sábado, 29 de março de 2025

COLUNA PRIMEIRO PLANO

 

Cidades cearenses homenageiam mulheres    

Edição de 29 de março

Por razões técnicas não foi possível a nossa edição de 22 de março. No entanto, não deixaremos de dar destaque a fatos relevantes acontecidos na semana passada.

A propósito, nesta edição estamos publicando o artigo do Mons. Assis Rocha sobre a Campanha da Fraternidades para que os leitores não percam a sequencia dos Comentários da Semana.

Por motivos diferentes duas cidades cearenses: Guaraciaba do Norte e Pedra Branca homenagearam mulheres com serviços prestados à população.

O fato que abalou nossa Guaraciaba do Norte: foi o falecimento da Professora e Ex Primeira Dama Fátima Pontes Melo, viúva do Ex Prefeito e Ex deputado Estadual José Maria Melo, também falecido.

Deus escreve certo por linhas certíssimas. Fátima vivia e sobrevivia com um câncer. Deus a manteve viva para assistir a espetacular vitória do seu filho Cefas, eleito prefeito de nossa terra. Naquele dia aconteceu a nossa última conversa, em sua casa.

A multidão que compareceu ao sepultamento demonstrou o quanto a comunidade reconhecia o seu trabalho como Primeira Dama, Vereadora, Diretora de Escola e grande parceira de seu marido, grande líder político.

Em Pedra Branca, a Câmara Municipal prestou homenagens a duas Professoras conterrâneas na última sexta feira, 21 de março. Uma a Professora Ruth Cavalcante, criadora da Educação Biocêntrica e com longa história de serviços aos Ceará, ao Brasil e ao Mundo.

A outra foi a Professora Ivonete Braga de Sousa, Prefeita eleita em 2024, pelo Partido dos Trabalhadores. Nascida na zona rural do município, com vasta folha de serviços à Educação de Pedra Branca.

Ruth Cavalcante, na celebração dos 70 anos da Universidade Federal do Ceará, recebeu o título de Doutora Honoris Causa, a maior honraria da UFC, de onde foi expulsa na ditadura de 64.

O requerimento foi da Vereadora Maria Eunice Ribeiro de Lima para a solenidade que aconteceu no dia 21 de março, às 9 horas na Câmara de Vereadores, completamente lotada. Os ex-prefeitos estavam presentes.

A Vereadora proponente das homenagens fez um relato detalhado da história das homenageadas. A história da Professora Ruth despertou muita curiosidade, tanto por ter sido vítima da ditadura de 64, quanto pela sua contribuição mundial à Educação.

                          O DISCURSO DE RUTH CAVALCANTE                                                           

 Após as cerimonias na câmara Municipal de Pedra Branca, familiares e amigos se reuniram no Sítio Buenos Aires para a comemoração dos 70 anos do Engenheiro, Cantor, Músico e Compositor Joaquim Ernesto Cavalcante.

Muitos músicos de Fortaleza, que animaram, por muito tempo as noites do Cais Bar, fizeram questão de comparecer às homenagens ao amigo. 

Reencontrei o amigo Jurandir Frutuoso, hoje destacado gestor no Ministério da Saúde, em Brasília, onde está há mais de dez anos cuidando da saúde dos brasileiros, nas articulações com os Estados.

Na cidade de PEDRA BRANCA, a grande atração é o luxuosíssimo Consultório da Dra. Myrella Cavalcante, que abriu as portas para uma visita de familiares e amigos, na semana passada.

A comunicadora Sara Gois, âncora do Portal 247, escreveu um artigo sobre a decisão da Comissão de Anistia de avaliar o requerimento de Mariana Cavalcante Ferreira ser reconhecida como brasileira.

Mariana e filha de Ruth Cavalcante e João de Paula Monteiro Ferreira. Nasceu no exilio, Alemanha, onde os pais estavam exilados por causa da perseguição da ditadura.

No mesmo dia 25 de março, o ex-presidente que negou o reconhecimento a Mariana será tornado réu por tentar tomar o poder de um governo, legitimamente, eleito.  Os caminhos da democracia são mais limpos.

A propósito, para quem duvida que houve ditadura, deve ler os interessantes artigos de João de Paula Monteiro Ferreira publicados abaixo desta coluna. São Memórias da Ditadura.

Estou lendo um livro de um autor, atualmente, famoso e que eu tinha muita curiosidade e interesse em ler. Infelizmente, observo que há muitos textos incompreensíveis e, perfeitamente, dispensáveis.

Cada vez mais me convenço de que o que se escreve é para ser lido e entendido facilmente. Parece-me um exibicionismo desnecessário escrever de forma complicada.

