sábado, 23 de agosto de 2025

COLUNA PRIMEIRO PLANO

 

DOM HELDER CÂMARA   A CAMINHO DOS ALTARES

EDIÇÃO DE 23 de agosto

De 13 a 17, estivemos em Guaraciaba do Norte, participando da tradicional Festa de Agosto, momento em que inúmeros conterrâneos que moram fora, retornam à cidade.

São dias de reencontros e muitos abraços e histórias. Desde criança, aquele período está em nossas mentes. No passado, marcado pela tradição. No presente, com muitas atrações.

Neste ano, com uma nova gestão municipal, aconteceram muitas inovações como a população esperava. Senti a alegria nas diversas manifestações do povo.

Na Igreja, tudo muito bem organizado e com muita participação da comunidade. Os jovens marcaram presença em todos os atos litúrgicos, com uma disciplina incrível.

A cidade foi, cuidadosamente, preparada para aquele momento. Chamaram atenção a limpeza, a segurança e a iluminação. Percebeu-se que houve planejamento para tudo.

Escutamos elogios ao desempenho do prefeito Cefas Melo e à sua presença em todos os momentos da festa. Alto índice de satisfação com a gestão municipal. O que não era comum, anteriormente.

O retorno das barracas para a Praça do Guaracy era um desejo da população. Ali o local é mais aconchegante e facilita para quem mora nos sítios próximos. A Praça da Rodoviária já fica distante.

Durante ou poucos dias em Guaraciaba do Norte, tive a oportunidade reencontrar muitas pessoas amigas. Dentre elas Tainá Macedo, Saxofonista da Orquestra Estrelas da Serra, de Croatá.

Deu-me a informação que agora está na função de Maestrina, substituindo, temporariamente, o Maestro Hélio Junior que criou a Orquestra com Silvério Oliveira.

Outra boa surpresa foi reencontrar a Professora Edna Viana com quem trabalhei à época em que estive ocupando a função de Secretário de Educação.

O Radialista Tupinambá Frota, elegeu a nossa Guaraciaba do Norte para morar. E está feliz no sítio Cruz das Almas. Não perde o contato com o rádio sobralense. Está montando uma rádio on line.

Recebi da cunhada e comadre Aparecida Marques um grande presente: o clarinete que já foi do meu pai e que estava com o seu neto clarinetista Leildo Filho.

Tive a oportunidade de reencontrar os primos Raimundo Luiz, sommelier famoso em Brasília, Raimundo Neto, empresário em Croatá e de conhecer a Professora Sidênia, do MEG PIRES.

Neste sábado, na Fazenda Vitória, em Amanaiara, será comemorado o aniversário do sobrinho Gabriel Lima, ganhador de Certificado de Honra ao Mérito pelo seu excelente desempenho na Escola Marina Soares. É filho da Sobrinha Kelly Lima.

Fico impressionado como certas pessoas de algum destaque, não conseguem falar sem usar palavrões. Possuem vocabulário muito limitado. Até um pretenso pregador da Bíblia abusa de palavrões inconvenientes,

Tenho a impressão de que os Estados Unidos ainda pedirão desculpas ao Brasil. As autoridades do país ainda vão descobrir que estão sendo enganadas. Aqui não vivemos em ditadura. Estamos em plena democracia.

No artigo abaixo, João de Paula nos fala sobre as qualidades sui generis de Claudio Pereira, um anfitrião de características, extraordinariamente, humanas.

No comentário da Semana, o Mons. Assis Rocha escreve sobre nosso conterrâneo Dom Helder Câmara que me conferiu a Tonsura, no Recife. Já a caminho dos altares, com processo de canonização.

Em seus tempos estudando na Europa, Mons. Assis Rocha trabalhou de perto com Dom Helder, tendo até que o substituir numa Conferencia, cabendo-lhe ler o texto da palestra.

Ontem à noite, em nosso tradicional e particular local de festas, festejamos o aniversário da querida amiga Rosiná Furtado Soares, casada com o Paulinho. Ambos conterrâneos de Guaraciaba do Norte

O Jornalista Júnior Ximenes publicou, em seu Facebook, uma interessante entrevista com o artista conhecido por Zé Milton, um mágico que se destaca na zona norte do Ceará.

Nas suas apresentações que alegram a todos, tem o poder de agregar muitos outros artistas dos locais em que se exibe. É um grande animador para aniversários de crianças. Zé Milton é de Barra dos Soteros, em Croatá.


DE VOLTA DO EXILIO

DEMOCRACIA, JUSTIÇA SOCIAL E “JOIE DE VIVRE”

                                                                                                               João de Paula Monteiro Ferreira (*)

- A nossa Bastilha hoje é ...

          Era o que gritava o Cláudio Pereira, em certo momento da festa que ele realizava todo 14 de julho, em sua casa azul de bolinhas brancas, pertinho do Bar do Anísio, em um dos recantos mais bonitos da Avenida Beira Mar de Fortaleza. Em seguida, uma bela convidada, escolhida, secretamente, por ele, era delicadamente “derrubada”, deslizando suavemente, da cadeira em que estava sentada, sob vivas e aplausos da numerosa plateia aglomerada no jardim e na calçada., Era uma encenação no estilo do Chacrinha da histórica Queda da Bastilha, deflagradora da Revolução Francesa, comemorada tão originalmente por aquele cearense apaixonado pela França e profundamente identificado com os valores da liberdade, da igualdade e a da fraternidade, bandeiras principais do movimento revolucionário de 1789.

          Foi naquela famosa casa que a Ruth e eu recebemos a mais calorosa e duradoura acolhida em Fortaleza, ficando atrás apenas das ofertadas pelas nossas famílias. Nossa primeira participação em uma daquelas festas de fins de semana prolongados, foi em uma ocasião em que a faixa comunicadora da atração de cada dia, exibia o título SARAPATEL FRESCO. Anúncios ali podiam ser do ENCOPA – Encontro dos Comedores de Panelada ou de outras iguarias como buchada, feijoada, rabada, ou, ainda, de um dos muitos eventos como a Queda da Bastilha, a Confraternização dos Motoristas, o lançamento da Banda Papacu (para fazer concorrência à do Periquito da Madame, criada pelo Mincharia, outro iconoclasta cearense), Festa do Maior Abandonado, Eleição da Garota Cultural e do Míster Motorista, estas duas últimas parodiando os concursos de misses.

