pois não tinha sido possível ler as que tinham sido colhidas anteriormente. 

Foi um alívio, pois lembrei-me que, no dia da prisão, deliberadamente, eu movera lateralmente os dedos para borrá-las, com o intento de dificultar minha identificação. Eles refizeram a operação e eu repeti o movimento lateral dos dedos, Dias depois, o segundo susto: segurança de novo. E lá estavam os mesmos agentes querendo mais uma tomada das digitais. Desta vez, desisti da manobra que fizera, pois temi que ela acabasse despertando suspeitas. Os federais não voltaram mais.

Ao começar nosso julgamento na Auditoria da 5ª Região Militar, iniciou-se outra fase de preocupação com a minha identidade. Como eram publicadas fotos das audiências nos jornais, havia o temor de que eu fosse reconhecido por agentes da repressão de outros estados. Para evitar isso, foi montado um cordão de proteção visual, com os colegas de estatura mais alta em torno de mim. À minha frente, sempre ficava o Hélio Urnau, um descendente de alemães de quase dois metros de altura.  Eu sentava-me na última fileira do banco dos réus, resguardado dos flashes dos fotógrafos por uma solidária barreira humana.

A propósito, foi naquele lugar, em que eu ficava encostado em uma grade que nos separava do público, que um dia senti uma mão apertando meu ombro esquerdo, enquanto ouvia alguém sussurrar: “tô contigo, caboclo”. Aquela voz e aquele modo de tratar-me eram inconfundíveis. Só podia ser o Bergson. E era. Quando me virei, me deparei com o “grandão” (apelido dele entre os mais próximos), sorrindo. 

Passando por Curitiba, de volta do exitoso Congresso Regional do Rio Grande do Sul e sabendo da minha prisão, mesmo tendo também prisão preventiva decretada, ele resolveu fazer-me aquela visita temerária. Com sua costumeira coragem, quebrando todas as normas de segurança e usando outra identidade, Bergson burlou os controles da entrada naquele antro de repressão para prestar-me solidariedade. Apertando sua mão por cima da grade, só pude lhe dizer uma frase: vai embora logo daqui maluco.  Minutos depois, através do janelão que dava para uma praça, com o coração apertado, eu o vi distanciando-se, com o braço esquerdo erguido e o punho fechado. Este era o Bergson Gurjão Farias. 

Com cobertura da imprensa e presença de público, pode-se pensar que estávamos tendo um julgamento transparente e justo. Nada disso. O que acontecia ali era um jogo de cartas marcadas. Eis uma prova inconteste disso: O Conselho de Sentença da Auditoria, que negava todas as petições dos nossos advogados sobre os direitos constitucionais mais básicos, certa ocasião aprovou um requerimento de transferência para prisão domiciliar de Elisabeth Fortes e Judite Trindade, nossas colegas de prisão, fundamentado na inadequação de mantê-las em um presídio masculino.

Elas foram transferidas, mas, no dia seguinte, o major que era o presidente e os quatro tenentes que integravam aquele conselho foram destituídos e substituídos por ordem do comando do exército na região. As duas estudantes foram levadas novamente para o Ahú. Ficou claro que havia uma decisão dos altos escalões locais do exército de nos condenar a priori e à revelia de qualquer processo legal. O julgamento era uma encenação. Pouco tempo depois, a condenação veio, inexorável, para todos nós, com penas de quatro anos para uns e de dois para outros. Após apelação ao Superior Tribunal Militar, elas foram reduzidas, respectivamente, para um ano e meio e para um ano. Fiquei no segundo grupo.

Cumprido o ano de prisão, devolveram-me a certidão de nascimento e o título de eleitor com o nome Iran Vieira Dias que eu portava quando fui preso. Tomando todas as precauções, viajei para São Paulo, onde assumi meu cargo de diretor da UNE. Mas isto é outra história

(*) João de Paula Monteiro Ferreira, Médico, Consultor Empresarial, liderança estudantil,                                          preso pela ditadura no Congresso de Ibiúna, exilado no Chile e Alemanha.

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COLUNA PRIMEIRO PLANO

  LUIZIANE, A CAMINHO DO SENADO, SAI DO PT, MAS APOIARÁ LULA E ELMANO.                                        EDIÇÃO DE 04.04.26            ...