Em 1963, no Recife, ao fazer um curso de jornalismo, aprendi que a missão do jornalista é “dizer coisas cada vez mais complicadas, de forma cada vez mais simples, de modo a atingir cada vez mais gente”. Concordo e tento seguir.

Com a aprovação do Projeto que isentará de Imposto de Renda quem ganha até cinco mil reais, será muito importante para a maioria dos Professores que terão um pouco mais de dinheiro ao final de cada mês.

Esta medida do Presidente Lula é uma demonstração concreta de alguém que pensa nos que mais trabalham e mais precisam.

A OAB indicou os nomes de Dr. Marcelo Uchoa, Titular, e dra. Stella Maris Nogueira Pacheco para representarem aquela instituição na Comissão Especial Wanda Sidou - ANISTIA.

                       
                                                                                                                                                                                  

Memórias da Ditadura

CONSULADOS CEARENSES EM SAMPA

 
João de Paula Monteiro Ferreira

- Bem-vindo à Paulicéia, caboclo.

Foi o que me disse o Bergson, abrindo um sorriso largo e os braços compridos para um abraço apertado e sem pressa quando, na segunda quinzena de dezembro de 1969, cheguei de Curitiba após um ano no Presídio do Ahú. Depois de algumas horas de conversa em um café do centro, atualizando as notícias e matando as saudades, ele levou-me a um lugar que uma irmã da Ruth, a Neuma, mestranda no Curso de Letras da USP, havia conseguido para me hospedar por alguns dias.  Era um apartamento no Butantã, onde morava com um casal de amigos dela, a Maninha e o Eliomar - professor de física da UFC, que fazia um doutorado na USP. Naquela espécie de consulado, os dois acolhiam solidariamente universitários cearenses necessitados de abrigo, fosse para estudar ou para escapar dos agentes da ditadura.

Tempos depois, conheci um consulado semelhante que reunia cearenses ligados à música, passantes ou residentes em São Paulo: era o apartamento da Téti e do Rodger. Quem me deu a dica deste outro serviço consular cearense foi o Belchior, que tinha sido meu colega de turma no Colégio Sobralense – onde nunca o vi tirar uma nota que não fosse 10 - e contemporâneo na Faculdade de Medicina – três anos atrás de mim, devido a uma temporada que ele passara em um mosteiro. Eu o encontrara por acaso em uma viagem de ônibus do Rio para São Paulo. O Belchior morava em um apartamento no mesmo andar da Téti e do Rodger, em um prédio da Rua Oscar Freire, no bairro de Pinheiros. Numa das visitas furtivas que fiz àquele recanto acolhedor, a Téti pediu-me para examinar um dos filhos que estava com febre. Felizmente, meus parcos conhecimentos de quintanista de medicina foram suficientes para diagnosticar uma daquelas viroses banais que ocorrem na primeira infância e que não requerem mais que uma boa hidratação e algum antipirético. Aquele bebezinho febril é o hoje Doutor Pedro Rogério, professor da UFC, pesquisador da MPB, excepcional conhecedor de música na teoria e na prática, pois ensina, compõe, toca, canta e é parceiro musical do pai em lindas canções.

Mesmo cercado de afeto e cuidados, minha estadia no apartamento da Maninha e do Eliomar teve que ser curta, devido ao grande trânsito de pessoas, o que colocava em risco minha segurança e, em consequência, a de todos os que ali residiam. Dali fui levado pelo Bergson a um encontro com o Genoíno, que me convidou para morar com ele em um apartamento que dividia com o Hélio Nóbrega. O Hélio era um estudante de engenharia da UFC, que havia sido preso junto com a Nadja Oliveira, estudante de Pedagogia, em uma manifestação em Fortaleza pela libertação dos participantes do Congresso da UNE em Ibiúna. Os dois foram soltos, mas, depois condenados à revelia e tiveram que viver clandestinamente em São Paulo.

O Genoíno que me substituíra na UNE porque eu estava preso quando fui eleito, foi quem me reintroduziu no movimento estudantil. Ele colocou-me a par da difícil situação em que se encontrava o movimento em todo o país por conta do recrudescimento da repressão a partir da decretação do AI-5 e me informou dos desfalques na diretoria da UNE, que começaram pela prisão e tortura do Jean Marc, o presidente, mantido em um presídio da Marinha desde setembro daquele ano.