          O carinho com que o Cláudio nos recebeu foi muito marcante, mas não era uma exceção. Caracterizava seu modo de relacionar-se com as pessoas. Ele hospedava frequentemente viajantes do Brasil e do mundo. A propósito, não esqueço de um fato ocorrido comigo, quando fiz um curso no Japão; terminada a apresentação dos participantes, o japonês que fizera a tradução, aproximou-se de mim e me perguntou baixinho: “conhece o Cláudio Pereira?” Vendo minha cara de espanto, esclareceu que quando era estudante, fizera uma viagem como mochileiro pelo Nordeste do Brasil, tendo se hospedado por alguns dias na casa azul de bolas brancas.

          Poucos dias depois da nossa chegada da acolhedora, mas circunspecta, Alemanha, para a Ruth e para mim era encantador aquele ambiente efusivo, irreverente, transbordante de alegria, frequentado por pessoas das mais diversas posições político-ideológicas, que tinham no afeto pelo Cláudio  seu ponto de conexão; em outras palavras, a fraternidade é que dava liga àquele grupo heterogêneo em aspectos econômicos, sociais e culturais, formado por estudantes, professores, desempregados, empresários, motoristas, jornalistas, parlamentares, governantes, socialites, artistas, intelectuais, vendedores ambulantes etc. Por mais tolerante que fosse o Pereira, sua casa não atraía antidemocratas que, aliás, àquela época, eram meio enrustidos, por vergonha dos crimes recentes e do fracasso econômico da ditadura militar agonizante. Em paralelo, o Cláudio praticava permanentemente o princípio da igualdade, tratando todos sem diferenciação, a começar com os que lhe prestavam serviços. A Confraternização dos Motoristas, realizada anualmente, era o ponto alto de expressão do modo digno como ele se relacionava com aqueles profissionais tão importantes para sua mobilidade; graças àqueles motoristas, ele maratonava os mais charmosos bares da cidade em uma só noite, sentado em sua cadeira de rodas, apelidada de “A Cadeira Voadora”, pelo colunista Lúcio Brasileiro, um dos muitos jornalistas que, apesar da sobrevivência de uma censura/autocensura mais sutil do que a da época do AI-5, repercutiam nos meios de comunicação do Ceará as manifestações que ocorriam naquele espaço libertário.

           No meu modo de ver, o que guiava, de fato, as ações do Cláudio no cotidiano, era a tríade de princípios da Revolução Francesa, mesmo sendo ele admirador declarado de alguns temas da utopia comunista e tendo militado no PCB. Prova disso, é que depois de algumas doses de Cuba Libre, era frequente ele levantar os braços com os indicadores de cada mão em riste e, parodiando um conhecido jingle do Sílvio Santos, cantarolar: “lá, lá, lá, lá, lá, lá, o comunismo vem aí”. O que não lhe impedia de, algumas vezes, emendar: “pena que o comunismo acabou antes de chegar aos pobres, como diz o Augusto Pontes”. Quem não conhecesse sua história, presenciando aquela brincadeira, talvez tivesse dificuldade de imaginar o quanto ele sofrera nas mãos dos carrascos da ditadura, a pretexto daquelas ideias. 

            Certo dia, chegou à acolhedora casa azul de bolinhas brancas uma linda francesa, que passou a fazer parte da vida do Cláudio até quando ele exalou o último suspiro. A partir da inclusão da Martine em sua existência, a alegria de viver, que sempre foi a fonte quase inesgotável de energia para o Cláudio, mereceu ser chamada também de “joie de vivre”. A história deste amor está belamente contada no Cherrizinho, livro em que a escritora Martine Kunz descreve o que chamo de processo de fusão de partes de duas pessoas e de duas culturas, resguardando suas respectivas soberanias.

          Para a Ruth e para mim, reencontrar o Cláudio Pereira depois de uma separação forçada de 11 anos, era a retomada de uma intensa relação de companheirismo exercida na luta estudantil contra um regime opressivo. As suas contribuições a essa luta no terreno da cultura e da comunicação nos vinham constantemente à memória. Não tínhamos como esquecer o GRUTA – Grupo Universitário de Teatro e Arte, criado por ele e o trabalho realizado ali em parceria com o Augusto Pontes, que projetou muitos universitários cearenses no cenário local e nacional, tanto na música como nas artes cênicas; recordávamos também das instigantes excursões culturais organizadas pelo Pereira com destinos ao interior do Ceará, a cidades de outros estados e a países sul-americanos. Inesquecível igualmente era o BISU – Boletim Informativo Semanal Universitário, concebido, redigido, impresso e distribuído por ele nos jantares do Restaurante Universitário, não sendo rara a cobertura de uma passeata reprimida pela polícia na manhã do mesmo dia da sua publicação. Já o impressionante trabalho do Cláudio como animador e empreendedor cultural, incluindo suas atividades como Presidente da Fundação Cultural de Fortaleza na gestão da Maria Luíza na prefeitura e que seguiu ao longo de vários mandatos de prefeitos de distintas posições político-ideológicas, é assunto que só cabe em um livro e não em uma historieta como essa aqui. 

         Tendo contrariado prognósticos médicos sombrios após um grave acidente de carro e superado várias sequelas, em abril de 2010, o Cláudio teve que ser internado em uma UTI com um quadro clínico de muita gravidade. Apesar de rigorosas restrições, devido à minha condição de médico, consegui visitá-lo. Com a voz bem fraquinha, ele sussurrou: “canta aquela musiquinha da Mundita”. Com a garganta quase travada, não foi fácil cantarolar a paródia que ele adorava sobre uma paixão não correspondida de uma moça de Crateús por um vereador da cidade.

          Poucos dias depois, em um trem que saíra de Berlim com destino a Praga, meu celular tocou. Era o hoje bem-sucedido empresário Paulo Roberto, ex-motorista-auxiliar do Cláudio, comunicando-me a morte daquele querido amigo. Com o aconchego da Maurícia, minha atual mulher, das minhas filhas Mariana, Marina e Maíra e dos meus genros Nicola e Nonato, na cabine daquele trem, fui sendo consolado da imensa dor provocada pela perda de uma pessoa com quem mantivera profundos laços de companheirismo e amizade por quase meio século. 

          A casa azul de bolinhas brancas foi finalmente vencida pelo assédio implacável da especulação imobiliária. Martine e Cláudio passaram a morar por um período no bairro do Castelo Encantado, que faz jus a esse nome ao oferecer uma das mais belas vistas naturais do litoral de Fortaleza. Dali, o casal foi para uma casa na Praia do Futuro. Naquele novo espaço, a Martine conseguiu consolidar a mudança que, com habilidade e energia, vinha fazendo, gradualmente, naquela mistura de albergue juvenil com clube suburbano que encontrara na Beira Mar, transformando-a em um lar aconchegante, onde duas pessoas apaixonadas pudessem desfrutar daquele grau mínimo de privacidade que todo amor requer. A ordem estabelecida foi bem dosada, de modo que a alegria de acolher amigos continuou. Ao invés de serem recebidas em um jardim (inexistente), como na Avenida Beira Mar, eles passaram a ser festejados em um magnífico quintal, todo arborizado e de frente para o mar, em dias marcados com antecedência razoável. É neste ninho, onde a Martine e o Cláudio viveram amorosamente até maio de 2010, que ela ainda mora, curtindo o que construíram juntos e cultivando carinhosamente a memória dele.

(*) Dr. João de Paula Monteiro Ferreira, de Crateús, Médico e Consultor Empresarial, importante liderança universitária no tempo da ditadura de 64.

Estes nossos livros estão na Livraria LEITURA, no Shopping DEL PASEO

O COMENTÁRIO DA SEMANA

 

“Padre e egoísmo nunca podem andar juntos”.

Desde a 2ª quinzena do Mês de Julho e nessas 04 semanas deste Mês de Agosto, tenho dedicado meus ‘Comentários’ a responder perguntas, que me são formuladas por um assíduo leitor, pessoalmente, ainda meu desconhecido.

            Pelo meu costume antigo de - em Programas de Rádio, ao vivo - colocar o telefone à disposição dos ouvintes para perguntarem o que quisessem, aceitei que o Dr. Mariano de Freitas – 450 km distante de mim – colocasse sua pergunta e eu iria tentar responder, mesmo sem a resposta instantânea.  Com as dificuldades na comunicação, até agora está dando certo, além de curioso.

             Faz 15 dias, ao encerrar meu Comentário do dia 09, eu dizia que, alguns políticos citavam um princípio “Joanino” - isto é, do capítulo 8, versículo 32, do 4º evangelho - só da boca pra fora: “conhecereis a verdade e ela vos libertará”. E acrescentava: ‘podemos voltar a este tema’?

            No sábado passado, eu encerrei com mais uma advertência: “é claro que a Igreja é composta de homens, como as demais instituições. Têm todos eles um fio condutor, uma busca de unidade, um desejo de governar e de ser governado, respeitando as hierarquias, com revisões sistemáticas das ações, vendo, julgando e agindo”? Com isto eu questionava a diferença dos poderes.   no mos voltar a este temaerdadem, aceitei

             Lá no início desta nova fase de Comentários – no dia 26 de julho - ao aceitar a provocação do meu novo interlocutor, eu citei, rapidamente, o jovem Pe. Helder Câmara (1936); pouco depois foi convidado a ser o Secretário da Arquidiocese do Rio de Janeiro, até 1952, quando se tornou seu bispo auxiliar.  Padre Conciliar do Vaticano II (1962 a 1965), fundador da CNBB (1963), Arcebispo de Olinda e Recife (1964) e, daí em diante, peregrino pelo mundo, pelo menos, duas vezes por ano, em consonância com o Papa, para divulgar, a convite, o resultado do Concílio Ecumênico de Comunhão e Participação. É sobre este Monstro Sagrado, que quero discorrer agora, como um dos vários exemplos concretos da Igreja Católica, tão criticado por falsos patriotas.

            Nasceu em Fortaleza – CE, aos 07 de fevereiro de 1909 e morreu em Recife – PE, aos 27 de Agosto de 1999, com mais de 90 anos, bem vividos, de consagração e dedicação ao bem, à verdade e ao combate por uma sociedade justa, solidária e de amor, preferencialmente, pelos pobres.

            Teve uma vida normal de criança católica comum: batizado, crismado, 1ª Eucaristia e já demonstrava interesse em entrar no Seminário Menor de Fortaleza. Nessa ocasião, seu pai, Sr. João Câmara, guarda-livros de firmas comerciais e meio sem religião, disse-lhe uma frase que ele guardou pra toda a vida: “meu filho, você sabe o que é ser padre? Padre e egoísmo nunca podem andar juntos. O padre tem que se gastar; deixar-se devorar”

            Sem esquecer esta máxima, o seminarista, o Padre, o secretário e bispo auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro, o Arcebispo de Olinda e Recife, o Padre Conciliar do Vaticano II, o líder do Movimento Operário, do departamento de Educação, da Teologia da Libertação, das Comunidades Eclesiais de Base, da divulgação Conciliar da Comunhão e Participação, das Conferencias Episcopais, Conselhos e Comissões, dentro e fora do Brasil, de tal maneira que, não havia uma necessidade ou solicitação da Santa Sé que o procurasse, pedindo-lhe a colaboração, que ele não se lembrasse da advertência do seu pai: “meu filho, Padre e egoísmo nunca podem andar juntos. O Padre tem que se gastar; deixar-se devorar”. Falo, por conhecimento de causa. Convivi, muito de perto, com ele e o tenho como uma das grandes referencias da Igreja. Não me canso de falar sobre Dom Helder e quero aproveitar mais esta chance.

            Durante meus 05 anos, em Roma, entre idas e vindas (1972-1982) tinha encontros com ele na Itália ou em países vizinhos, por ocasião de suas visitas.

            Certa vez, em Milão, com Dom Helder, participei de uma caminhada com 500 mil jovens, onde ele desenvolveu o tema: “todo homem é o meu irmão”. A Juventude o aplaudiu, delirantemente. Nem preciso dizer da minha felicidade.