Fiquei triste por não encontrar em São Paulo uma amiga muito querida, a paulistana Helenira Rezende, eleita comigo para a diretoria da UNE. Naquele momento, ela estava atuando em Salvador e Fortaleza. A Helenira também tinha prisão preventiva decretada por participação no Congresso de Ibiúna e, como eu, fora presa no início do Congresso Regional do Paraná, mas, diferentemente de mim, conseguira escapar daquela arapuca.

Foi o Genoíno quem organizou minha primeira atividade ligada à UNE, ao me levar para uma reunião na sede do CAOC - Centro Acadêmico Oswaldo Cruz, da Faculdade de Medicina da USP, que se vê na foto abaixo. 

Percebia-se ali que ainda havia disposição de luta por parte das lideranças estudantis, mas que houvera uma grande redução nas condições de mobilização para ações de protestos públicos. A ditadura desencadeara uma nova onda de fechamento de entidades estudantis, prendera muitos de seus dirigentes e proibira mais de duas centenas de líderes de se matricularem em suas faculdades por meio do Decreto-Lei 477. A repressão desenfreada desfalcava as fileiras dos que lutavam contra a ditadura e causava temor entre os que não eram diretamente atingidos, tornando tudo muito difícil para a resistência ao arbítrio.

O clima de apreensão, no entanto, não nos imobilizava, nem tirava nossa alegria de viver. Resistíamos como podíamos e aproveitávamos as poucas oportunidades que surgiam para usufruirmos de alguns momentos de prazer. Foi assim que, desconsiderando as mais elementares regras de segurança, Genoíno, Lourdinha (sua então namorada), o Hélio, a Ruth e eu, fomos passar um fim de semana na baixada santista. A Ruth e eu tínhamos namorado quando éramos colegas de diretoria no DCE da UFC e havíamos reatado o namoro quando nos encontramos em São Paulo, onde ela passara a viver após sua fuga da prisão em Fortaleza; foi a Ruth quem teve a ideia e tomou as providências para nos hospedarmos em Santos no apartamento da Zimar, que fora casada com seu irmão, Álvaro Lins, então deputado federal pelo MDB. Foram dois dias inesquecíveis pelo calor da recepção que tivemos e pela oportunidade de matar a saudade de banho de mar. A teimosia em não deixar a repressão nos roubar as possibilidades de curtir a vida, manifestou-se também quando o Genoíno, o Hélio e eu, vendo uma multidão passar na rua do nosso prédio comemorando a vitória da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1970, resolvemos nos meter no meio dela e seguir para o Vale do Anhangabaú berrando é tricampeão, é tricampeão, é tricampeão.

O período de convivência com o Genoíno em São Paulo foi curto. Certo dia de julho de 1970, ele despediu-se de mim, dizendo que tinha aceitado um convite da direção do PCdoB para travar a luta contra a ditadura no campo. Pouco antes o Bergson dissera-me a mesma coisa. Nenhum dos dois disse-me para onde ia e nem era conveniente dizer por razões de segurança. Não muito tempo depois, por meio do Ozéas Duarte, ex-estudante de direito da UFC e militante destacado no movimento estudantil do Ceará que se tornara dirigente do PCdoB, recebi um convite semelhante. Não o aceitei, respondendo que já passara quase a metade do meu mandato de diretor da UNE na prisão e que meu compromisso naquele momento era concluí-lo.

Depois da ida do Genoíno para o campo, fiquei sem conexão com a diretoria da UNE, que se vira obrigada a atuar nas mais severas condições de clandestinidade. Os contatos que eu tinha com as lideranças do movimento estudantil paulista, construídos no período em que eu participava ali de atividades da UNE como presidente do DCE da UFC, também tinham sido desfeitos. Quem não estava preso ou exilado, estava na clandestinidade. Os centros de efervescência do movimento estudantil paulistano em 1968, como a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, na Rua Maria Antônia, o CRUSP – Centro Residencial da USP e as faculdades mais ativas da PUC pareciam sitiados, sob constante e feroz vigilância policial.

Este era o cenário em São Paulo, quando o Ozéas, em nome da direção do PCdoB, convidou-me pela segunda vez para deslocar-me para o campo. Embora, por diversas circunstâncias, não tivesse sido formalizada minha entrada na diretoria da UNE, considerei haver cumprido meu compromisso como diretor eleito da entidade e honrando a confiança dos que me elegeram. Lembrando-me da minha mãe, mulher de poucas letras e muita sabedoria, de quem ouvi muitas vezes a frase “quem fez o que podia fazer, fez tudo”, aceitei, então, aquele convite. O desdobramento desta decisão é assunto para outra historieta.

          PARA OS QUE TENTARAM DESTRUIR BRASÍLIA  EM 8 DE JANEIRO






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