            Em outra ocasião, em Atenas, Capital da Grécia, berço da democracia, fui ver Dom Helder, debatendo com outros pensadores, políticos, estadistas e intelectuais sobre o tema: “há possibilidade de democracia hoje”? Lá estava ele dando sua mensagem e colaboração ao mundo “sem fronteiras”, mais unido e mais saudável onde todos pudéssemos viver como irmãos.

            Quantas vezes eu o ouvi e vi, em redes de televisão europeia – algumas entrevistas, marcadas por mim – ou se pronunciando em auditório lotado, como em Castelamare di Stabia, perto de Napoli, com voz forte, corajosa, opondo-se a “ditaduras de esquerda ou de direita, como nos hediondos tempos de Stalin e de Hitler” nem sempre com o assentimento de todos.

            Em seu pastoreio em Olinda e Recife deu vida nova àquela Igreja local, aproximando-se da vida do povo. Viajava, constantemente, ao exterior fazendo palestras em todos os continentes. Recebeu 32 títulos de Doctor Honoris Causa, mais de 54 prêmios e honrarias. Fez parte de mais 32 organizações nacionais e internacionais. Deixou muitos livros, originalmente, escritos em português ou em outras línguas, traduzidos pelo mundo afora.

            De 1970 a 1973 foi candidatíssimo ao Prêmio Nobel da Paz. A ditadura o boicotou. É bom que todos saibam: àquela época foram convocados os diretores e presidentes de todas as empresas escandinavas no Brasil – Volvo, Scania Vabis, Ericson, Facit, Nokia e outras de menor porte – e lhes foi solicitado que interviessem na Fundação Nobel para evitar a concessão do seu prêmio a Dom Helder Câmara. Todos lamentaram não poder intervir no caso, ao que o oficial general que presidia a reunião ameaçou: ‘se os senhores não intervierem com firmeza e D. Helder chegar a receber o Prêmio Nobel da Paz, então as suas empresas no Brasil não poderão remeter um centavo de lucros para as respectivas matrizes’. Tinha falado a mão de ferro do Gal. Médici. E o castigo caiu sobre um inocente. E assim, aconteceram muitos. Inumeráveis.

            A um repórter - impressionado com o peso das injustiças praticadas contra Dom Helder e como ele convivia com isso – ele respondeu: “para mim é muito simples compreender e viver esses acontecimentos. Em tudo isso, procuramos sentir nossa ‘universalidade’ de católicos. Deus é criador e Pai de todos”. Como eu já disse em Comentário anterior, é muita matéria para colocar-se em tão pouco espaço. Dom Helder, por si só, é uma Enciclopédia. Vou terminar, falando, resumidamente, do seu processo de Canonização

            Aos 27/08/2021 – após 22 anos de sua morte e de estudos e pesquisas a respeito de sua vida e sua missão aqui na terra – houve uma Concelebração festiva na Igreja da Sé, em Olinda, tendo à frente, representantes da Hierarquia Eclesiástica pra apresentá-lo como Servo de Deus e Venerável mediante vasta Documentação. Toda ela seria guardada em cofre de segurança, conduzida por representante do Vaticano até o Dicastério para a causa dos Santos onde serão dados, os passos finais de estudos, provas científicas e milagres que levem à declaração de santidade ou à Canonização para toda a Igreja. É nesta fase que se encontra o processo de D. Helder. Já podemos invocá-lo, pedir que interceda a Deus, por nós e, quem sabe, até servir-lhe de prova de santidade. Certamente, o Deus em quem D. Helder sempre confiou, o quer + perto dEle.

BORDADOS PEDAGÓGICGOS DA PROFESSORA NAZARÉ ANTERO







sábado, 16 de agosto de 2025

O COMENTÁRIO DA SEMANA

 

O QUE IMPORTA É TER FÉ EM CRISTO VIVO!

Na ânsia de dar respostas a meu novo desafiante, Dr. Mariano Freitas - distante de mim, cerca de 450 km, lá em Tauá, região dos Inhamuns, limitando com o Piauí, sem impressora que me possa copiar - estou confiando que ele esteja seguindo-me, ao menos, por este blog, e já o tenha feito nessa semana.

            Meu nobre interlocutor é super ocupado e muito preocupado com suas pacientes e não dispõe de uma impressora que possa copiar suas mensagens e terá que buscar fora, esses serviços “quando tiver tempo”.

            Superadas tais dificuldades estamos administrando nossa comunicação, de tal modo que, pouco a pouco, vamo-nos entendendo. De qualquer maneira, sua curiosidade não é tão difícil de ser esclarecida: uma coisa é o Estado, sua administração política, os interesses humanos, a vaidade enaltecida por muitos e outra coisa é a Igreja: seus objetivos, sua finalidade no meio do povo, seus ensinamentos, sua doutrinação, mesmo política, seu compromisso social, sua vasta literatura ou doutrinação catequética que nos leva todos, a entender, que somos instituições que pensamos e agimos, de modos, totalmente, diferentes.

            Desde Pedro, o 1º Papa, até Leão XIV, o 267º Papa e os Papas que se seguirem, as palavras do fundador, Jesus, são as mesmas: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja e nem a morte poderá vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino do Céu; o que proibires na terra será proibido no céu, e o que permitires na terra será permitido no céu” (Mt.16,18-19).

            Nestes poucos comentários feitos, ultimamente, tentando ‘responder às perguntas” ou curiosidades do estudioso sócio-político, Dr. Mariano, já deve ter dado para entender que, em 500 anos de história política do Brasil e em quase 2.000 anos de existência da Igreja no mundo, há uma diferença enorme entre a proposta evangelizadora da Igreja e os oportunismos políticos, pessoais, por pura vaidade, dos homens que se candidatam a administrar a ‘res publica’.

            É essa diferença entre uma vontade, simplesmente humana e um poder, profundamente divino - pois tem até o comando da 3ª Pessoa da SS Trindade - que está toda a dinâmica dessas duas forças.  Claro! Confiamos na de Deus!

            Todavia, eu encerrava o meu comentário de sábado passado, afirmando que ‘a democracia brasileira foi sempre entrecortada por fatos antidemocráticos em toda a sua história... que culminou com a renúncia de Jânio... a posse de seu Vice, Jango, que foi golpeado pelos militares por 21  anos, foi fragilizando e capengando até hoje, maquiando a Democracia’. Meu Deus! Estamos felizes? Os Três Poderes da República estão merecendo a confiança da maioria? As aferições feitas por nossos órgãos de pesquisas têm sido confiáveis?

            Sem querer “puxar brasa para a nossa sardinha” não terá sido a Igreja, presente em todos os momentos, com a sua Doutrina Social, suas Encíclicas, sua Ação Católica especializada, buscando o bem comum, com o Ecumenismo sempre lembrado, sua CNBB, seu Concílio Vaticano II, sua Ação Missionária, respaldada pela Palavra de Deus que diz: “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”? (Jo. 8,32). Não há termos de comparação entre qualquer regime político-partidário e qualquer ação evangelizadora sob a tutela da Igreja. Nossa certeza está, mais uma vez, nas palavras de Jesus diante de Pilatos: “o meu Reino não é deste mundo! Se o meu Reino fosse deste mundo, os meus seguidores lutariam para não deixar que eu fosse entregue aos líderes judeus. Mas o fato é que o meu Reino não é deste mundo... Foi para falar da verdade que eu nasci e vim ao mundo. Quem está do lado da verdade, ouve a minha voz”.  Será que alguém duvida da coerência de Jesus nessas citações?


Dá para comparar os Reinos de Jesus e da Igreja com os reinos deste mundo? E comparar os “conceitos” da Igreja, em sua doutrina, com os “preconceitos” de políticos, desvirtuando a Pastoral da Igreja e a sua credibilidade entre o povo? 

            Será que os 21 anos da ditadura, ensinando nas escolas, universidades e em outros locais públicos, até em cultos, a Organização Social e Política do Brasil (a famosa O.S.P.B.) criou, sobretudo entre os mais jovens, um modo de pensar e cultuar o poder reinante, que convencesse a todos?

            A ditadura militar no Brasil durou de 1º de abril de 1964 a 15 de março de 1985, mediante um golpe de Estado que depôs o então Presidente João Goulart, ficando em seu lugar um governo autoritário, marcado ela supressão de liberdades civis, perseguição a opositores e violência estatal.

            Sucederam-se no poder os generais: Humberto Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo sob decretos, atos institucionais que suspendiam direitos civis e ampliavam a repressão política. Era o famoso tempo, chamado de “era de chumbo”, ao vigorar o Ato Institucional Número 5, que dava todos os poderes ao ditador. Não faz muito tempo, no penúltimo mandato do governo federal, ventilou-se a possibilidade de recorrer ao A.I.5 como modo de intimidar o povo. É uma lembrança amarga, ainda da ditadura. Pode?! Do jeito que as coisas estão andando é bom ‘ir pondo as barbas de molho’... 

            No entanto, graças à 3ª Pessoa de Deus, e para dar continuidade às Sagradas Escrituras, dirigidas a Pedro e para ver em Leão XIV, a extensão de Francisco, dois colegas jornalistas franceses, da Editora Salvator: Samuel Pruvot e Marc Leboucher escreveram a 04 mãos e em tempo recorde, cerca de 190 páginas, sobre Leão XIV, o novo Papa, à escuta do Espírito Santo. Esta é a atitude primeira do papável: acreditar, piamente, na inspiração do Espírito. Não nas especulações de vaticanistas. Na pluralidade dos pontos de vistas ou em achismos de última hora. Muito menos as opiniões de “chefes de Estado” ou das apostas ou especulações na bolsa de valores, estimuladas por eles. O que importa é ter fé em Cristo vivo. A fé em Cristo, mas também no Espírito Santo, ator-chave do “conclave”.

 Crer no Espírito Santo de Deus é fundamental. Só a súbita aparição da fumaça branca caracteriza o sinal de Deus e a aclamação: Habemus Papam! O Papa deve ser, antes de tudo, um agregador, porque Pedro sempre foi o Ministério da Palavra de Deus. Lembram-se do Livro dos Atos dos Apóstolos, em seu capítulo 4, versículos 16 em diante, após um milagre feito por Pedro e João e os judeus discordaram e os proibiram de falar naquele Jesus, de quem eles afirmavam, “ter morrido e ressuscitado”? O que Pedro lhes respondeu? “Os Srs. mesmos julguem diante de Deus: devemos obedecer aos senhores ou a Deus? Pois não podemos deixar de falar daquilo que temos visto e ouvido. Ai de nós se não falarmos”!  

Será que tem algum reinado no mundo, algum império tão longevo, alguma autoridade que repasse poderes a outrem, que tenha uma lógica de pensamento ou uma unidade política, tão compacta, tão documentada, até artisticamente, como tem a Igreja católica, com cerca de 2.000 anos de tradição, ensinamento, unidade de princípios e de prática, como nós temos?  É claro que a Igreja é composta de homens, como as demais instituições. Mas têm todos eles um fio condutor, uma busca de unidade, um desejo de governar e ser governado, respeitando as hierarquias, os colaboradores, toda a escala social que compõe o todo, com revisões sistemáticas vendo a realidade, julgando-a à luz de uma orientação divina e agindo conforme sua consciência?



sábado, 9 de agosto de 2025

COLUNA PRIMEIRO PLANO



Guaraciaba do Norte:                     Muitas alegrias na Festa da Padroeira

                                EDIÇÃO DE 09 de agosto                                                                                                          

Semana passada, fomos a uma Missa em Ação de Graças.  A Leitura do Evangelho e a Homilia a seguir, fora feitas por um Diácono ou Subdiácono muito jovem.

 Observei que a Igreja tinha equipamentos de som em quantidade. Mas a qualidade era péssima. Aliás, o microfone do auxiliar era ótimo. O que estava com o leitor e pregados, péssimo.

A mesma coisa aconteceu na Assembleia Legislativa. Por causa da falta de nitidez do som, perdeu-se boa parte do excelente discurso do Deputado Renato Rosano. O que se aproveitou foi por causa da habilidade do orador.

E lá estavam mais dois bons oradores: Marco Aurélio de Carvalho, homenageado pelo Grupo Prerrogativas e Marcelo Uchoa, da Comissão Federal de Anistia.  Mas o som não ajudava.                     

       

Desconfiei dos meus ouvidos e perguntei a uma jovem que estava ao lado. E ela confirmou que estava tendo dificuldade de entender as falas. Desde os meus tempos no Seminário, sou atento a este assunto.

 As instituições não cuidam sobre a qualidade do som que chega aos ouvintes. Uns são muito baixos, outros, muito altos e sem nitidez. De que serve tanto investimento, sem qualidade?

 Outro problema é da linguagem. Pregadores que falam para impressionar e não para serem entendidos. E não impressionam porque a maioria não entende.

 As paróquias, em suas festas, convidam pregadores das paróquias vizinhas e não lhes recomendam o cuidado com a linguagem. Por que não falam com simplicidade, como são os textos do Evangelho?

 Tenho observado plateias de mais de mil pessoas em completa atenção aos pregadores e, no final, nada entendem. Qual a mensagem da pregação que levam para suas casas? Nenhuma. Basta perguntar.

 E eu já fiz isto quando era aluno da disciplina Teologia da Palavra, no Seminário de Camaragibe, em Pernambuco. Estive em quase 50 missas para ver e ouvir os sermões e perguntar a algumas pessoas o que entenderam.

 Havia até quem elogiasse os pregadores, mas confessavam nada ter entendido. O exibicionismo toma o lugar da necessidade da clareza da mensagem.

 E os patrocinadores do golpe frustrado já começam a ser julgados. O primeiro condenado por financiar o 8 de janeiro pegou 17 anos de prisão. Trata-se de um empresário de Londrina.

 Muita gente está botando as barbas de molho. Os defensores do golpe queriam a volta da ditadura. Não deu certo. Não tiveram competência e muito menos parcerias. Os financiadores, na moita, não esperavam ser descobertos.

 Agora sofrem prejuízos em seus negócios. Basta a população descobrir quem eram os patrocinadores de 8 de janeiro e fazem boicotes nos seus comércios. Restaurantes andam perto da falência.

 Senadores e deputados, nesta semana, tentaram bloquear as ações da Câmara e Senado. O Senador Magno Malta preso por correntes, à mesa do Senado dizia q          eu só sairia dali morto.

 Seus propósitos não foram realizados e, mesmo assim, está por aí vivinho da silva, com a mesma conversa de Anistia e Impeachment do Ministro Alexandre de Moraes. Não deu.

Os eleitores que votaram neste tipo de deputado e senador devem repensar suas escolhas. Elegeram gente que não sabe qual é a função de parlamentares.

 Nesta primeira quinzena de agosto, muitas paróquias estão celebrando suas homenagens a Nossa Senhora que, sob diversas denominações, é a padroeira.

 Montamos um pequeno vídeo com a relação das fotos das Igrejas construídas em homenagem a Nossa Senhora.

 Na região norte do Ceará, mais de 15 paróquias escolheram Nossa Senhora como padroeira. Na próxima semana muitos estarão retornando às suas cidades para as celebrações religiosas.

 Nossa Guaraciaba do Norte recebe conterrâneos que moram em diversos pontos do país. É uma tradição antiga. Amigos se reencontram para momentos de muitas recordações.

 Percebo muita satisfação, este ano, com o retorno das barracas para a praça do Guaracy, onde tradicionalmente, era o ponto de encontro, após as novenas. E tudo muito bem organizado.

 Está confirmado: As comemorações do Centenário do prédio feito para abrigar o Seminário Menor de Sobral, hoje sede da Reitoria da UVA, será nos dias 8 e 9 de novembro.

 Ex Seminaristas estamos organizando uma programação para celebrar aquela importante data para cada um de nós. Ali chegávamos de toda a zona norte para estudar, pensando em ser padres.

 Alguns se tornaram padres. Muitos desistiram, mas ninguém se perdeu na caminhada. As histórias de muitos estão nos livros AD VITAM e AD LABOREM.



 MEMÓRIAS DO EXILIO

                                          A DITADURA  AGONIZANTE

João de Paula Monteiro Ferreira (*)

 - Você pode traduzir uma entrevista com o Apolônio de Carvalho?

 Foi o que me perguntou uma jornalista alemã, depois de me explicar que a entrevista precisava ser feita em seu idioma, pois ela não falava português, espanhol, nem francês, línguas faladas pelo brasileiro que ela queria entrevistar. Esclareceu-me que a Rádio de Berlim para a qual trabalhava, estava interessada em contar para seus ouvintes a estória de um ex-militar do Brasil que se tornou herói da Resistência Francesa, lutando contra a ocupação nazista.

 Eu já tinha lido sobre a notável trajetória de lutas de Apolônio de Carvalho, mas não conhecia aquela pessoa afável, bem-humorada e cheia de vitalidade, que àquela época beirava os 70 anos de idade. Apolônio respondeu de modo direto e simples todas as perguntas da entrevistadora e narrou sem falsa modéstia, mas com muito comedimento seus embates com as ditaduras do Estado Novo e a de 1964 no Brasil, sua participação nas Brigadas Internacionais contra o fascismo do General Franco, na Espanha e suas atividades na Resistência Francesa, principalmente nas cidades de Marselha, Nimes e Toulouse, que foram reconhecidas com sua condecoração pela Legião de Honra da França (Ordre National de la Légion D’Honneur), instituída em 1802 por Napoleão Bonaparte para distinguir heróis por atos em defesa do país.

 A entrevista ocorreu nos bastidores de um encontro que se realizava no auditório do Senado Italiano, em Roma, nos dias 27, 28, 29 e 30 de junho de 1979. Em torno da bandeira da anistia, reuniram-se ali representantes de todas as forças que lutavam pelo restabelecimento da democracia no Brasil, vindas do país e dos mais variados lugares do mundo, com predominância de exilados na Europa. O evento exigia a libertação dos presos políticos, a volta dos refugiados, explicações sobre o destino dos mortos e desaparecidos e o retorno da democracia. Um ponto de atenção dos participantes era não admitir a tentativa do governo ditatorial de dividir as forças democráticas, excluindo da anistia alguns grupos de oposicionistas definidos a seu critério.

                                        

 Aquele encontro era o ápice do processo de unificação das forças de oposição à ditadura militar, que começara com uma ação protagonizada por mulheres no Brasil em 1975. Naquele ano, mães, esposas, companheiras e filhas de perseguidos políticos criaram o Movimento Feminino pela Anistia, que dois anos depois ganhou grande impulso com a criação dos CBAs – Comitês Brasileiros pela Anistia que se espalharam pelo país e pelo mundo. Criado na Europa em 1978 por estímulo de CBAs do Brasil, o movimento pela anistia havia se fortalecido muito, contando com comitês, núcleos e outras formas de organização em suas mais importantes cidades. Desde a Semana de Solidariedade pela Anistia no Brasil realizada em Colônia, aumentaram muito as articulações locais com grupos de outras cidades por meio do CBA, coordenado por Cristina Buarque, que também participou do encontro na Itália, e pelo Grupo de Coordenação Brasil da Anistia Internacional, com destaque para os vínculos com Lisboa, Paris, Lausane, Amsterdam, Roma e Londres. Várias cidades dos países escandinavos tinham também uma atuação muito relevante.

 Dois meses depois daquele evento de Roma, com a ditadura afogada na crise econômica gerada pelo crescimento astronômico da dívida externa e pelo aumento da inflação, foi aprovada pelo Congresso Nacional uma lei que concedeu anistia aos que “cometeram crimes políticos ou conexos com eles”. Com isso abriram-se possibilidades para uma gradativa desmontagem do aparato ditatorial organizado durante 15 anos e para a reconstrução da democracia. Mas, a expressão “conexos com eles” era o que hoje se chama de jabuti que, inserido sorrateiramente na lei, negava seu espírito. Com aquela manobra, ao anistiar os perseguidos, a lei anistiava ao mesmo tempo seus perseguidores. Em outras palavras, era mais uma artimanha perpetuadora da impunidade que resultou em estímulo para os golpistas contumazes do país voltarem a atentar contra o Estado de Direito no Brasil.

 No que me diz respeito, levei algum tempo para compreender as consequências da impunidade dos que haviam cometido crimes contra a democracia e contra os opositores da ditadura. Cheguei a considerar que, diante daquele fato consumado, o melhor seria virarmos aquela página triste da nossa história e, olharmos para a frente, cuidando de construir uma democracia revigorada e com justiça social. Pensei assim até que saudosistas do regime de opressão começaram a tramar por seu retorno. Neste sentido, há dois exemplos que clarificam tudo: um dos maiores torturadores da ditadura tornou-se inspirador público do chefe da mais recente tentativa de golpe e um general que se senta ao seu lado no banco dos réus do STF (aquele que, em reunião ministerial disse que era “preciso virar a mesa” antes das eleições de 2022) era o Ajudante de Ordens de um Ministro do Exército que tentou dar outro golpe dentro do golpe em 1978, visando eternizar a ditadura militar.

 Falando-se hoje sobre aquele movimento de cidadania ocorrido no Brasil e no mundo na segunda metade da década de 1970, que visava pôr fim a uma longa e brutal ditadura em nosso país, não se pode deixar de mencionar uma farsa da atualidade que avilta o nome anistia, quando um clã familiar conspira com uma potência estrangeira para tentar livrar um membro seu da punição pelo crime de tramar a volta de um regime ditatorial. Este acinte à soberania do Brasil utiliza sanções, taxações abusivas e outras chantagens econômicas e políticas contra o nosso país e suas instituições. Não deixar impune a nova geração de golpistas é um ato de proteção da democracia contra futuros ataques por parte dos que querem uma anistia preventiva para continuar delinquindo contra o Estado Democrático de Direito no Brasil.

 Punir pela primeira vez golpistas no Brasil será uma sinalização de que o golpismo começa a não compensar. 

                                                       *)  Dr. João de Paula Monteiro Ferreira, de Crateús, Médico e Consultor Empresarial.                                                             Destacada liderança universitária no período da ditadura.

BORDADOS PEADAGÓGICOS DA PROFESSORA NAZARÉ ANTERO


 

O COMENTÁRIO DA SEMANA

 

 A IGREJA SOFREU COM OS DESGOVERNOS DA DITADURA

Meu interlocutor, Dr. Mariano, à distância, que me “está perguntando para que eu vá respondendo” – não ao vivo, como eu fazia outrora pelo Rádio, mas, 450 km nos separando - ao me perguntar sobre a relação de Getúlio com a Ação Católica, acrescentava sua mesma curiosidade, relacionada a João Goulart. Vou tentar responder, embora vendo entre os 02 ex-presidentes, mais dois que ficaram de lado: Juscelino Kubistchek e Jânio Quadros; aquele, sobretudo pela verdadeira parceria com a Igreja Católica do Brasil, em gratidão a ela. O colega, Prof. Leunam discorrerá melhor do que eu, ao falar do M.E.B.

 

O meu ‘comentário da semana’ passada encerrava com as palavras: até breve. Voltarei. Jango vem aí.

Mas, antes de Jango chegar, o reboliço foi muito grande. Antes de tudo porque, devido à pressa de Juscelino, de fazer o Brasil “crescer cinquenta anos em cinco”, desgastara-se muito com dívidas exorbitantes ao construir Brasília em seu mandato e ao comprar um histórico prédio na Praça Navona, em Roma para ser a Embaixada Brasileira, incluindo uma contígua Igreja. Tudo muito caro. É uma área tão importante que, ainda hoje é aberta ao público pra visitas.

Antes mesmo de Juscelino ser presidente, Jânio Quadros já alimentava sua vocação política, sendo, seguidamente, vereador, prefeito e governador de São Paulo, Deputado Federal pelo Paraná e, em sete anos, já disputava a Presidência da República. Durante seu mandato de Deputado Paranaense

nunca compareceu ao Congresso, pois viajou, o tempo todo, com sua família, envolvido em polêmicas à sua imagem, pois visitara alguns países comunistas, parceiros da guerra fria. Além da China de Mao Tsé-Tung, a Cuba de Fidel Castro e Chê Guevara, a Rússia do astronauta Yuri Gagarin e outros.

Para Jânio, esses gestos não representavam apoio explícito ao comunismo, mas simbolizavam, para o grande público, sua política externa independente, o que muito desagradava a seus aliados da U.D.N. e a militares e demais políticos conservadores. Ele não tinha base de apoio político.

Jânio só voltou ao Brasil, quando Juscelino estava em fim de mandato e tinha feito inúmeros gastos e deixado débitos com a construção de Brasília e com a compra caríssima do local Histórico da embaixada brasileira em Roma.

Ele aproveitou bem, a oportunidade, para empreender a campanha em seu favor e ser eleito. De fato, aos 03 de outubro de 1960, com o apoio da U.D.N., um partido conservador e outros pequenos partidos, ao som de um ‘jingle publicitário’ em todo o Brasil, o homem da vassoura, cantou de norte a sul: “varre, varre, vassourinha” e derrotou o candidato, apoiado pelo partido comunista, Marechal Teixeira Lott, nas urnas. Que coisa mais contraditória!...

Enquanto Jânio assustava pelas visitas feitas a países comunistas e que certamente seria votado por comunistas, foi eleito pelos votos da direita, e um Marechal, que poderia ser votado pela direita, foi o candidato dos comunistas, e foi o grande perdedor. Não deu certo, a estratégia. Jânio e seu Vice, Jango,

foram eleitos. Com 07 meses Jânio renuncia e após certo malabarismo político, Jango assume seu mandato como presidente. Vou falar sobre ele, agora. A meu ver, Jânio e Mal. Lott se maquiaram de comunistas, sendo fascistas os 02.

João Goulart não precisou maquiar-se. Ele era autêntico socialista. Não precisou travestir-se, tanto que aceitou ser Vice de Jânio, admitindo que sua roupagem de viajante por países e em contato com esquerdistas era autêntico. Jango precisou buscar apoio de setores tradicionais do Catolicismo e já se foi conduzindo para o regime presidencialista, sem radicalizações sociais.

 O susto que a renúncia de Jânio causou em 07 meses de seu governo, alegando “forças ocultas” fez o novo presidente ser mais precavido e procurar livrar-se das tais “forças ocultas” que poderiam continuar em curso. Os anos 60 estavam a todo vapor na Missão da Igreja. Além de sua Doutrina Social, da

A.C. já muito ativa, da convocação do Papa João XXIII pro Concílio Vaticano II, das Encíclicas Sociais do Papa João e de Paulo VI, já estavam fermentando movimentos de renovação católica e de diálogo ecumênico.

O surgimento do Concílio e sua realização durante 03 anos, reunindo mais de dois mil bispos, cardeais e peritos-teólogos do mundo trouxe um novo espírito no seio do catolicismo, marcado por um movimento de renovação litúrgica e da difusão do ecumenismo, além da renovação da consciência do ser católico, com uma forte preocupação social.

O Concílio afirmou, fomentou uma maior sensibilidade para as diversidades culturais e para os problemas sociais do mundo, além de uma nova maneira de pensar a fé em uma sociedade modernizada e uma relação renovada entre o catolicismo e a sociedade na qual a Igreja estava atuando.

Nessa Igreja conciliar não havia lugar para “forças ocultas”, para antidemocracia, para um Papa conservador. Tinha que ser um Papa carismático e renovador que inaugurasse um novo jeito de ser Papa, mais próximo da realidade, sem intransigência e sem dogmatismos. Por isso, o catolicismo estava entrando em uma época mais arejada, enquanto o Brasil estava perto de entrar na época de chumbo da ditadura; chegávamos ao golpe militar: 1964.

Jango havia assumido o governo, depois da renúncia de Jânio, naquele clima de Igreja em renovação. Apesar de alguns bispos e de parte do clero, conservadores, ainda no Concílio e após o Concílio apareceram: a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), o CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano), a CLAR (Confederação Latino-Americana e Caribenha de Religiosos), além de movimentos católicos leigos que se dividiam entre o apoio aos movimentos sociais do campo, da Igreja popular e das campanhas de alfabetização, apoiados pelo novo presidente, Jango, embora desapoiados por católicos e políticos conservadores. Aí o golpe foi mais mortal. A ditadura arrebentou por 21 longos e dolorosos anos. Foi uma “democradura”.

Aliás, a Democracia Brasileira, antes do Grito do Ipiranga, depois do Grito e até hoje, foi sempre entrecortada por fatos antidemocráticos em toda a sua história: na inconfidência mineira, na conjuração baiana, na revolução pernambucana, na crise do sistema colonial, no grito da independência, na

proclamação da república e na sequência de regimes de exceção: de Getúlio e seu suicídio, bem como na candidatura, eleição e renúncia de Jânio, no governo de Jango que levou ao golpe militar... Tudo foi fragilizando o Governo Brasileiro, que vai capengando até hoje, maquiando a Democracia.

Quem sofreu consequências de tudo isto e esteve presente em todos os momentos – mais difíceis, no início e encontrando saídas pelas suas atividades pastorais - foi a Igreja, com sua criatividade, ficando do lado do povo, com sua Doutrina Social, suas Encíclicas, sempre buscando o bem comum, com sua

Ação Católica especializada, com o seu ecumenismo, sempre baseada no conteúdo da Palavra de Deus que diz: “a verdade vos libertará” (Jo. 8,32). Ela não deixou de ser afetada pelos “desgovernos” que se seguiam e por suas ideologias conservadoras. Mas ela seguiu em frente Maus políticos têm-se

apresentado como “verdadeiros”, ao usarem o princípio “Joanino”, mas o usam da boca pra fora. Aprendamos com a Igreja. Podemos voltar a este tema?

BORDADOS PEDAGÓGICOS DA PROFª NAZARÉ ANTERO







COLUNA PRIMEIRO PLANO

  LUIZIANE, A CAMINHO DO SENADO, SAI DO PT, MAS APOIARÁ LULA E ELMANO.                                        EDIÇÃO DE 04.04.26            ...